A metamorfose Raul Seixas – Alex Medeiros

Uma calça toda vermelha, de boca sino em trinta centímetros, foi muito mais chocante do que as primeiras madeixas já…

Uma calça toda vermelha, de boca sino em trinta centímetros, foi muito mais chocante do que as primeiras madeixas já tocando os magros ombros do moleque de apenas 14 anos. Uma imagem recebida com maus olhos naqueles dias de outubro de 1973.

Foi fácil convencer meu pai a cortar o tecido na loja da Avenida Rio Branco, ali de frente ao colégio que eu já estava frequentando desde 1972. Minha mãe levou o corte para a amiga costureira, e em uma semana ficou pronto meu presente de aniversário.

A calça e a cor foram influências do cantor que desde maio havia arrebatado o Brasil e provocado reações na juventude com uma música que mais parecia um texto lido aos gritos. Após a estreia na TV Tupi, Raul Seixas apareceu de calça vermelha noutro canal.

Nenhum outro cantor dentre aqueles que produziram canções rebeldes nos anos de regime militar, teve um início de carreira carregada de uma essência histórica tão grande quanto aquele baiano magricela, de barba e cabelos desgrenhados e roupas de hippie.

Na noite de 20 de maio de 1973, uma nação inteira estava ligada na Tupi para rever o maior mito da televisão brasileira, o apresentador Flávio Cavalcanti, que por dois meses esteve proibido de apresentar seu programa, que era um fenômeno de audiência.

Uma portaria do Departamento de Censura Federal, assinada por um senhor chamado Rogério Nunes, por sua vez endossado pelos ministros Alfredo Buzaid, da Justiça, e Higino Corsetti, das Comunicações, deixou o programa fora do ar por nove domingos.

Flávio Cavalcanti era assumidamente de direita, amigo de políticos e generais, mas tinha uma vaidade maior que todos eles juntos. E naquela noite, voltava com o ego ferido e querendo mostrar que sua inteligência superava qualquer ato conservador.

E começou com o clássico “boa noite, Brasil”, dizendo a seguir “a saudade mata a gente, mas o reencontro dá vida nova”. E danou-se a dar boa noite para sete vultos da História nacional, tendo como resposta uma voz interpretando cada um deles.

Saudou primeiro Pedro Álvares Cabral, chamando de “meu descobridor”, depois Tiradentes, “marca da nossa independência”, Dom João VI, “desembarcou no Brasil com a passagem do progresso”, Dom Pedro I, “do grito de independência ou morte”…

Em seguida, deu boa noite à Princesa Izabel, “que trocou a mancha da escravidão pelas luzes da liberdade”, e encerrou com Santos Dumont dizendo “no ano do seu centenário para orgulho e glória de todos os brasileiros”. Aí, convocou um novo corpo de jurados.

Flávio levantou uma taça e brindou: “eu gostaria de beber à saúde de todo o Brasil, de todos vocês, e vou beber pelo trabalho honesto e por um Brasil cada vez maior. Daqui a pouco eu vou quebrar esse copo, e vocês vão saber porque eu quebrar esse copo”.

Naquele instante, talvez ele jamais houvesse sabido, a história se fazia, tanto por sua postura de reação à censura, quanto pelo nascimento de um dos maiores ídolos da MPB. Ele gritou um nome nunca antes ouvido: “Raul Seixas!” E o magrelo entrou nos lares.

Raul pousou uma maleta 007 na tribuna do apresentador e sacou algumas dezenas de folhas de papel almaço que passou a ler num misto de grito e cântico. Era a estranha e maluca letra de “Ouro de Tolo”, incompreendida para a maioria dos telespectadores.

Diante da plateia estupefata e aos berros, e com os jurados boquiabertos, Raul cantava e se mexia como uma víbora num chão em brasa, não tinha o domínio de palco que depois virou sua marca, a escova de dentes no bolso do paletó era pra lá de Didi Mocó.

Driblou a timidez e o erro inicial se acusando de fazer comercial do carro Corcel. Flávio foi ao seu auxílio, mandou o maestro Cipó dar um tempo e avisou: “Eu gostaria de chamar a atenção, porque quem escolheu esse número para abrir o programa fui eu”.

Olhou para os jurados Marisa Urban, Érlon Chaves, Danuza Leão, Maysa e Armando Pittigliani e afirmou: “Trata-se de uma das letras mais inteligentes que eu já tenha ouvido, prestem atenção na letra, por favor”. O cantor continuou na noite apoteótica.

Cinco meses depois, Raul Seixas era uma realidade artística, um fenômeno musical, fazendo a cabeça de uma juventude ávida por romper barreiras, mudando nossos guarda-roupas. Hoje, nos 25 anos da sua partida, escrevo para louvar sua chegada.

Em 1985, vi o nascimento do Tributo a Raul, na Praça da Sé, em São Paulo, e quatro anos depois lamentei sua morte com um anúncio para a Dumbo Publicidade. Em 2006, gargalhei quando Rita Lee gritou na UFRN “Raul Seixas tá mandando Lula se foder”.

Eu vi a estreia dele na TV e desde então sou antenado no seu repertório, sou fragmento do processo histórico que revelou o pai do rock do Brasil. E presto tributo a Flávio Cavalcanti pelo tom profético ao dizer em 1973: “Raul Seixas, guardem esse nome”. (AM)

 

Debate

Em que pese a boa vontade e a competência do pessoal da 95 FM no debate de ontem, na CDL, ficou mais do que comprovado que são apenas dois candidatos com condições de manter uma campanha eleitoral com conteúdo e equilíbrio: Henrique e Robinson.

Henrique

Mesmo sendo um político com larga experiência, o atual presidente da Câmara Federal e candidato do PMDB não exibiu o conhecido padrão de oratória. Demonstrou nervosismo algumas vezes e se deixou levar por provocações bobas dos esquerdistas.

Robinson

Conseguiu superar o ponto fraco da timidez, até fez brincadeiras, mas exagerou nas críticas quando acusou a Federação da Indústria de ser comitê de Henrique e se igualou aos radicais nos ataques aos ex-governadores, quase todos já apoiados por ele.

Robério

Robério Paulino (PSOL) até consegue elaborar um discurso, consequência da experiência acadêmica em sala de aula, mas incorre em delírios ideológicos que comprometem a defesa das propostas, como o armazenamento subterrâneo de água.

Araken

É o candidato do bom-mocismo, o advogado compadecido com clientes pobres. Só não conseguiu imprimir no debate a eloquência natural da profissão, perdeu-se em repetitivas declarações que juntas não formavam um período para nossa compreensão.

Simone

Parece uma viajante do tempo, vinda das passeatas de 1968 para 2014. Só lhe faltou trocar o microfone de lapela por um megafone. É de um radicalismo antiquado e piorado pelo tom de raiva e mau humor em cada chavão e bordão de militante.

Guia da TV

Marketing político é a maquiagem que retoca as falhas dos candidatos na TV. E foi isso que fizeram Adriano de Sousa e João Maria Medeiros com suas equipes na estreia dos programas de Henrique Alves (PMDB) e Robinson Faria (PSD) respectivamente.

Guia da TV II

Dois belos programas de estreia, impecáveis na edição, nos textos e na exploração das falas dos candidatos. Um show as imagens em preto e branco da história de Henrique, e surpreendentemente emocionante o tom humanista nas palavras de Robinson.

Aécio no shopping

Apoiadores do candidato do PSDB em Natal levaram hoje de manhã para os coordenadores locais da campanha a sugestão de que Aécio almoçasse na praça de alimentação do Midway e não em petit comitê com Nevaldo Rocha noutro local.

Aeroporto

Nem bem acabou a Copa e o Aeroporto Aluízio Alves já apresenta problemas semelhantes aos que havia no Augusto Severo. Semana passada, turistas procuravam casa de câmbio e farmácia, mas ambas as lojas tinham acabado de encerrar atividades.

Médicos

Dia 28 desse agosto tem eleição na Associação Médica do RN. E a chapa “Luta Médica”, encabeçada pelo oftalmologista José Rosendo e com Marcelo Cascudo de vice, quer revitalizar a entidade e valorizar a categoria nesses tempos pós-cubanos.

Ed Motta na Cidade

Um dos mais criativos e versáteis músicos do país, Ed Motta foi a atração ontem em Ponta Negra, abrindo o evento “Fest Bossa & Jazz” que prossegue em Pipa. Cultuado pelo talento de saber como poucos tornar o jazz popular e fazer uma MPB erudita, o sobrinho de Tim Maia rasgou elogios à programação musical da Rádio Cidade, postados em sua página do Twitter (imagem).

Compartilhar: