Método trouxe avanços para deficientes visuais
Doze anos após o apagar do Século das Luzes (18), um fato trágico na vida de uma criança francesa serviria de alento para milhões de pessoas até este século 21 adiantado em sua segunda década. Com três anos de vida, Louis Braille brincava na oficina do pai, um fabricante de selas e arreios, quando uma ferramenta acertou seu olho esquerdo com resultados catastróficos. A cegueira total foi diagnosticada. Era 1812, ano em que Napoleão Bonaparte invadiu a Rússia. Na sequência da Revolução que abalou o mundo, uma vida aberta a experimentos e maiores oportunidades educacionais para o povo tinha sido implantada. Levado pelo pai e pelo padre da paróquia da região onde morava, Braille foi matriculado em uma boa escola. Em pouco tempo, perceberam que aquele menino tinha algo de excepcional.
Aos quinze anos, ele criaria um sistema de seis pontos que facilitava a leitura textual através do tato. E em 1829, com meros vinte anos, publicou o método de comunicação que, hoje, 04 de janeiro, é comemorado como o Dia Mundial do Braille. Exceto por ligeiras alterações, o sistema permanece o mesmo há quase 200 anos, disponível, só no Brasil, para mais de 35 milhões de pessoas que apresentam alguma deficiência visual. Lido da esquerda para a direita com ambas ou uma das mãos, o método foi usado, em um primeiro momento para leitura e escrita musical. A facilidade para um cego compreender música é tão grande que chega a ser mais fácil do que para uma pessoa com a visão completa. Desde então, a adaptação foi feita em itens indispensáveis para quem estava condenado à escuridão do analfabetismo.
Ronaldo Tavares da Silva é presidente da Sociedade dos Cegos de Natal. Bem articulado, o radialista fala sobre avanços que o sistema trouxe para deficientes visuais, também hoje com o Dia Municipal celebrado. “É muito bom ter independência. Quem não lê, mal fala, mal vê. Agora eu recebo contas de telefone, leio bulas de remédio, rótulos de cosméticos e produtos de higiene em Braille. Sem contar publicações importantes, como a Constituição Federal, o Código de Defesa do Consumidor e a Bíblia Sagrada. Como posso exercer minha plena cidadania se não tenho conhecimento das leis que regem meu país e meu Estado?”.
Em freqüente contato com o Instituto Benjamin Constant e a Fundação Dorina Nowill, ele recebe obras literárias de José de Alencar, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, assim como a Revista Brasileira para Cegos (RBC). Através da entidade que coordena, aprendeu o método do francês revolucionário e hoje é uma pessoa culta e bem informada, ao contrário da maioria dos deficientes físicos e visuais. “No tocante ao Braille, tem avançado. Mas ainda sofremos com a falta de cursos. Como vamos ter qualificação, que é a maior desculpa usada por empregadores para não contratarem cegos?”, diz Ronaldo Tavares.
Um primeiro passo será a implantação do curso de licenciatura em Língua Brasileira de Sinais (Libras), na UFRN, no segundo semestre. Segundo o professor de linguística, Paulo Duque, 40 vagas serão oferecidas, para quatro anos de estudos, após um processo de seleção como um curso qualquer. “Ainda neste primeiro semestre, vamos promover concurso público para professores. Daremos preferência para quem tiver deficiência, mas docentes sem problemas visuais também serão observados. Depois disso, vamos ver como será o classificatório dos alunos, se obedeceremos ao Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ou algum outro critério. Já estamos montando laboratórios, comprando equipamentos”.
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