Meu compadre Creso

Há cem anos, no dia 26 de abril de 1914, nascia Creso Bezerra que viveu até o dia 26 de…

Há cem anos, no dia 26 de abril de 1914, nascia Creso Bezerra que viveu até o dia 26 de setembro de 1976. Foi prefeito, deputado estadual e federal.

Mas, sua grande presença humana foi junto aos amigos, como mostram os artigos em forma de carta de Veríssimo de Melo, Danilo Bessa e Ticiano Duarte. Por isso a coluna transcreve a carta de Veríssimo, publicada na edição do dia 21 da Tribuna do Norte. Para Danilo Bessa, Creso foi um exemplo de homem, de amigo e de político. Para Ticiano, no seu artigo, à época, um natalense que amava sua cidade e por isso não pode esquecê-lo.

No instante feliz em que regressava de uma viagem, recebi de meu filho Sílvio a notícia dolorosa:

- Creso Bezerra morreu!

A primeira reação foi de total repulsa: Não é possível. Creso não é de morrer!

De fato. Há pessoas que parece não serão nunca de morrer embora haja muitas outras que nasceram com uma única finalidade: morrer definitivamente.

Creso Bezerra nunca teve a vocação de morrer. Foi um homem que nasceu para viver, que viveu para ser útil, para servir, que soube desfrutar a vida corajosamente, em todos os sentidos, até os seus últimos instantes neste mundo.

Os detalhes incríveis chegaram depois. Soube-se que (médico), pressentindo a gravidade do seu estado de saúde, na manhã do dia 26 de setembro de 1976, chamou seu filho Flávio e deu-lhe instruções finais, após assinar vários cheques:

- Este é para o meu enterro. Este é para as despesas do mês. Este é para isso, este é para aquilo outro, etc. Agora me leva ao Pronto Socorro. Tenho certeza de que desta vez não voltarei. Mas não precisa acordar agora sua mãe. Ainda é cedo. Mais tarde vocês avisarão a ela.

E assim, plenamente consciente de que estava condenado à morte, ainda teve tranquilidade suficiente para enfrenta-la como sempre viveu, realisticamente, corajosamente.

Só agora, conhecidos os detalhes terríveis, é possível acreditar-se que Creso Bezerra morreu.

Quem o conheceu de perto, sabe bem que ele tinha sangue frio para fazer o que fez nas últimas horas de sua existência. Creso era um homem com letra maiúscula. Um homem de total responsabilidade com a sua família, que ele amava, mas um homem também no sentido de que sabia compreender e justificar todos os homens, na sua grandeza ou na sua desgraça. Creso valorizava o humano que há nos homens e nesse sentido ele era um humanista.

Foi deputado estadual e federal. Todavia, como homem público, para que ele se realizou mesmo foi como Prefeito de Natal, – a cidade que ele tanto amava. E seu amor por esta cidade foi tão grande que um dia, desgostoso com as lutas partidárias, resolveu abandonar sua terra e refugiar-se no Rio de Janeiro. Ausentou-se com suas mágoas para não ferir o amor à sua cidade.

Passou muitos anos por lá, trabalhando e encaminhando os filhos para a vida. Mas com que alegria falava das coisas e dos homens de Natal! Perguntava por todos. Divertia-se com o anedotário de muitas figuras provincianas. Seu repertório de “estórias” natalenses era imenso. E na verdade, Creso sempre foi excelente papo, alegre, gostoso, brilhante.

No seu exílio voluntário, ainda fez uma tentativa para regressa a Natal. Voltou, com enorme alegria para seus amigos, parentes, admiradores. Todavia, dentro de poucos meses, desencantou-se com a cidade em mudança, cheia de gente nova. Na instituição que ajudou a fundar (a Policlínica do Alecrim) quase não conhecia mais ninguém. Era um estranho em sua própria terra. E esta condição o feriu de tal forma que ele deliberou voltar ao Rio de Janeiro, confessando sua decepção a alguns amigos.

Natal é uma cidade linda e aberta, mas ninguém se iluda: Não a abandono nunca. Basta a ausência de alguns anos para um natalense se sentir estranho e isolado em Natal. A nossa terra é como essas amantes ciumentíssimas que não admitem a ausência prolongada da pessoa amada. Quem vive aqui é sempre querido. Quem se afasta, a cidade passa a ignorá-lo totalmente. A readaptação é processo lento e sofrido. Poucos homens conseguiram voltar a readaptar-se à cidade, embora pagando juros altos em decepções.

Creso, infelizmente, não aceitou a reconciliação com a terra nos termos em que ela exigia. E regressou ao Rio de Janeiro de sempre.

Do meu compadre Creso guardo recordações inesquecíveis e gestos imorredouros. Como médico e político, ele viveu em Natal os melhores anos de sua vida. Serviu à cidade e aos amigos como verdadeiro homem público. Deixou obras de valor incontestável, como governador da cidade. Como médico, serviu a quantos o procuraram desinteressadamente, apenas pelo desejo de ser útil. Aqueles que o ajudaram a eleger-se deputado o fizeram espontaneamente, por pura amizade e admiração, embora sabendo que ele representaria condignamente o Estado, como efetivamente o fez.

Agora, Creso Bezerra, homem de tanta verdade, de tanta bravura em viver, de tanta compreensão para o próximo, virou saudade. Por princípio e educação, parece que ele apenas desejou ser um homem comum. Para nós, seus amigos, admiradores e parentes ele foi sempre um homem superior, pelas suas virtudes reais, sua alegria de viver, seu amor a Natal, sua grandeza de espírito, que se revelou até nos últimos instantes de sua existência. E uma bela morte – diz o velho provérbio – honra toda uma vida.

PS – Compadre Creso: Reli o que acabo de escrever em sua memória e achei fraco. Você foi muito grande para caber num artigo de jornal. Desculpe-me e abrace-me em sonhos.

FEIO – I

A brincadeira de esconde-esconde que deixou Natal sem prefeito acabou sob a ordem da Justiça. A classe política perdeu o amor próprio, não respeita mais a sociedade. É preciso a justiça enquadrá-la.

FEIO – II

Já o governo Rosalba está sob pedido de impeachment por procuradores, junto ao Poder Legislativo, pelo colapso nos serviços básicos que são deveres de estado. E não explica nada aos seus governados.

FEIO – III

A auditoria Falconi, mesmo posta sob suspeita no plenário da Câmara de Vereadores, não se sente no dever de explicar o que fez até agora e quando custou ao cofre público, mesmo paga com patrocínio.

FEIO – IV

O presidente do Senado, Renan Calheiros, ao invés de presidir a casa como um magistrado vai tentar derribar a CPI que o Supremo Tribunal Federal aprovou e a Nação precisa saber o que na Petrobras.

FEIO – V

Por sua vez, o Supremo Tribunal Federal absolveu o ex-presidente Fernando Collor de todas aquelas acusações produziram sua queda do governo. E se não absolvesse os crimes acabariam já prescritos.

 

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