Miguel Josino – Vicente Serejo

Nossa amizade vem de dias já velhos apesar de sua mocidade de 48 anos. Ali, meados dos anos oitenta, se…

Nossa amizade vem de dias já velhos apesar de sua mocidade de 48 anos. Ali, meados dos anos oitenta, se tanto. Um dia, um senhor telefonou à redação do Diário de Natal para saber se podia levar o filho adolescente para conhecer um jovem cronista que vivia a lua cheia do seu lirismo nada comedido. O senhor se chamava Sebastião e se identificou como um Prático de Navios a vencer o mistério do mar na boca da barra do Rio Grande, e seu filho de nome Miguel. E assim ficamos amigos para sempre.

De vez em quando nos falávamos. O menino quase rapaz era um leitor desde muito moço como se picado pela abelha com o mel do encantamento que seria para sempre. Logo se formou em Direito, e depois casou. Um dia veio a mim e desta vez não trazia livros. Queria saber se era possível publicar na coluna uma carta de amor. E disse: uma carta de verdade. Estava separado, vivia uma nova relação. Publiquei a carta e Carla, hoje sua viúva, leu a coluna em Minas, onde morava durante um novo curso.

Não sei, creio que não, se a publicação da carta comoveu aquela jovem bonita, mas certamente a humildade do pretendente venceu a guarda do palácio. Casaram e foram felizes, inaugurando um novo destino com uma nova história de amor. E assim vivemos esses anos todos, tempos distantes ou dias mais próximos, levados pela vida de cada um. Ele gostava, de vez de quando, de marcar uma boa conversa nesta caverna de livros velhos. Sem hora, abrindo caminhos na madrugada quieta dos morros.

Nosso único encontro fora de Natal foi casual, no Rio, numa livraria do Leblon. E ali mesmo já marcamos um programa, uma escolha dele: assistir ao show de Eduardo Duzek no Bar Lagoa, bem na Lagoa Rodrigo de Freitas. Curtimos o humor medonho de Duzek e depois fomos para o Leblon, já comecinho da madrugada. Jantamos na companhia de nossas mulheres e insisti para um charuto no Esch que estava ali na mesma Dias Ferreira. Noite longa. A conversa nos salvou de todos os pecados.

De uns dias pra cá, marcamos e desmarcamos duas ou três vezes a conversa nesta mesa azul, tal como aquela, de quando conversou com Marize Castro e veio com todos os seus livros para a poetisa autografar. Trouxe o sogro, um amigo desta casa, Dr. Álvaro Mota. Como estivemos juntos na noite de lançamento do livro do ministro José Paulo Cavalcanti, ‘Fernando Pessoa, quase uma autobiografia’, que apresentei. Depois, fomos ouvi-lo tocar piano no Abade, com seu puro cubano de fumaça azul…

Miguel era o único que sabia dizer, de memória, e só por gosto, trechos de algumas crônicas líricas deste seu velho amigo. Não precisava agradar ninguém, mas sabia a arte suave de querer bem aos amigos. Uma vez, reclamei da frustração diante dos enólogos que exibem os seus vinhos caros nas colunas sociais. Mandou deixar o vinho aqui e telefonou para dizer: ‘É o mesmo da reunião, vi pelo jornal’. Perdi Miguel Josino. E não vou vê-lo morto. Prefiro guardar seu riso doce iluminando o rosto…

CRISES – I

Nada vai abalar a força do chapão dos poderosos. Rico de contradições e incongruências – a socialista Wilma, o democrata Agripino e o tucano Rogério Marinho – sua composição tem blindagem poderosa.

REAÇÃO – II

Quando cada poderoso impôs seu filho, filha ou irmã, como Garibaldi, Wilma e João Maia, já se sabia que aliados pagariam o pato. Só um líder de verdade protagoniza a rebeldia. Primos não fazem a hora.

ALIÁS – III

O PDT do prefeito Carlos Eduardo Alves teve uma inegável boa fé quando acreditou nas juras de amor do PMDB que quase o destrói com um processo em 2010. Ou então o PDT caiu no pântano na lisonja.

ATENÇÃO

O prefeito Carlos Eduardo Alves pode sofrer um atraso na liberação dos recursos para a conclusão das obras de Ponta Negra e a urbanização nas praias de Natal. Precisa travar uma luta grande em Brasília.

SINAL

Não são nada promissores os sinais da gestão municipal na rede de postos e unidades de saúde em toda área urbana de Natal. Nem o secretário Cipriano Maia consegue mais sustentar as promessas de antes.

FORÇA

A campanha do PMDB está a todo valor. Ontem, para se ter uma ideia da disposição, o último release do dia, sobre a visita de Henrique Alves e Wilma de Faria a Caraúbas, brilhou nesta tela já às 23h43.

MOTIVO

O novo secretário de segurança, general Eliéser Monteiro, já teve razões para deixar o cargo. Mas seu estilo sereno tem impedido o general de anunciar a retirada. Ou inimigo é a total penúria orçamentária.

FICHA

O marketing petista, segundo anunciam algumas fontes mais falantes, quer levar o eleitor a comparar a ficha limpa com a ficha suja. Mais: a união dos adversários em busca do poder para eles e seus filhos.

PERIGO

Imagine se de repente aparecer dinheiro, medicamento, maca e equipamentos na urgência do Walfredo Gurgel para cuidar dos turistas gringos em nome da Copa? Será a desmoralização final do nosso povo.

NOME

De Aécio Neves, candidato a presidente, fechando seu artigo na Folha de S. Paulo, ontem: ‘O novo talvez ainda não tenha nome. Mas o velho tem: chama-se arrogância e manipulação. Chama-se PT’.

AVISO

Quem chega dia 22 é Marta Suplicy, ministra da Cultura. É a solenidade de instalação da Incubadora RN Criativo. Ex-professora de sexo na tevê, tomara que não emprenhe a nossa cultura pelos ouvidos.

PIRES

Quem quiser ter certeza de que ‘O amor nesses tempos do blog’ é raso e inconsistente é só adquirir o livro de Vinícius Campos que acaba de ser lançado pela Companhia das Letras, a editora que consagra.

SÍMBOLO

Jean Wyllys, o deputado que defende o movimento gay e todas as minorias é o tema de capa da revista Cult deste maio. Ele é apresentado como ‘representante da esquerda libertária’ que desafia os políticos.

LUZ

O Iluminismo e seus raios sobre as batalhas da razão neste paraíso tropical desde o Império é a matéria de capa da revista História, da Biblioteca Nacional. E a revelação de Lima Barreto como um feminista.

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