Miles Davis convoca arranjador Gil Evans para compor “Sketches Of Spain”

Tudo aconteceu, após Miles ouvir “Concierto de Aranjuez”, de Joaquín Rodrigo, na casa de um amigo,

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Conrado Carlos

Editor de Cultura

Se o amigo leitor quer ouvir um discaço neste final de semana, deve correr no Youtube e vasculhar por “Sketches Of Spain”, de Miles Davis (ou pagar cerca de R$ 20,00, nas lojas virtuais). Lançado em junho de 1960, na verdade, é uma obra-prima feita a quatro mãos, tamanha a importância do arranjador Gil Evans nos cinco números que valeram o Grammy Award como melhor composição de jazz. O encontro dos dois, em meados da década de 1950, é considerado um dos grandes momentos da história do gênero, mas aqui eles extrapolaram. Baseado no tema “Concierto de Aranjuez”, do Joaquín Rodrigo, que ocupa mais da metade do álbum, ambos pesquisaram a música espanhola para concretizar a perfeita junção entre a música negra americana e a erudita europeia.

Tudo bem que Louis Armstrong e Charlie Parker, por exemplo, tenham sido mais relevantes em instantes únicos do jazz, como revolucionários que foram. Mas Davis se manteve por tanto tempo no topo, como artista de vanguarda, líder de reviravoltas e experiências, que sua lista de trabalhos inclui um sem número de acertos. “Sketches Of Spain” é um de seus discos mais acessíveis, com temas populares, como “Will’o The Wisp”, do balé El Amor Brujo, do também espanhol Manuel De Falla, com melodias e arranjos sofisticados, a partir dos movimentos simples do trompete cool de Miles Davis – ele ainda toca flugelhorn, uma variação alemã para o mesmo trompete, cuja sonoridade é mais suave e intimista.

A faixa-base “Concierto de Aranjuez” foi inspirada no palácio do rei Felipe II, construído no século XVI – reconstruído por Ferdinand VI em meados dos XVIII. Enquanto parte dos vanguardistas buscavam no Oriente, no norte da África e nas Américas novos elementos para decretar a posição independente dos negros na música, longe da tradição do Velho Continente colonizador, Miles e Evans olharam para a Ibéria, onde essas culturas se misturaram durante os seis séculos de domínio árabe. O curioso é que Rodrigo achou o disco normal, quase uma afronta a sua obra original – ainda que os royalties tenham garantido anos de bonança, até sua morte, em 1999.

“Desde Charlie Parker eu não ouvi nada que me tocasse tanto como seus arranjos”, disse Davis após ver a criação de Gil Evans – a parceria começou em 1948, quando a Miles Davis Capitol Orchestra foi reunida com um time de primeira, que registrou, dentre vários instrumentistas renomados, Jay Jay Johnson no trombone, Lee Konitz no sax alto, Gerry Mulligan no barítono e Max Roach na batera. A fama de arrogante e autossuficiente de Davis esbarrou no talento inegável de Evans, que transformou aquele som melancólico e já impactante, em algo orquestrado e refinado, naquele período mágico, em que “Time Out”, de David Brubeck (1959) surgiou como ‘oponente’ à altura na mesma sacada jazz/música clássica.

O prenúncio de que algo grandioso estava por vir brilhou dois anos antes, com “Miles Ahead” (1957) e a releitura do clássico “Porgy and Bess” (1958), de George Gershwin. Foi uma das primeiras vezes em que o nome do arranjador ganhou destaque na capa de um álbum de jazz – apesar de egocêntrico e difícil no convívio, Miles Davis tinha lampejos de generosidade que entraram para os anais da música. Em “Sketches Of Spain”, Gil Evans aparece novamente em meio à arte com as cores da bandeira espanhola, agora com maior vigor e responsabilidade por aquele som atmosférico, místico, por vezes, marcial e grandiloquente que conquista o ouvinte, iniciado ou incipiente, com seus 40 minutos de beleza.

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