Misérias e regalias
Água misturada a barro é sanduíche de miserável nordestino humilhado pelo desprezo ao drama da seca. A seca nem é a culpada. A seca faz parte da natureza. Quando se tem vontade política, se encontra jeito de tratar como gente quem é banido da vida como se recebesse no rosto e na alma, repelente de desdém.
Com a seca se convive com água, crédito e ação. Mais ainda: Respeito. Em anos passados, os ouvidos tapados pela cera passageira do poder eram abertos na força dos saques do campo invadindo as cidades, do pobre combatendo o pobre numa luta grotesca e injusta. A polícia, formada também por pobres, batia nos famintos concluindo o quadro dantesco do inferno castigado de sol.
Nos 60 anos de morte de Graciliano Ramos, o escultor de palavras que melhor escreveu sobre o sertanejo e sua peregrinação sem destino, a atualidade de sua obra parida lá pelos anos 1930. Na lembrança do Velho Graça, seu batismo de fogo e o esplendor literário da desesperança e da desgraça da omissão.
É de país subdesenvolvido a romaria por decisões celestiais de São José pelo destino do semiário, dos seus homens, mulheres e crianças. Homens de rosto endurecido, fé perdida na dignidade pisoteada. Mulheres feitas para procriar por esperança e fardo.
Meninos homens postos na roça pra plantar o que não se colhe e jogados na procissão da desesperança poetizada por Ariano Suassuna no Auto da Compadecida. Meninos sem direito à adolescência anestesiada na capital no caminho sem volta do crime ou, no máximo, no piedoso lenitivo do emprego sem carteira assinada, chamado, cinicamente, de informal” pelos tecnocratas de gabinete acarpetado e gelado pelos ares pagos com dinheiro público.
Emprego informal é carregar mudança em cima de carroça, vender churrasquinho na calçada , descascar e oferecer laranja em estádio de futebol vazio pela desqualificação das peladas de oitavo nível, é fazer malabarismo em sinal de trânsito, servir de babá, apertar buzina de carrinho de sorvete, dentre outras carreiras promissoras como uma roleta russa.
É a seca que vai doendo enquanto dormem as máquinas da Transposição de Águas do Rio São Francisco, a irmandade do Nordeste impedida pela força política da Bahia tão criticada pelos petistas no tempo do falecido Antônio Carlos Magalhães. ACM parece redivivo na insensibilidade dos “companheiros”.
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A seca vai matando seres humanos de fome e sede, envergonhando quem guarda no bisaco da alma algum sentimento e o país se revela a republiqueta de práticas metida na imensidão geográfica e paquiderme.
No Piauí, onde também se come sanduíche de água com areia, se recebe a consolação básica de 70 reais por mês do Bolsa Família e um filé de lagartixa corresponde a caviar, abre-se o clarão exemplar do Brasil continente do horror.
Detentos do principal presídio de Teresina e integrados como um cordão patriótico da perversidade à facção criminosa do PCC, exigiram e foram atendidos na mudança do seu cardápio diário no xadrez. Foi a condição para suspender ataques a policiais e a cidadãos pagadores de impostos.
Criminoso come às custas do Estado financiado pelos contribuintes, que somos nós, os otários. Quando criminoso faz motim e incendeia uma cadeia inteira, somos nós, os pagadores de tributos altíssimos, os panacas, quem financiamos a recuperação dos prejuízos.
Os chefões da máfia do Piauí se reuniram com representantes do Governo do Estado – que confirmaram a negociação revoltante. Determinaram a inclusão de carne de sol, ervilha, milho e azeitona nas suas quentinhas(não pediram ainda talheres dourados).
Expansão do horário de visitas e a transferência de um dos cabeças do terror, concretizada no final do ano passado para São Paulo.
Demonstrando com quem estavam as cartas do jogo, mandaram demitir o chefe de disciplina da penitenciária, exonerado no Diário Oficial pelo Secretário de Justiça, Henrique Rebello, a fonte a abrir a caixa podre das negociações entre o mal dominante e o Estado refém.
Os detentos do Piauí comem bem, obrigado e, quem sabe, daqui a uns dias podem fazer novas exigências, como aparelhos de TV de plasma em celas(individuais), churrasqueiras, piscinas olímpicas e prostitutas na hora que lhes der vontade.
Os flagelados da seca, cujo crime foi ter nascido na caatinga amarelada, seguem caçando a ração que devoram com legítima selvageria. Os criminosos condenados por assassinato, estupro e latrocínio, entre tantos itens do Código Penal, se fartam no banquete chantagista em pleno hotel apelidado de cadeia. Dá vontade de ir para Saigon, retirante ouvindo Emílio Santiago.
Celular
De tanto apagão em Natal, a Cosern já poderia ser comparada às operadoras de telefonia móvel. Seria a Cosern Celular. Falha exatamente quando se está mais precisando dela. A Cosern testa a paciência no atendimento aos seus pobres clientes.
Memória Viva
A TV Universitária apresentará o seu tradicional programa Memória Viva com o artilheiro, técnico e hoje coodenador das bases do ABC, Erandy Montenegro, dia 3 de abril. Dois convidados, um craque, o uruguaio Danilo Menezes, companheiro de Erandy no Vasco da Gama. Um perna de pau, este redator, amigo e fã de Erandy, talento e caráter.
Exemplo
Soube de mais uma amizade desfeita por causa do contaminado meio do futebol. Que só estimula o distanciamento, a frieza, o desânimo. A ingratidão e a falta de palavra comandam as ações “em campo”.
Adílio, só uma vez
Adílio, o Neguinho Bom de Bola do Flamengo, só teve uma chance pela seleção brasileira e foi o melhor em campo. Amistoso contra a Alemanha Ocidental no Maracanã, Brasil 1×0, golaço de Júnior. Adílio deu o passe e driblou o que havia de gigante pela frente. Nunca mais foi convocado.
Injustiça
Adílio poderia ter ido já na Copa de 1978, mas seu técnico no Flamengo, o capitão Cláudio Coutinho, nem cogitou levá-lo. Em 1982, Adílio estava no auge, campeão do mundo, muito melhor que Renato Pé-Murcho, o preferido de Telê Santana. E em 1986, aos 30 anos, Adílio estava maduro, bem mais do que o convocado Valdo.
Times
Na única vez de Adílio, 150. 289 pagantes no Maracanã. Brasil: Valdir Perez; Leandro; Oscar, Luisinho e Júnior; Vítor, Adílio e Zico; Paulo Isidoro, Careca e Mário Sérgio (Éder). Alemanha Ocidental: Schumacher; Kaltz, Forster; Stielike e Briegel; Dremmler, Breitner e Matthaus; Littbarski (Mill), Fischer (hrubesch) e Hansi Muller (Engels).


