Mistério da Segunda Guerra

Há 68 anos, parte do mundo ‘civilizado’ afastava os últimos fantasmas da Segunda Grande Guerra. Nos últimos dias de abril,…

Há 68 anos, parte do mundo ‘civilizado’ afastava os últimos fantasmas da Segunda Grande Guerra. Nos últimos dias de abril, a Alemanha nazista se rendia aos Aliados, cuja capital Berlim fora dominada pelos russos, e Hitler cometia suicídio. Pelo menos na Europa, epicentro da carnificina, o conflito estava encerrado. Já no Pacífico, japoneses e americanos esticaram a matança até setembro de 1945, sob efeito das bombas atômicas lançadas um mês antes. Nesse intervalo entre o choque nos territórios europeus e asiáticos, fatos sombrios ocorreram no litoral brasileiro.

Um deles foi o afundamento do cruzador Bahia, no dia 04 de junho daquele ano, nas proximidades dos rochedos de São Paulo e São Pedro, conjunto de pequenas ilhas pedregosas, localizadas a quase mil quilômetros do litoral potiguar – assim como Fernando de Noronha, o arquipélago, inóspito para a vida humana, fica mais perto do Rio Grande do Norte, mas compõe o Estado de Pernambuco. A tragédia matou mais de 350 tripulantes e tem duas versões conflitantes – como várias daquele período.

A oficial diz que houve uma explosão, após acidente com uma metralhadora, durante um treinamentos. A oficiosa, e mais sinistra, fala em um ataque de um submarino alemão. É da segunda possibilidade que o militar do Corpo de Saúde da Marinha (cirugião-dentista), Paulo Afonso Paiva, tirou a matéria prima para seu romance O Porto Distante, livro que recebeu menção honrosa no Prêmio Pernambuco de Literatura de 2013. Ele pesquisou dez anos sobre o acidente e os marinheiros envolvidos, até receber um incentivo do país vizinho, em 2010, com a publicação de Ultramar: A Última Operação Secreta do Terceiro Reich, escrito pelos argentinos Jan Salinas e Carlos De Nápoli.

A história do grupo de marinheiros que oscila entre a expectativa do conflito armado e as aventuras da juventude pelo Rio de Janeiro, Recife e a Natal dos anos 1940, traz para o leitor uma série de episódios pitorescos e inquietantes. Tudo começa com a morte do pai do protagonista, um dos sobreviventes do Bahia, que no suspiro final entrega dois cadernos para a mulher e pede para o filho investigar a verdadeira causa do afundamento do cruzador – servia de apoio de comunicação para aviões americanos que vinha da Europa.

A imprensa da época desconfiou da justificativa. O Jornal do Comércio, de Recife, foi um deles. E Paulo usou, neste que é seu segundo romance (ele também publicou três livros de crônicas e um de contos), com destreza essas informações para construir uma narrativa empolgante, até para os antibelicistas – o trabalho dos argentinos, fonte de inspiração para O Porto Distante, partiu de arquivos da marinha portenha e de interrogatórios de comandantes alemães do submarino U-530 que, estranhamente, só chegou ao país vizinho dois meses após o término da Guerra; desconfiava-se que Adolf Hitler estava nele.

Uma das perguntas que ficou sem resposta à época foi o motivo da omissão ou falta de investigação norte-americana, já que a Força Naval do Nordeste era subordinada à 4ª Frota ianque – tinham quatro americanos a bordo do Bahia. A resposta do livro, sempre baseada em pesquisas do autor, é que a tripulação de 53 alemães e seu comandante carregavam projetos de bombas e aviões a jato com tecnologia de ponta, sem igual naquele pós-guerra que anunciava uma nova ameaça: os soviéticos.  Do Alecrim a Maria Boa, a capital potiguar é cenário desta obra obrigatória para entendermos aqueles seis anos que mudaram o mundo.

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