Moradores assumem papel do estado ao arcarem com cultura e segurança

Uma delas é a implantação do projeto Cinema Para Todos, em um canteiro no cruzamento da Gomes Ribeiro com a Tarcísio Galvão, ao lado do posto policial

Conrado Carlos

Editor de Cultura

Setembro de 2012 começou com umaSetembro de 2012 começou com uma tragédia para a segurança pública potiguar. Durante a investigação sobre o roubo de uma camionete usada em assaltos no interior do Estado, uma equipe da Delegacia Especializada na Defesa da Propriedade de Veículos e Cargas (Deprov) foi fuzilada em um matagal em Parnamirim. O saldo da tocaia registrou a morte de dois agentes. Como todo cidadão assustado, Mário Freire Emerenciano deve ter visto o episódio como mais uma prova da falência de uma estrutura urbana fundamental. E seguiu o curso normal de sua vida.

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Naquele mesmo mês, em que a primavera nordestina anunciava o retorno das altas temperaturas, ele estacionava o carro nas imediações da Casa de Saúde São Lucas, quando o telefone tocou. Era sua filha Débora. O calor da tarde e a necessidade de sacar dinheiro no caixa eletrônico do Banco do Brasil no hospital denunciavam uma rotina em perfeita harmonia com a felicidade de receber uma ligação da estudante de medicina de 19 anos. “Pai, tem um homem estranho na calçada, batendo no portão”. A frase ficaria para sempre em sua memória.

Orientações para manter a casa fechada e a tranquilidade foram antecipadas, enquanto uma busca frenética por telefones da urgência policial e pelo melhor caminho para retornar o deixaram com uma única opção: varar a avenida Hermes da Fonseca e evocar todas as orações possíveis. “Foi um terror. Saí voando, não sei como não bati o carro. Imagine como eu fiquei, como um pai sabendo que sua filha estava em perigo. Liguei para a polícia e eles disseram para eu ir para casa, que eles já estavam indo. Só que eu cheguei primeiro que eles”.

Nesse meio tempo, nova ligação de Débora, agora com a voz mais tensionada. “Pai, aquele homem está aqui dentro de casa! Ele entrou! Eu estou trancada no seu banheiro!”. Um turbilhão de tragédias começou a povoar a mente de Mário, naquele instante, em disparada, rumo a Morro Branco. Ao chegar, a certeza de que tudo estava perdido. A grade do portão fora quebrada, com pedaços de pau largados no chão, possivelmente usados como pé de cabra. O engenheiro civil de 59 anos entrou gritando pela filha – para sua alegria, a salvo na suíte.

“Ali eu fiz uma promessa a Deus de lutar pela segurança do bairro”. A sorte de Débora foi aliada à frieza de ficar em silêncio ao dar de cara com o marginal na sala. A jovem estudava em outro cômodo, na hora em que escutou um barulho. Ela levantou. Metros depois, viu o espectro macabro diante de si. Segundo os policiais retardatários, sua calma pode ter deixado em suspense a possibilidade de que estaria armada ou acompanhada. O bandido fugiu sem levar um friso – o que aumenta a desconfiança sobre sua intenção.

Telefonemas, ofícios, reuniões com secretários e com a própria governadora foram realizadas. À frente da Associação Potiguar em Defesa da Cidadania, Mário empreendeu uma verdadeira cruzada, nos últimos dois anos. Apoiado por moradores de uma espécie de quadrilátero já célebre no bairro por enfrentar ininterruptos assaltos, arrombamentos, tiroteios, furtos de veículos e demais milacrias sociais, virou um incansável – o trecho fica entre a Xavier da Silveira e a Antônio Basílio, sobretudo na avenida Brigadeiro Gomes Ribeiro e nas ruas Abelardo Calafange e Tarcísio Galvão.

Ali moram escravos da incompetência estatal, reclusos em suas residências e impossibilitados de afirmarem que são livres. Habitantes de Morro Branco e Nova Descoberta passaram a pedir licença para a fatalidade, ao abrir a porta. Por ironia, quase vizinhos da governadora Rosalba Ciarlini. Mas que entraram em campo para contornar a situação insustentável. Exatamente um ano após invadirem sua casa, Mário inaugurou um posto policial arcado pelos próprios cidadãos. “Minha filha poderia não estar mais no plano material. Aquilo me fortaleceu para enfrentar a ausência do poder público para melhorar nossa segurança”.

Unidade pacificadora

Com a reforma de um trailer da Polícia Militar, veio a calmaria. Hoje a realidade permite incrementar uma área ocupada por gente de classe média que vê a porcentagem de seu salário descontada em impostos escoar pelo ralo. Uma delas é a implantação do projeto Cinema Para Todos. Em um canteiro no cruzamento da Gomes Ribeiro com a Tarcísio Galvão, ao lado do posto policial, cerca de 40, 45 moradores terão a Sétima Arte em dois dias da semana. Às sextas-feiras (20h), clássicos e sucessos atuais para adultos. Aos domingos (19h), sessões infantis abertas para qualquer idade.

Na noite de ontem (15), a inauguração exibiu Cavalo de Guerra, filme de Steven Spielberg com seis indicações ao Oscar. Com telões cedidos por uma locadora de vídeo, a iniciativa, ao mesmo tempo em que serve de entretenimento e confraternização de moradores, joga luz na falta de opções citadinas em eventos gratuitos. “Íamos passar A Menina Que Roubava Livros, mas não era original. Não poderíamos começar o projeto com filme pirata. Por isso mudamos a programação. Sem o trailer, não teríamos isso”, disse Mário, que confirma gastos em torno de R$13 mil desde que a ‘UPP’ de Morro Branco foi instalada.

O soldado Rodrigo Ataíde, 33 anos, é a metade da dupla que dá expediente das 08 às 22 horas, todos os dias, no aparelho restaurado pela comunidade. Morador de Cidade da Esperança, ele foi cuidadoso com as palavras, cônscio das regras do âmbito militar, porém deixou o recado: “É atribuição do Estado suprir isso aí [segurança pública], não da população. Mas eu fico feliz quando ouço que nossa presença aqui trouxe mais tranquilidade” – café da manhã, almoço e jantar são pagos por uma ‘vaquinha’ da vizinhança e por contribuições de empresários da redondeza.

O coturno do soldado Rodrigo estava furado, após três anos de uso. Nesse tempo, foram feitas solicitações de material de trabalho, como uniformes (também gastos, desbotados). Tudo em vão. A promessa é de que a tropa será lustrada para a Copa. Enquanto isso, o pessoal recolhe doações para arcar com os R$1,5 mil mensais de manutenção do posto – sem participação política, o canteiro foi transformado em uma sala de estar aconchegante, com a expectativa de ganhar uma academia para idosos, no outro espaço semelhante que existe na rua Tarcísio Galvão.

Mais uma lapada com a luva na cara do Estado será dada com a reforma de um automóvel da Polícia Militar. Inutilizado em um pátio, ele já tem garantido quatro novos pneus, uma bateria, a correia dentada, além de uma série de itens básicos, tudo doado por empresas privadas. “Essa é a prova do poder da cidadania. A questão aqui não é política, como pensam alguns. O principal aqui é a questão humanitária. Teve vereador da região que foi contra o posto neste local e depois que viu funcionando veio dizer que foi ele quem trouxe. É um esperto. Mas saiba ele e todo mundo que a associação não vai mais parar”.

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