Moradores de rua de Natal têm ‘dia de cuidados’ e luta contra a violência em data comemorativa

Cerca de 2 mil pessoas vivem nas ruas da capital, segundo estudo

Moradores de rua participaram  de oficinas terapêuticas, ações de saúde e atividades educativas na manhã desta terça-feira (19),  na Praça Sete de Setembro. Foto: José Aldenir
Moradores de rua participaram
de oficinas terapêuticas, ações de saúde e atividades educativas na manhã desta terça-feira (19),
na Praça Sete de Setembro. Foto: José Aldenir

Aproximadamente duas mil pessoas não possuem residência fixa e vivem perambulando pelas ruas, praças e avenidas de Natal de acordo com estimativa do Movimento Nacional da População em Situação de Rua em Natal. Às margens da sociedade, eles não têm acesso a benefícios como saúde, educação ou trabalho formal e, por estarem expostos, são alvos frequentes de agressões físicas e outros tipos de violência. Mas hoje (19), eles tiveram um dia diferente, em comemoração ao Dia Nacional da População em Situação de Rua, com café da manhã, ações de saúde e oficinas artísticas.

Segundo o coordenador do Movimento em Natal, Vanilson Torres, hoje é dia de lutar pela dignidade e cidadania de quem, por inúmeros motivos, tem a rua como sua morada. Ele disse que essa parte da sociedade natalense é abandonada pelos poderes públicos, que não possuem ações ou políticas voltadas para o bem-estar e a atenção básica e que ainda enfrentam as dificuldades do dia-a-dia com coragem.

“São pessoas indesejáveis, invisíveis e que não possuem o menor valor perante o poder público, que deveria protegê-los e abrigá-los contra as situações de violência e abandono, mas que não faz nada para ajudá-los. O município de Natal não se interessa em fazer algo para eles, porque há mais de dois anos que o único centro de referência para moradores de rua foi fechado e até o momento, nada foi feito para mudar essa situação”, explicou.

Vanilson disse que a única coisa que Natal possui ainda é o albergue municipal, que oferece apenas 56 vagas e não atende às atuais necessidades das pessoas em situação de rua. E que há verba do governo federal, por meio do Ministério do Desenvolvimento Social, para a manutenção do Centro de Referência que está fechado, mas que o município alega que não há um prédio próprio para a instalação do estabelecimento.

“O que falta é interesse político em ajudar essa minoria da sociedade natalense, prova é que não há sequer um censo populacional para saber ao certo quantas pessoas estão em situação de rua hoje em Natal. O que temos é um número estimado, mas sabemos que ele é muito maior, porque, para todos os cantos da cidade em que passamos, vemos moradores de ruas espalhados. Já para a Prefeitura, são apenas uns 600, ou seja, um número muito abaixo da realidade”, afirmou.

Quem participou do café da manhã e das oficinas artísticas, realizadas na Praça Sete de Setembro, em Cidade Alta, também pode fazer testes para detecção de doenças e atividades educativas. Vanilson explicou ainda que a data foi escolhida em lembrança aos dez anos do massacre da Praça da Sé, em São Paulo. Na ocasião, 15 moradores de rua foram atacados e sete, assassinados enquanto dormiam no local.

“Moro nas ruas há 28 anos”

Corpo franzino e voz alegre, o flanelinha José Agnaldo revelou que mora nas ruas de Natal desde 1986, após o fim do casamento com a mulher que lhe deu dois filhos. Até aí, sua vida foi tranquila, mas uma decepção o levou às ruas e já são 28 anos perambulando entre os bairros da zona Sul e o Albergue Municipal, onde ele dorme todas as noites, em busca de segurança.

“Fui casado, mas acabei me decepcionando muito com algumas coisas ocorridas em minha família e acabei vindo para a rua, como fuga. Já sofri e sofro muito, já fui roubado várias vezes, mas nunca apanhei de ninguém, porque faço tudo para viver em paz com todos. Quando preciso, falo com meus filhos, que me deram um celular para contato, mas continuo por aqui, durmo no albergue e trabalho como flanelinha”, afirmou.

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