Moradores ignoram riscos e retornam para casas interditadas em Mãe Luíza

Famílias buscam objetos pessoais e também alimentar animais de estimação

Foto: Wellington Rocha
Foto: Wellington Rocha

Ignorando o risco permanente de novos desabamentos, moradores de várias residências que foram interditadas pela Defesa Civil no bairro de Mãe Luíza, na zona leste de Natal, continuam retornando aos imóveis para buscar objetos pessoais, eletrodomésticos, móveis ou alimentar os animais de estimação que ficaram para trás. No local, os trabalhadores da empresa responsável pelo aterramento da cratera formada após as fortes chuvas do mês passado estão finalizando o levantamento topográfico, que servirá de base para as ações de reconstrução do que foi perdido com a tragédia.

Entre os moradores que retornaram aos imóveis interditados está a dona de casa Marineide Bezerra, que mora há menos de 50 metros do topo da cratera. Ela disse que vai uma vez ao dia à residência para alimentar seus três cachorros e estender as roupas lavadas no varal, mas que procura passar o menor tempo possível, por medo de que ocorram novos deslizamentos.

“Desde o último dia 16, quando a Defesa Civil interditou a minha casa, que só venho aqui para dar comida aos meus cachorros, que, infelizmente, não posso levar para a casa que aluguei no começo deste mês, para morar com os meus filhos. Meus móveis estão espalhados nas casas de parentes e como a casa que aluguei, por conta própria, é pequena, tive que deixar meus animais aqui mesmo. Mas venho sempre com receio, ainda mais se estiver chovendo”, falou.

O medo de mais chuvas fortes e novos deslizamentos de terra fazem parte da rotina dos demais moradores que moram próximo à cratera, mas que não tiveram seus imóveis interditados. É o caso da comerciante Rejane de Souza, que perdeu duas residências nos primeiros deslizamentos e que reside na Rua Atalaia, há cerca de 50 metros de distância da cratera.

Ela afirmou que, mesmo com a Prefeitura Municipal realizando o serviço de aterramento da cratera e a sua cobertura com lonas, todos estão apreensivos com a possibilidade de chuvas nas próximas semanas, antes da conclusão dos serviços. “Agora está tudo calmo porque não está chovendo, mas se voltar da mesma forma, com certeza outras casas serão interditadas e é isso que todos nós que moramos aqui temos medo. Vivemos na incerteza do dia seguinte”, desabafou.

Casas seguem interditadas no Jacó

A situação vivida pelos moradores de Mãe Luíza é semelhante ao narrado por quem teve imóveis interditados após o deslizamento de barreira ocorrido na comunidade do Jacó, em Petrópolis. Das nove casas interditadas há três semanas, quatro continuam fechadas, sem ninguém. O advogado Antônio Lisboa, que teve que sair de casa às pressas no mesmo final de semana em que aconteceu o deslizamento em Mãe Luíza, revelou que está pagando aluguel do próprio bolso.

“O perigo é ocorrer um efeito dominó e as casas que ainda estão em pé desabarem junto com as demais, que já tiveram partes desabadas. Infelizmente, ninguém está olhando para o nosso sofrimento, só olham para Mãe Luíza e se esquecem que outras áreas também foram afetadas. Falei com um engenheiro da Prefeitura e ele me disse que nós não éramos prioridade, porque o problema foi causado por uma construtora, que está erguendo um condomínio no local afetado”, questionou.

Antônio disse ainda que antes do deslizamento, a construtora tinha construído uma cortina de contenção no local, o que não foi o suficiente para impedir que a terra desabasse com as chuvas do dia 14 de junho passado. “Um engenheiro disse que tinham que ter colocado um sistema de drenagem no muro, o que não foi feito e isso foi o responsável pela tragédia”, afirmou.

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