Morre hoje, aos 89 anos, a cantora Marlene, estrela da era de ouro do rádio

Ela estava internada por conta de uma queda, e sofreu falência múltipla dos órgãos nesta sexta

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A cantora Marlene, grande estrela da era do rádio no Brasil, morreu nesta sexta-feira, no Rio de Janeiro, por volta das 17h15. Marlene, cujo nome verdadeiro era Victória Delfino dos Santos, estava internada há alguns dias no hospital Casa de Portugal por conta de uma queda, e nesta sexta teve falência múltipla dos órgãos. Ela tinha 89 anos.

— Ela era uma artista vigorosa e forte. Trabalhou no teatro, cinema, cantou Chico Buarque… Fez de tudo, e não só rádio — disse o compositor, poeta e produtor musical Hermínio Bello de Carvalho, amigo de Marlene.

Assim que soube da morte da cantora, o escritor Ruy Castro comentou:

— Nunca entendi como o mundo podia se dividir entre Marlene e Emilinha. Como era possível não torcer por Marlene?

Nascida Victoria de Martino Bonaiute, em 22 de novembro de 1924, no estado de São Paulo, a cantora Marlene começou a cantar na adolescência, aos 16 anos, no programa “Hora do Estudante”, da Rádio Bandeirantes. Foi lá que ela adotou o nome artístico que carregaria até o fim da vida — seus colegas de rádio passaram a chamá-la assim, por conta de sua semelhança com a estrela Marlene Dietrich.

Foi contra a vontade da família que Marlene mudou-se para o Rio de Janeiro nos anos 1940 e passou a trabalhar no Cassino Icaraí. Na sequência, tornou-se uma das principais crooners do Cassino da Urca e com a proibição do jogo enveredou por outras boates e locais famosos da noite carioca, como a Boate Casablanca e o Copacabana Palace, que a tornou uma das mais admiradas vozes da elite da cidade.

As ambições de Marlene, no entanto, não se restringiam ao restrito — por mais que requintado — circuito de boates, bares e teatros. Seu sonho era alcançar o grande público na Rádio Nacional, o que aconteceu em 1947. Mas ao vivo, em seus shows, Marlene oferecia mais do que sua bela voz ao público. Sua presença, domínio de palco e magnestismo com o público criou um estilo único. A aposta num repertório eclético, marcado por canções dos mais variados estilos e compositores, além de abordar temas como a pobreza e o cotidiano do povo brasileiro foram, aos poucos, aproximando Marlene das camadas mais populares.

RAINHA DO RÁDIO

Sucessos como “Lata d’água na cabeça”, “Zé Marmita”, “Sapato de pobre” entre outros hits foram de fundamental importância para tal mudança, e marcaram seu nome de modo definitivo na História da música popular brasileira.

Ao passo que tornava-se conhecida e amada por todo o Brasil, Marlene também passou a colecionar inveja e desafetos, já que, aos poucos, tomou o lugar da até então mais famosa cantora do país, Emilinha Borba. Foi em 1949 que Marlene destronou Emilinha, a superando na predileção dos ouvintes no concurso Rainha do Rádio. A vitória da cantora foi inesperada e inaugurou uma das mais históricas rivalidades da canção popular do país. Donas dos fãs-clubes mais inflamados e passionais do país, Emilinha e Marlene era motivo de discussão e disputas acirradas, e chegou a ser tratada pelo jornalista Mário Filho como “o fla-flu dos que não gostam de futebol”.

— Marlene é um mito das artes no Brasil, pois era do tipo que jogava nas onze — definiu o pesquisador musical Rodrigo Faour. Fez de tudo que se possa imaginar. Foi cantora e atriz de cinema (das poucas que além de cantar, também atuou como atriz nas chanchadas), teatro (de revista e teatro sério) e televisão (como apresentadora, atriz de novela e cantora). Foi das pioneiras a cantar temas de crítica social no carnaval. Foi Rainha do Rádio em 1949 e dona de uma das maiores popularidades da história radiofônica, ao lado de Emilinha Borba, Angela Maria, Dalva de Oliveira e Cauby Peixoto. Foi a primeira cantora a puxar um samba-enredo na avenida (em 72, no Império Serrano). Gravou em todos os formatos que conhecemos, do 78 rpm ao DVD.

Imponente em cena, com dotes físicos notáveis e explorados ao máximos, Marlene era alvo de alguns críticos da época, que de modo pouco justo insinuavam ou sugeriam que sua voz era “pequena” se comparada a de outras divas. Mas isso não impediu que ela fosse a primeira cantora brasileira a apresentar-se no Olympia de Paris, arrebatando a plateia francesa e, em especial, o ícone Edith Piaf, que a convidou para dividir o palco com ela durante uma série de shows que durou mais de seis meses.

A força de sua interpretação expressionista não demorou a chamar a atenção de produtores de teatro, e Marlene passou a receber e a aceitar convites diversos para estrelar peças e musicais. Fez também cinema, TV e apresentou seu próprio programa de rádio, “Marlene, meu bem”.
Fonte: O Globo

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