Morte do cinegrafista Zé Lacerda é RX da barbárie negligenciada pelo Estado

RN virou caso de intervenção dos capacetes azuis da ONU

Conrado Carlos

Editor de Cultura

 

Senhora Rosalba Ciarlini,

Durante suas gestões como prefeita, estive em Mossoró algumas vezes. Em todas elas, fiquei com a impressão de que a propaganda sobre o desenvolvimento da cidade destoava do exposto. Uma pracinha aqui, uma avenida larguinha ali, e a feição de município do interior do Nordeste persistia. Assim como Natal passa longe de ser a metrópole decantada por aqui, sua terra ainda tem muita parede para rebocar. Dos críticos, pois criticar sempre é mais fácil, não é mesmo?, ouvia que o pouco de modernidade vinha do dinheiro despejado pela Petrobras. Então, esse ‘boom’ econômico acalentou o sonho de “fazer acontecer” em todo o Rio Grande do Norte. Eu não votei na senhora, mas a maioria, sim. Pois bem.

Revi em seu canal no Youtube trechos da cerimônia de posse, em janeiro de 2011. Como a senhora estava emocionada! Dava para ver em seus olhos marejados, prestes a borrar a maquiagem. “É um momento de alegria, de felicidade, mas também é um momento que faz transbordar ainda mais aquele sentimento da responsabilidade”, ecoou no microfone. A suspirada entre “ainda mais” e “aquele sentimento de responsabilidade” foi honestidade pura. O tema de sua entrada no palco do Teatro Alberto Maranhão (O que é, O que é?, de Gonzaguinha) foi perfeito: “Ah meu Deus!, Eu sei, eu sei, que a vida devia ser bem melhor e será, mas isso não impede que eu repita, é bonita, é bonita e é bonita”. Com todo o respeito, a senhora estava radiante.

Mas três anos se passaram. E como várias relações convencionais, algo esfriou entre nós. O sorriso cativante, a entonação animada, as promessas, o pensamento positivo são os mesmos. Mas faltou cuidado de ambas as partes para manter a chama. Da senhora, ao achar que nosso encanto era para sempre. Como homem, lhe garanto, essa é uma de nossas maiores falhas na arte matrimonial. No início, esbanjamos charme, sensualidade, educação, cavalheirismo. De segunda a segunda, 24 horas por dia. É só o sujeito perceber que o pão está garantido, que aparecem cuecas penduradas no box, as unhas do pé demoram a ser cortadas e a impaciência vira regra – sem falar na redução das noitadas regadas à vinho e indecência. Tem que se esforçar para evitar a ruína, governadora.

Cinegrafista José Lacerda. Foto: Divulgação
Cinegrafista José Lacerda. Foto: Divulgação

E de nossa parte, ao cegarmos para tamanha ilusão. Estava nítido em seus pronunciamentos, na escolha dos assessores, nas primeiras ações. Pavimentar ruas, abrir canteiros e criar rotatórias para 280 mil habitantes é bem diferente de organizar a esquina atrasada da América do Sul metida a besta. Tem coisa grande envolvida, obras imensas e importantes que precisavam de gente qualificada à frente, sob pena de esfomear o sertanejo e nos envergonhar com os gringos que virão para a Copa. A senhora gastou muito tempo para reconstruir os estragos deixados pelo furacão Wilma-Iberê? Viesse até nós da imprensa para denunciar tim-tim por tim-tim. Saiba que teria apoio dos mais de três milhões de conterrâneos. O acumulo de DRs foi mortal. Intoxicou tudo.

Para piorar, estourou a violência em um dos Estados que ate um dia desses era dos mais tranquilos da Federação – um dos itens sedutores do marketing turístico. Violência, aliás, que motivou esta nota triste com a morte do cinegrafista José Lacerda, da TV a Cabo Mossóró, lá mesmo de sua terra cada vez mais barbarizada, cujos índices de criminalidade emparelharam com os da América Central, hoje o pedaço de chão mais selvagem do mundo. Eu não o conhecia, mas só de saber que deixou seis filhos e que tinha apenas 50 anos dá uma vontade imensa de convocar uma debandada em massa deste lugar que a senhora administra – feito cubanos nos anos 1980, no porto de Mariel, simbolicamente reformado pelo PT com parte de nossos salários.

Ao contrário de vocês, políticos, a classe jornalística tem lampejos de união descompromissada – basicamente em tragédias. Ninguém aqui tem interesses escusos, ao gritar: “Mataram o cara, Governadora!!!”, a não ser registrar o protesto e cobrar o fim da matança desenfreada. É gente morrendo demais para ficarmos de braços cruzados, falando em compra de coletes e viaturas. “Ah, mas ele reagiu ao assalto”. Claro, quem não reage, de alguma forma? A revolta passou do limite. Enquanto isso, vocês pensam nos quitutes para o camarote com a turma da FIFA. Sei que nossa relação está perto do fim, o que, na verdade, será um duplo alívio. Tenhamos classe e respeito, depois do convívio. Nós aguardamos o começo do próximo pesadelo e a senhora volte para Mossoró, que lá o negócio pegou fogo.

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