Movimentos sociais criticam dívidas e classificam obras como desnecessárias

Natal não tem manifestação marcada para hoje; sete cidades-sede terão atos públicos devido a Copa

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Marcelo Lima

Repórter

Para os movimentos sociais, a Copa do Mundo deixará apenas um legado negativo. Essa foi a visão majoritária dos participantes de uma audiência pública realizada hoje pela manhã, na Câmara Municipal, para dar relevo ao Dia Nacional de Luta Contra as Injustiças da Copa do Mundo.

A principal crítica dos movimentos populares é o dinheiro gasto pelo poder público, seja em estádios, seja em obras feitas às pressas. “A Suécia se recusou a receber as Olimpíadas de 2022 porque eram muitas as exigências e os custos. Isso aconteceu porque é um país que se pauta pelo planejamento”, comentou a vereadora Amanda Gurgel (PSTU), propositora da audiência.

Os participantes da mesa também compararam o que será pago pelos poderes públicos no evento e o investimento em áreas fundamentais. “A partir desse empréstimo de R$ 104 milhões para as obras de mobilidade, no próximo ano o município vai pagar com dinheiro do orçamento R$ 40 milhões para ‘serviços da dívida’[pagamento de juros e amortização da dívida]. Enquanto que o orçamento municipal destina R$ 9 milhões para a Educação”, destacou a parlamentar. Segundo Amanda Gurgel, com a contração desse empréstimo, a dívida do município de Natal chegou aos R$ 400 milhões.

A integrante da Assembleia Nacional dos Estudantes Livres (ANEL), Géssica Régis, também põe em cheque as prioridades da Prefeitura de Natal. “Só na Fifa Fan Fest, a Prefeitura vai gastar R$ 4 milhões. O Passe Livre para os estudantes do município, que iria custar R$ 2 milhões por ano, o prefeito vetou, sendo que era um projeto dele mesmo”, ressaltou.

Além disso, enquanto há ameaça por parte dos empresários do setor de encerrar o serviço de circular no Campus Central da UFRN e a linha Norte-Bairros, a Prefeitura providenciou “seis linhas gratuitas para circular no entorno do estádio e no Fifa Fan Fest. Qual é a prioridade desse governo?”, questionou a estudante.

De acordo com Juary Chagas, representante da Central Sindical e Popular (CSP/Conlutas), o decreto que impede a publicidade nas proximidades da Arena das Dunas também pode ser usado contra as mobilizações populares, em função de uso de instrumentos semelhantes ao da publicidade. “Tentarão não apenas impedir a publicidade, mas também os movimentos sociais com a sua panfletagem e com seu carro de som”, acredita.

Em mais de 50 cidades, no Brasil e no mundo, haverá mobilizações para denunciar os efeitos negativos da Copa do Mundo. Pelo menos sete cidades-sede do mundial deste ano também terão protestos. Em Natal, não há ato público marcado com antecedência. Durante a Copa, o ponto alto das mobilizações na capital potiguar será no dia 16 de junho, dia do jogo Gana X Estados Unidos. É esperada a presença do vice-presidente dos EUA, Joe Biden, na capital potiguar para assistir a partida.

Prefeitura de Natal tem visão equivocada do que é mobilidade urbana, diz professor da UFRN

“Essas obras não eram necessárias. Elas são fruto de uma visão equivocada de mobilidade urbana como se fosse carros em movimento, mas são pessoas em movimento”, disse Rubens Ramos, professor de engenharia de transporte da UFRN, sobre as obras no entorno da Arena das Dunas.

A sugestão do docente é uma solução menos faraônica, o sistema binário. Na opinião de Ramos, as avenidas Salgado Filho e Prudente de Morais poderiam ser de sentido único, uma na direção centro-zona Sul e outra na direção inversa. “Várias cidades já fizeram isso, de Recife a Nova Iorque, e Natal está ficando para trás”, declarou.

O professor também defende a solução mais óbvia para melhorar o trânsito: melhorar o transporte público. Conforme o professor as linhas de ônibus de Natal precisam ser redesenhadas. “O sistema de transporte público em Natal além de ineficiente é irracional. Só na Salgado Filho passam mais de 40 linhas diferentes. Isso acaba causando um congestionamento de ônibus”. Caso ainda mais crítico, é o centro da Cidade. “Para o centro da cidade, tem mais de 30 linhas, mas não tem essa necessidade toda”, acrescentou. Conforme o professor, o itinerário deve ser melhor distribuído.

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