“Mr. Peanut”, de Adam Ross, mostra lado sombrio do casamento

Obra é considerada um dos melhores livros de 2010, nos EUA

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Conrado Carlos

Editor de Cultura

Um belo dia você conhece a garota de seus sonhos. No ambiente de trabalho, na noite ou no círculo de amizades, ela entra em sua vida como o Exército Vermelho na Berlim nazista: fulminante, dominadora, sem brecha para resistência. A cada encontro, um deslumbre, com direito a crises de ansiedade nas horas que antecedem os amassos, feito criança no dia do aniversário. Só de pensar naquela nudez, o sangue interrompe a rota circular para concentrar-se no orgulho masculino.

Ocupado pela força mortífera, uma série de medidas é tomada na configuração da conquista: preocupação com a aparência, presentes inesperados, tolerância com a diferença, maciez no falar, desejo atômico e diário – a recíproca é imediata. Anos depois, quilos acima, mistérios desvendados, corpos explorados à exaustão, surgem os primeiros sinais de desgaste. Somem as conversas prolongadas, o interesse no cotidiano do outro e o sexo, outrora animalesco, vira mera convenção.

Angustiados, elaboram planos de recauchutagem. Viagens e filhos são arriscados como paliativos. Mas você sabe que nada disso funcionará. Então, em outro belo dia, decide pelo nefasto: arranjará uma amante ou matará aquela com quem divide os lençóis. É por esse campo minado que o americano Adam Ross conduz o leitor em “Mr.Peanut”, livro selecionado entre os melhores de 2010 por impressos como a New Yorker, o The Economist e o The New York Times – uma das estreias mais celebradas dos últimos tempos.

Se homem evita discutir a relação, mudará de conceito quando souber da historia de David Pepin, game designer bem sucedido na iminência do divórcio com a mulher Alice Reese, parceira que há treze anos não para de engordar – eles não têm filhos. Com 130 kg e depressiva, Alice é professora de uma escola para jovens problemáticos. Uma rotina inglória e sem ambição fertilizada pelo gradativo afastamento do marido, envolto no trabalho de criação de games e em furtivas puladas de cerca.

Sem saída para o beco estreito da separação, ele tenta uma cartada definitiva sugerindo uma viagem sem volta à Austrália. Alice, em meio à ducentésima dieta, nega o convite. E aparece morta no dia seguinte – engasgada com amendoins, na própria cozinha. David é o principal suspeito. Designados para o caso, os detetives Ward Hastroll e Sam Sheppard não demoram a adentrar em um universo conjugal repleto de traições, violência e amor. Ambos enfrentam os mesmos problemas em seus casamentos – o que piora a situação.

Como um tributo ao suspense hitchcockiano (David e Alice se conheceram na faculdade, durante a disciplina Casamento e Hitchcock), Adam Ross vai além do romance detetivesco para explorar de forma impressionante a união entre duas pessoas. E deixa a pergunta: Qual casamento resiste a uma investigação minuciosa? Poucos, não? Se você é casado (a), fica a dica para ler primeiro e preparar o terreno antes que o parceiro (a) comece. “Mr. Peanut” jogará lenha no fogaréu que talvez esquente sua chapa, neste momento.

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