Mudança no Idiarn expõe as fragilidades do instituto
Depois de quatro dias em casa, só hoje a agora ex-diretora geral do Instituto de Defesa Agropecuária do Estado, Fabiana Lo Tierzo Mangabeira, exonerada do cargo sem qualquer explicação na última segunda-feira, reassumiu suas antigas funções na área técnica.
Durante quase quatro meses em que ocupou o comando do Idiarn, criado durante o governo Wilma de Faria e desarticulado no governo Rosalba por conta das eternas diferenças políticas, Fabiana foi o coringa sacado pelo secretário Betinho Rosado, então na Agricultura, para resolver toda a sorte de confusões que dominavam o instituto, especialmente depois que uma auditoria do Ministério da Agricultura constatou o sucateamento da instituição.
Sem carros, computadores, com diárias de técnicos atrasadas, só para ficar nesses exemplos, o Idiarn conseguiu a suprema proeza de ser reprovado pela auditoria do MAPA e, junto com a Paraíba, atrapalhar a vida de outros estados nordestinos na corrida pela mudança de “status” em relação à febre aftosa, um espeto atravessado na garganta dos criadores há muitos anos.
Betinho Rosado resolveu então envolver o próprio Ministério da Agricultura, que criou o problema, como parte de sua solução. Convidou Evádio Pereira, servidor com mais de 30 anos na Delegacia do Ministério do RN, para assumir a direção geral do Idiarn, chegando a apresentá-lo formalmente aos criadores.
Foram mais de três longos meses com o Idiarn sendo tocado por duas mulheres: Vera Paiva, respondendo pela Defesa Vegetal e Fabiana Lo Tierzo, pela Defesa Animal, esta captada no interior do estado por suas fortes características operacionais.
Até que Evádio Pereira jogou a toalha. Depois de fazer as contas, ele percebeu que perderia metade de seu salário no MAPA se aceitasse a proposta adocicada de elogios do então secretário Betinho.
Os servidores cedidos pelo Governo Federal vêm sem ônus para os seus empregadores originais, de maneira que o Estado teria que ressarcir a fonte pagadora mensalmente, o que é sempre um problema em qualquer circunstância. Evádio, por mais que quisesse ajudar, ouviu a voz da própria experiência e ficou exatamente onde estava.
Dirigido a quatro mãos por Vera e Fabiana, logo Fabiana foi assumindo responsabilidades e concentrando informações. Aos 32 anos, ela finalmente tomou posse no cargo em comissão mais alto de sua carreira, em fins de setembro último, pensando que o mérito poderia referendar o reconhecimento e permanência.
De um dia para o outro, ela passou a ter acesso livre ao gabinete da governadora, o que gerou ciumeira entre seus pares da sede do Instituto. Investida em suas novas funções, ela fez o que se espera de uma pessoa na sua posição – trabalhou muito.
Tendo que se desviar de um campo minado, onde novas “surpresas” eram rapidamente substituídas no lugar das que explodiram, Lo Tierzo conseguiu simpatias e antipatias. Defendida por muitos produtores, técnicos no interior e pelo superintendente federal do Mapa no RN, Orlando Procópio, que já ocupou a presidência do Idiarn na gestão anterior, ela vinha sofrendo o preconceito de algumas figuras de peso do agronegócio simplesmente por ser uma “alienígena”, sem pedigree político, uma “menina” como chegou a defini-la um empresário do setor.
Às vésperas da passagem de ano, Fabiana foi acordada no fim de semana por um telefonema da governadora por conta e uma informação jamais confirmada, mas letal, segundo a qual os exportadores de melão e mamão teriam perdido R$ 21 milhões na última semana de dezembro. O valor se referia à carga de 700 carretas, com aproximadamente 14 mil toneladas de frutos, que deixaram de embarcar tanto para o mercado interno, quanto para o exterior naquela semana.
O Comitê Executivo da Fruticultura do Rio Grande do Norte (Coex), gerador da informação, nunca a confirmou oficialmente. Sabe-se que o problema começou quando a empresa contratada emergencialmente para cuidar do cadastro de produtores do Idiarn perdeu a concorrência e travou o sistema, obrigando o preenchimento manual da Permissão de Trânsito de Vegetais (PTV), situação que só deverá estar normalizada no começo de fevereiro.
A respeito disso, quando ainda era a diretora geral do Idiarn, Fabiana Lo Tierzo explicou que a empresa gestora do sistema informatizado já começara o processo de transferência dos arquivos e que o processo manual pode ter causado certa insegurança nos exportadores, mas não traia qualquer atraso nos embarques. Segundo o próprio presidente da Coex, Francisco Segundo de Paula, não houve informe de interrupções nos embarques de frutas na semana em que ocorreu o problema.
Nomeada para o cargo em comissão no dia 25 de setembro de 2012 e exonerada em oito de janeiro último, Fabiana Lo Tierzo já concluíra o processo de cobrança de taxas por serviços prestados pelo Idiarn, cuja votação foi adiada para após recesso da Assembléia, quan do foi surpreendida pela exoneração. Numa época pós-seca, a simples menção de mais um tributo pegou mal e novamente expôs a jovem diretora geral do Idiarn. E não adiantou ela explicar que só haveria cobrança fora de períodos excepcionais de estiagem ou enchentes.
A independência financeira é uma exigência do Ministério da Agricultura no processo de mudança de “statuss” da aftosa no RN e consta do estatuto do Idarn, que nunca foi cumprido. Esse estaria entre outros motivo que alimentaram descontentamento de produtores (acostumados a financiar suas atividades com desonerações ou dinheiro público) contra a gestão da “menina”.
Procurada hoje pelo JH, Fabiana Lo Tierzo não quis comentar sua saída. Falando pausadamente, disse apenas que leva uma “boa experiência de vida” do cargo que ocupou, mas confessou ter necessitado de quatro dias para recolocar as idéias em ordem. Ocupa em seu lugar a engenheira agrônoma Maria Leonice de Freitas, dos quadros técnicos da Emater, sem qualquer explicação lógica que indique sua presença no cargo. A decisão teria sido tomada à distância pelo deputado Betinho Rosado. Na prática de um governo onde quem menos aparece, mais manda, Betinho ainda dá as cartas.
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