Mulheres começam a ganhar espaço no mundo masculino do pôquer

Alessandra Braga, Larissa Metran e Leo Margets driblam o preconceito para viver do jogo. Conheça a experiência das mulheres como jogadoras profissionais

Larissa é formada em Direito e queria quebrar o estigma do "sexo frágil". Foto:Divulgação
Larissa é formada em Direito e queria quebrar o estigma do “sexo frágil”. Foto:Divulgação

A porta de entrada para o pôquer foi comum para as três. Hoje jogadoras profissionais, Alessandra Braga, Larissa Metran e a espanhola Leo Margets se interessaram pelo jogo fora dos feltros, dando apoio aos seus companheiros. “Meu professor é meu marido. Sempre que ele ia participar de torneios, queria torcer, mas não sabia como. Ele começou a me explicar e eu a me apaixonar por esse mundo”, conta Alessandra, uma das precursoras do esporte da mente (reconhecido pelo Comitê Olímpico Internacional) no Brasil e mulher de Sérgio Braga, um dos grandes nomes do pôquer brasileiro. “Para a maioria das pessoas, jogar é diversão. Para mim é um trabalho como outro qualquer”.

A goiana Larissa Metran e a espanhola Leo Margets também enxergaram no jogo potencial suficiente para lhes garantir uma vida confortável e pouco convencional. Elas deixaram os escritórios e um plano de carreira para levarem uma vida com mais autonomia, mas menos estabilidade.

Apesar disso, quando não estão viajando para disputar torneios ao vivo, elas cumprem uma rotina de competições online. “Jogo algo em torno de cinco horas diárias, tenho um dia de folga e uma maratona aos domingos. Mas me considero incrivelmente sortuda por não usar despertador”, gaba-se Leo.

Acordar cedo seria mesmo o pior inimigo de qualquer jogador, já que o expediente adentra a madrugada. Mas elas não reclamam: “Levo uma vida muito tranquila, organizo meus horários da forma que mais me agrada e às vezes troco o dia pela noite, sim, mas não é uma rotina. Consigo dormir até a hora que dá vontade, com exceção de um ou outro dia”, afirma Larissa.

Estereótipo do passado, machismo no presente

Aquele estereótipo do jogador beberrão e sedentário, com um cigarro no canto da boca, ficou no passado. Praticar atividades físicas é essencial para manter-se concentrado durante longas disputas e não perder nenhum lance da mesa.

“Imagine ficar sentado durante 14 horas! As pessoas que não fazem atividade física têm mais dificuldade de ficar parado. Começam a perder a paciência, não prestam mais atenção nos outros jogadores, na dinâmica da mesa, que muda a todo momento”, explica Alessandra.

Aos poucos o machismo que reinava neste jogo também tem sido diluído. Mas não completamente. O sexo feminino representa 5% dos jogadores. Para muitos homens, ser enganado no blefe por uma mulher pode ser humilhante. “O que posso dizer é que 80% dos homens, consciente ou inconscientemente, não aceitam perder para uma mulher. Chega a ser engraçado!”, diverte-se Larissa.

As jogadoras relatam que, quando isso acontece, a mulher “é caçada” na mesa até o fim da partida. “Era muito desconfortável ser a única mulher em uma mesa mista. Hoje já é mais tranquilo. Mas sou a favor de torneios femininos, pois já sofri preconceito por ser mulher”, diz Ale Braga, como é conhecida.

A paixão não foi o principal motivo para a profissionalização de Larissa Metran, que é formada em Direito e hoje tem contrato com o Full Tilt Poker, segundo maior site de pôquer do mundo. Ela precisava quebrar a barreira do sexo frágil, de que a mulher não seria capaz de jogar de igual para igual com os homens. “Na época em que eu comecei, sempre que aparecia uma mulher nas mesas, eles ficavam desprezando a nossa capacidade e eu queria passar por cima disso. Queria provar pra mim mesma e também para eles que eu era capaz de ganhar, de blefar e de não deixar ser blefada”, exclama Larissa.

Por se tratar de um jogo de inteligência e não de músculos, a capacidade dos gêneros é a mesma. Essa é a teoria de Leo, que é patrocinada pelo maior site de pôquer do mundo, o PokerStars. Apesar de ter passado por situações hostis, ela afirma que jogadores de pôquer são esclarecidos o bastante para reconhecer o valor da mulher na mesa. “É tudo sobre o cérebro e suas características como pessoa. A habilidade no pôquer não está relacionada ao sexo”, diz.

Armadilhas

No entanto, há quem tire proveito de ser mulher. Um decote profundo e uma jogada de charme podem ser artifícios para desestabilizar o oponente. Elas reconhecem que a sedução é usada como arma por algumas, mas pessoalmente dispensam esta conduta.

Outra armadilha — esta sim considerada legítima pelas profissionais — é usar a imagem de fragilidade do sexo feminino a seu favor, criando o chamado “fake tell” (mensagem falsa). As mulheres passam a imagem de conservadoras, de estarem nervosas e com medo, e é neste momento que as melhores jogadas surgem. “O homem acha que a mulher não blefa nem tem coragem de fazer jogadas diferentes. Então o ideal é explorar por aí”, entrega Alessandra, que é madrinha do time feminino “Ladies Team”.

“Queria provar pra mim mesma e também para eles que eu era capaz de ganhar, de blefar e de não deixar ser blefada” (Larissa Metran)

sorte não é fator determinante para nenhum dos gêneros. “Está provado que o pôquer não é um jogo de azar”, salienta Ale, que tem no currículo mais de mil torneios. Superstições também não combinam com o jogador profissional de pôquer. “Acredito na lei da ação e reação. Se você faz por atingir um objetivo, você vai conseguir e ponto final”, argumenta Larissa.

Hino nacional

O caminho para se tornar um vencedor é longo e não se pode parar de estudar. Como define Larissa, o pôquer é um jogo em constante mutação — as jogadas entram e saem de moda. “Por mais que se estude, nunca vai ser uma ciência exata. É preciso ter um misto de capacidade de interpretação, raciocínio, atenção e paciência”, enumera.

Estabilidade psicológica é fundamental para entender sobre variância, ou seja, ganhar ou perder. Muitas vezes elas jogam 20 torneios para ganhar apenas um. Isso é o mais inconveniente da profissão e todas concordam. “Lidar com altos e baixos é o mais difícil para mim. Não se tem um salário fixo sendo um jogador de torneios de pôquer, a não ser que se tenha um patrocínio”, emenda Larissa.

Por isso ter controle e estabilidade mental é a regra número um. Pessoas equilibradas têm mais chance de vencer. “Acho que o psicológico é a coisa mais importante do jogador. Vejo muitas pessoas descompensadas, que perdem para elas mesmas nessa questão do emocional”, ressalta Ale.

Problemas pessoais devem ser mantidos fora da mesa, mesmo que isso seja uma tarefa difícil. “Eu acho que sou profissional o suficiente para ser capaz de desligar quando eu sento para jogar, mas esse ano que passou eu realmente lutei muito contra isso”, diz Larissa.

Instrutora em Inteligência Emocional, Leo está um passo à frente de seus adversários por antecipar a reação das pessoas – até os mais experientes em fazer a “poker face”, ou face neutra. Atualmente, ela ministra palestras para organizações que ensinam o pôquer como uma ferramenta de pensamento estratégico e um instrumento de negociação. “Isso é algo que realmente gosto de fazer e me vejo combinando minha faceta como jogadora com esse outro lado mais educativo”, diz.

Competitivas e superfocadas, tanto Leo como Alessandra e Larissa têm certeza de que não podem parar. Disciplina, estudo e dedicação são parte do caminho para um mesmo sonho: representar seus países no mais alto nível do esporte e escutar o hino nacional em um grande torneio internacional.

Fonte:IG

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