Na África do Sul, Mundial deixou legado positivo para mobilidade

Ampliação do BRT e expansão do Gautrain reduzem problemas do sistema de transportes no país

Gautrain liga Johannesburgo a Pretória. Foto:Divulgação
Gautrain liga Johannesburgo a Pretória. Foto:Divulgação

Passados quase quatro anos da Copa do Mundo, o futebol da África do Sul continua tropeçando na bola, a taxa de desemprego no país permanece alta (mais de 25% em 2013) e a desigualdade social é grande, a violência também. Num aspecto, porém, o Mundial foi positivo para os sul-africanos: a mobilidade urbana.

Atualmente, boa parte deles se locomove melhor do que em 2010 nas principais cidades graças ao aspecto mais visível, e efetivo, do legado da Copa para a África do Sul: o sistema de transporte. Circular por Johannesburgo, por exemplo, ficou mais fácil em consequência da expansão do Rea Vaya, o BRT (Bus Transit Rapid) local, e do Gautrain, o trem de alta velocidade, projetos que na época do Mundial andavam em marcha lenta.

O motorista Thomas Mabasa é um dos beneficiados pela melhora. Morador de Dobsonville, em Soweto, trabalha no luxuoso distrito de Sandton, a cerca de 40 quilômetros de casa. Antes, diz, levava mais de duas horas no trajeto, chacoalhando em vans caindo aos pedaços. Agora, são 45 minutos. Pega um ônibus, faz integração com o trem de alta velocidade e pronto. “Ficou bem mais fácil, e menos cansativo, porque o ônibus e o Gautrain são confortáveis.”

Tanto o Rea Vaya como o Gautrain foram prometidos para a Copa. Em 2010, porém, as obras estavam apenas parcialmente concluídas. Mas os investimentos continuaram e agora ajudam a reduzir o grave problema de mobilidade em Johannesburgo e nas townships, regiões periféricas destinadas a confinar os negros nos tempos de Apartheid e que hoje são mais apropriadamente chamadas de cidades-dormitório.

O transporte coletivo continua bastante carente em Johannesburgo. As vans malcuidadas e sem indicação de itinerário – passageiros e condutores se entendem sobre o destino por meio de assobios e sinais manuais – ainda tomam conta das ruas. Mas o Rea Vaya já assume seu espaço. Se em 2010 suas linhas basicamente ligavam o centro aos estádios Ellis Park e Soccer City, agora percorrem boa parte da cidade. São 234 quilômetros de vias exclusivas, espalhados por 14 linhas divididas entre rotas-tronco, complementares e alimentadoras. E o usuário pode acessar outro ônibus nas estações integradas e também linhas de trens.

O Rea Vaya, que significa “vamos” em zulu, ainda não está completo. O plano é que o sistema atinja 330 quilômetros de corredores, para “permitir que mais de 80% dos residentes de Johannesburgo possam pegar um ônibus’’, segundo a proposta existente no site da empresa.

Os ônibus são novos, conservados – mesmo nas áreas mais violentas, como Hillbrow e Doornfontein estações e veículos são preservados – e rápidos. E baratos: a passagem básica custa o equivalente a R$ 2,50 para percursos até 25 km e R$ 2,70 se a distância for até R$ 35 km. Segundo relatos dos sul-africanos, há sistema de BRT funcionando com eficiência também na Cidade do Cabo, em Pretória e em Port Elizabeth.

Trem rápido

O Gautrain também se tornou realidade, e percorre os 80 quilômetros que separam o aeroporto O.R. Tambo de Pretória, a capital, algo que deveria ser rotina desde 2010. Mas na época as autoridades só entregaram o trecho entre o aeroporto e Sandton – três dias antes da abertura da Copa.

O sistema de transporte, no qual o governo investiu 11,7 bilhões de rands (R$ 2,8 bilhões) – aeroportos foram ampliados e estradas, modernizadas –, é considerado o legado positivo da Copa para a África do Sul. Pelo que proporciona no dia a dia e por ter ajudado a elevar a autoestima dos cidadãos. “Mostramos que somos capazes de fazer e isso ajuda no sentimento de patriotismo”, considera o economista Udesh Pillay.

Compartilhar: