Nas nossas cabeças

Um vaso sanitário. Abastecido ou não, matou um torcedor no Estádio do Arruda. Recife, Pernambuco, Brasil. Nos idos do futebol…

Um vaso sanitário. Abastecido ou não, matou um torcedor no Estádio do Arruda. Recife, Pernambuco, Brasil. Nos idos do futebol romântico, a Rádio Clube encerrava com o epílogo solene suas jornadas de clássicos acalorados em campo.

Nas fases memoráveis das glórias do Náutico de Nado, Bita, Nino Ivan, Lala(não no Arruda, nos Aflitos) do Hexa, do Santa Cruz brilhante de Luciano, Givanildo e Ramon e do tinhoso Sport de Denô, Roberto e Edson, a Rádio Clube, após transmissões de epopeia, coroava o domingo com a vinheta: Recife, Pernambuco, Brasil.

O futebol brasileiro é um vaso sanitário, abastecido ou não, em desmandos e submundos. O protótipo vaso sanitário onde sentamos para reflexões e alívios inevitáveis na rotina do nosso organismo. O futebol brasileiro fede. Agora sangra nas cabeças destroçadas pelos equipamentos de banheiro.

Atiraram um vaso sanitário que atingiu a cabeça de um rapaz depois de Santa Cruz x Paraná. Paulo Ricardo Gomes da Silva, 26 anos, morreu. Estava entre os torcedores paranistas e o Santa Cruz teve seu estádio interditado até a identificação do autor do assassinato. Outro. Mais um.

Alguém tem dúvidas de que o arremessador do vaso sanitário ou pútrido faz parte de uma “organizada”? , que está para o futebol na proporção da impunidade dos menores de 18 anos assassinos na vida real e dolorosa de quem perde um familiar, amigo ou assiste um drama cotidiano pela mídia.

Faz tempo que escrevi por aqui o seguinte: enquanto os integrantes dessas facções criminosas estiverem se matando, as autoridades tomarão medidas de holofote, convocarão coletivas, se reunirão para debater o indiscutível e o próximo defunto tombará numa briga de arquibancada, baleado, esfaqueado, não necessariamente no estádio.

O Brasil é um retardatário em providências de um país verdadeiro e não de uma republiqueta de dimensões continentais. Lembram das inúmeras campanhas educativas para o uso do cinto de segurança? No amor não funcionou de jeito nenhum e as melhores cabeças criativas do país bolaram campanhas premiadas enquanto cadáveres se amontoavam pelas estradas.

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Quando endureceram a legislação do trânsito, estabeleceram multas rigorosas e perda de carteira de motorista para quem não usa o cinto, os índices diminuíram, embora continuem alarmantes.

O brasileiro abre o olho quando tocam no seu bolso, mais sensível parte do seu corpo, já dizia o ministro Delfim Neto, pai da inflação no Regime Militar e conselheiro econômico de Lula em visitas confidenciais ao Palácio do Planalto, sempre entrando pela porta privativa. Numa delas, a serviço, encontrei Delfim Netto, mais magro e remoçado, milagre proporcionado pelo poder.

A morte do rapaz de Recife, que torcia pelo Sport e foi colaborar com os paranaenses torcendo contra o Santa Cruz (coligação de torcidas virou moda), vai emocionar duas ou três semanas a mais porque a contagem regressiva para a Copa do Mundo segue ligeira. Ele era um pobre, mera cova de estatística.

Tomara que não, mas só haveria providência quando uma celebridade ou um rico fosse a vítima. Aí sim. A indignação seria geral, as redes sociais tremeriam em indignação, o Jornal Nacional dedicaria cinco minutos diários cobrando medidas drásticas.

A comoção iria gerar passeatas e o Palácio do Planalto editaria um decreto extinguindo de uma vez por todas as torcidas organizadas e a prisão perpétua de todos os marginais que nelas estão infiltrados, atuando até mesmo em quadrilhas envolvidas em delitos gravíssimos.

Participam de assaltos à mão armada, tráfico de drogas, sequestro e têm ligações com grupos criminosos organizados e ditando regras de dentro dos presídios infestados de corrupção pelo país afora.

Em Natal, autoridades relacionadas ao tema jamais se deram ao trabalho de contar e relatar, ao longo dos anos, quantos morreram pelo ódio insano dos criminosos que vestem camisas de clubes de futebol impunemente.

Puxando sim, a brasa para a injustiça bairrista. No ano passado, o ABC foi acusado de vender ingressos a mais do que a capacidade do Frasqueirão no jogo contra o Palmeiras.

Espetáculo dantesco, gente espremida, chorando e a imprensa nacional dando aula de moralismo. Punido, o ABC está jogando suas primeiras três partidas da Série B com mando de campo a 100 quilômetros de Natal, no Iberezão, em Santa Cruz, do Trairi.

E o Santa Cruz de Recife? Vai ficar na declaração oficial pífia ou não sofrerá medidas mais duras que a interdição do Arruda? Gosto e até torço pelo Santinha, mas a omissão do clube é tão grave quanto a timidez da grande mídia.

Prenderam o confesso autor da barbárie e que ele fique numa cela por 30 anos(não cumprirá 10 de clausura) . Ou o vaso sanitário – que caiu sobre nossas consciências – explodirá num grande esgoto trágico de morte no futebol que sempre exalou alegria e paz.

Liga toma à frente

Fundador da Liga de Clubes, responsável pelo sucesso do Campeonato do Nordeste, o ex-presidente do América, Eduardo Rocha disse ao blog do Marcos Lopes que se as autoridades não tomam medidas, a CBF, as federações e os clubes terão de agir, “impedindo o acesso das organizadas aos estádios”. Boa.

Tornozelo

A fé do torcedor do América não está concentrada no pé esquerdo habilidoso, mas no tornozelo machucado do seu camisa 10 Arthur Maia, peça indispensável para o jogo contra o Náutico pela Copa do Brasil às 21h50. Arthur Maia foi examinado e vetado, mas fica a esperança de estilo armador.

Náutico quer liquidar

O Náutico quer liquidar a fatura hoje, vencendo por dois gols e dispensando o jogo da volta. É o que dizem as páginas eletrônicas dos jornais pernambucanos. É preciso combinar antes com o time e a torcida do América.

Crise

O ABC, animado pela vitória sobre o América, volta suas atenções para um Atlético de Goiás que chega a Natal em crise pela falta de vitórias na Série B. Adversário mordido e perigoso amanhã no Frasqueirão.

Bileu

Bileu é mais qualificado do que os volantes que o ABC conta, mas o ABC teria, com ele de volta, nove similares, quase um time inteiro. É muito. Chegaria a ser demais. Melhor trazer um lateral-esquerdo, outro meia ou atacante de velocidade. O ABC está bem mas ainda não está pronto.

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