Natal daqui a 50 anos

Breve notícia sem arrodeio das cinco edições da conferência futurista de Manoel Dantas na Natal de 1909, há 105 anos, e…

Breve notícia sem arrodeio das cinco edições da conferência futurista de Manoel Dantas na Natal de 1909, há 105 anos, e de como a mais antiga delas foi vendida em benefício dos órfãos do poeta Segundo Wanderley, conforme tinha e achou, o não menos credenciado Edgar Dantas, neto de Manoel e filho de Osório, com todas as insígnias para atestar a verdade, somente a verdade.

Quando Adriano de Souza lançou o primeiro número da revista Perigo Iminente, em março de 2009, para marcar os cem anos da conferência futurista de Manoel Dantas, foram feitas neste acervo as como parte integrante a reprodução fac-similar da edição de 1909 com esta informação – acreditava-se ser aquela sua edição original, a única a circular em 1909 e impressa dos prelos da Imprensa Oficial.

Não é. E quem levantou a dúvida quando da leitura do texto, à época, foi uma fonte qualificada: o geólogo e pesquisador Edgar Dantas, neto de Manoel Dantas, um dos maiores conhecedores da obra intelectual do seu avô. Edgar lembrava ter nos guardados uma edição que circulou naqueles dias da conferência, lida a 21 de março e impressa na Typ. d’ República, com venda exclusivamente doada aos órfãos do médico e poeta Segundo Wanderley, na então Livraria Cosmopolita, de Fortunato Aranha.

Começava ali, há quase quatro anos, uma espera longa e sem pressa. Era preciso ter em mãos o pequeno livreto que os antigos impressores chamavam de opúsculo para provar que a edição feita pela da Fundação José Augusto, em 1986, com a apresentação de Anchieta Fernandes e na gestão Woden Madruga, não era a quarta, mas a quinta impressão a conquistar a curiosidade dos seus leitores até pela singularidade de uma visão que projetava a Natal futurista que se materializaria ao longo do século.

A falsa informação resistiu ao olhar vaidoso e desinformado deste colecionador, e também de outros olhares, como dos próprios Anchieta Fernandes e J. Medeiros, leitores cuidadosos. Tinha razão Edgar, o neto de Manoel Dantas: são cinco as edições de Natal D’Aqui a Cinquenta Anos. A dúvida que perdurou todos esses anos nasceu da raridade da primeira edição desaparecida, única e singular, com a inscrição impressa no alto da pequena capa: ‘Patrimônio dos orfhãos de Segundo Wanderley’.

A primeira edição de Natal D’Aqui a Cinquenta Anos deve ter circulado na mesma semana da conferência, pronunciada a 21 de março de 1909, ‘no salão de honra’ do Palácio Potengi. Impressão tipográfica típica de cidade de poucos recursos gráficos, capa com cercadura em traços horizontais e verticais nos quatro lados, e o aviso de que se destinava aos órfãos de Segundo Wanderley. O título, a informação da data e, na parte final, a indicação de que foi impressa na ‘Typ. d’A República, Natal’.

A segunda edição circula alguns anos depois e a indicação está na própria capa: ao invés de ser uma nova impressão da ‘Typographia d’A República’, como seria natural, deve ter saído dos prelos em fins dos anos vinte, possivelmente ainda no Governo Juvenal Lamartine, antes em outubro de 1930, da Revolução de outubro daquele ano, a julgar pelo fato de informar ter sido impressa agora na ‘Imprensa Oficial – Natal’, sem data. O detalhe demonstra já existir uma imprensa e não ‘uma tipografia oficial’.

A terceira edição tem outra singularidade: sua capa é uma concepção de Wharton Cordeiro com ilustrações em bico de pena que mostram, no alto, a Natal do futuro – com arranha-céus, transatlântico e trem moderno – e, na inferior, a Fortaleza dos Reis Magos com a torre do seu antigo farol sinaleiro e ainda cercada de arrecifes, inacessível. Na composição do título e do nome do autor, letras vasadas em traços modernos. Sem data e, na folha de rosto, ‘Homenagem de seus amigos’, sem registro de nomes.

Só algumas décadas depois, 1989, a conferência de Manoel Dantas volta a circular, e agora na Coleção Mossoroense ‘Série B, n. 608′. É, na verdade, a reprodução integral da edição anterior com a capa em bico de pena, sem qualquer alteração. A quinta e última edição é lançada pela Fundação José Augusto, coedição com Sebo Vermelho, apresentação de Anchieta Fernandes invocando o pseudônimo de Dantas – Brás Contente, e orelhas de J. Medeiros sobre a modernidade das idéias de Manoel Dantas.

Esta a história das cinco edições da conferência de Manoel Dantas – de março de 1909, há 105 anos, a 1996, projeto gráfico de Marcelo Mariz. A sua importância é atestada ontem e hoje. Ontem, pelos depoimentos de José Augusto Bezerra de Medeiros e Juvenal Lamartine. Hoje, pelas visões de Anchieta Fernandes e J. Medeiros que sabem do papel de Manoel Dantas como o grande divulgador do Manifesto Futurista de Marinetti naquela Natal aldeã de 1909, há mais de um século, ainda tão distante das vanguardas europeias. Mas a repercussão da conferência há 105 anos é uma conversa pra depois…

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