Natalenses analisam a escolha do Papa Francisco diante do favoritismo de Odilo Scherer

Vigário-geral da Arquidiocese de Natal e dois cidadãos comuns comentam eleição do cardeal argentino. Foto: Divulgação
Com a escolha do argentino Jorge Mario Bergoglio para ser o 266º Papa, sugiram, de forma instantânea, boatos e motivos que causaram a decepção com o suposto favoritismo do cardeal de São Paulo, Dom Odilo Scherer. Assim como inúmeras piadas. Desde La Mano De Diós, frase proferida por Diego Maradona ao justificar o gol irregular marcado contra a Inglaterra, nas quartas-de-final da Copa do Mundo de 1986, até o fato de que, agora sim, católicos brasileiros (ou 125 milhões de pessoas) são ‘Filhos de Francisco’ (em vez da dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano). Para saber a opinião de natalenses sobre o cardeal de Buenos Aires, O Jornal de Hoje ouviu um especialista e dois representantes da maior população católica do Mundo.
A primeira parada foi o Centro Pastoral da paróquia Nossa Senhora de Candelária. Foi lá que o padre Edilson Nobre, vigário-geral da Arquidiocese de Natal, falou sobre o primeiro Papa não europeu desde 731. O que, para muitos, era um clima de ressaca, ele viu com satisfação a eleição do sul-americano descendente de italianos. “Ao contrário do que as pessoas pensam, o processo é bem diferente. Não fiquei decepcionado por não ter criado expectativa. Acho que a escolha foi muito boa. Ele tem fama de saber dialogar com o mundo, de entender o contexto em que vive e tem tudo para ser o mais adequado para o momento. A Igreja, com mais de dois mil anos de existência, sabe o que faz. Foi bom por não ser um europeu e alguém que tem competência para assumir a função”.
O Papa Francisco (sem o numeral romano I, o que só ocorrerá no dia em que for escolhido o Francisco II) é jesuíta, o que significa que, além de seguidor de Jesus, ele pertence a uma congregação com forte cunho intelectual. “Os jesuítas nunca tiveram um Papa, apesar da forte influência que têm no Vaticano. Eles dão muita ênfase ao aprimoramento intelectual, ao aprofundamento no estudo teológico com uma formação mais longa”, diz padre Edilson. Conhecido por sua humildade (anda de ônibus e mora em um apartamento de dois quartos ao lado da catedral da capital portenha), mas também pelo conservadorismo (é radical contra o aborto e o casamento gay), ele foi professor de teologia, filosofia e psicologia, foi reitor da Faculdade San Miguel e domina idiomas distintos como italiano e alemão.
“João Paulo II também não era favorito e vinha de um país sem tanta força dentro do Vaticano [Polônia] e foi um grande Papa. E a escolha que ele fez pelo nome Francisco não foi casual. Talvez sinalize um direcionamento que ele vai dar no Pontificado dele. Não sei se ele se inspirou em são Francisco de Assis ou Francisco Xavier. O primeiro foi simples e preocupado com os pobres. O segundo foi um grande evangelizador. Acho que isso pode significar que ele valorizará a humildade e os mais necessitados”, sugere padre Edilson. “Minha maior surpresa foi em relação a idade dele [75 anos]. Esperava um cardeal mais novo, até por tudo que aconteceu com Bento XVI, que sentiu o peso da idade. Mas, pelo aspecto que ele apresentou na Basílica de São Pedro, vemos que ele tem muito para dar”.
Mais de 5.600 repórteres foram cadastrados pela assessoria de imprensa do Vaticano. O que mostra o interesse pela Igreja Católica. Com os primeiros sinais da fumaça branca, parte da liturgia que anuncia o novo Papa, fiéis vibraram como torcedores no instante do gol. “Aquilo foi extraordinário. Não queremos concorrer com ninguém, mas mostrou o quanto de orgulho existe nos seguidores de Cristo. No Brasil, tudo gira em torno do Carnaval, e quando houve a renúncia de Bento XVI, a imprensa ficou dividida, cobrindo igualmente os dois eventos”, enaltece padre Edilson.
Já para o cabeleireiro Ribamar Alves, 42 anos e católico, ficou um certo lamento. “São quase dois mil anos de papado [são Pedro, considerado o primeiro Pontífice, iniciou seu cargo eclesiástico em 30 d.C] e nenhum brasileiro. Não somos o maior país católico do mundo? Não fiquei com inveja dos argentinos, mas gostaria que fosse o nosso”. O mesmo pensamento surge nas palavras do comerciante Jorge Antonio Guedes, 49 anos. “Acompanhei à noite. Estava torcendo para ser o brasileiro, mas não deu. Quem sabe na próxima? Só não sei se estarei vivo”. Chance de ver de perto o buenosairense Jorge Mario Bergoglio, rebatizado Papa Francisco, ele terá em junho próximo, no Rio de Janeiro, durante a primeira viagem do novo Chefe de Estado do Vaticano, em virtude da Jornada Mundial da Juventude.
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