Navarro, navarrear

Que não se findem os dias de dezembro deste ano da graça de dois mil e treze sem que registre…

Que não se findem os dias de dezembro deste ano da graça de dois mil e treze sem que registre aqui, ainda que sem brilho e sem fulgor, entre tantas homenagens a Newton Navarro, uma reprodução fac-similar do primeiro catálogo de sua exposição, em 1948. Quando nada, há de servir à curiosidade dos que pesquisam sua obra, para assim constatarem a modernidade dos seus traços, imaginando melhor o espanto que devem ter causado aos olhos daquela Natal quieta, de alma dorminhoca e pachorrenta.

Um catálogo, em verdade, não chega nem a ser, de tão despojado na sua humildade gráfica – não mais que uma folha de ofício dobrada ao meio, se tanto – em impressão tipográfica com desenho de capa reproduzido em clichê – a anatomia fragmentada de uma fisionomia humana em traços cubistas. É mais convite do que catálogo, mas cumpre o bom desatino de alfinetar a vida pacata desta aldeia adormecida às margens do Potengi, vizinha e amiga da velha Limpa e da austera Fortaleza da Barra do Rio Grande.

O desenho de capa tem a assinatura di N, com cercadura de frisos tipográficos e título em letras vermelhas: ‘Primeira Exposição de Desenho e Pintura de Newton Navarro’- Dezembro de 1948 / Janeiro de 1949 – Natal – Rio Grande do Norte’. Na folha central, aberta, em letras vermelhas e fortes, outra vez: ‘Catálogo – Primeira exposição de desenho e pintura de Newton Navarro’. Seguida da relação completa das obras expostas, divididas em cinco técnicas com todos os seus títulos, e a quarta face em branco.

Na relação, entre suas aquarelas, dois quadros considerados eróticos e, portanto, históricos: ‘Os frutos do amor amadurecem ao sol’ e ‘Sejamos docemente pornográficos’. O depoimento é de Dorian Gray no seu ‘Artes Plásticas no RN’, UFRN, 1989: ‘Nos idos de 1949, assisti à exposição de Newton Navarro na antiga Sorveteria Cruzeiro’. E depois: ‘Quadros como ‘Sejamos docemente pornográficos’ e ‘Os frutos do amor amadurecem ao sol’ causaram um rebuliço na pacata província acostumada a ver exposições bem-comportadas com naturezas mortas e vasos com flores em estilo acadêmico’, lembra.

Foram dezoito aquarelas, dez bicos de pena, vinte estudos a nanquim, cinco desenhos a carvão e quatro óleos. Nos títulos, também já se desenhava a temática regional que iria marcar a sua criação, sem perda do caráter universal do belo, como obras de arte. Seus cangaceiros, cajus, peixes, algodão, banguê, retirantes, malandros, xangô, negros e santos da devoção popular. Já este título, Navarro, navarrear, o substantivo e o verbo da criação, copiei da retrospectiva que Rejane promoveu na Capitania das Artes.

Outro registro se faz indispensável: a cabeça de cangaceiro que Oswaldo Lamartine fez doação ao acervo da Capitania das Artes, numa homenagem a Rejane, quando da inauguração – ele veio como convidado. É da primeira exposição de Navarro, de 1948, mas foi adquirido por Oswaldo em 1949 quando exposto no II Salão de Artes Plásticas de Natal, com a participação de Navarro, Dorian Gray e Ivon Rodrigues, e com o apoio de nomes como Luís da Camara Cascudo e Américo de oliveira Costa.

Para fixar a importância do quadro e seu valor histórico para o acervo que Rejane queria formar na Capitania, lançou cinco postais para divulgar publicamente o que já havia sido incorporado ao patrimônio da fundação municipal de cultura, entre eles a cabeça de cangaceiro de Newton Navarro, uma grande aquarela da Redinha também de Navarro, e uma das gravuras, todas provas de autor, de Aldemir Martins que pertenceram a Oswaldo de Souza que foi amigo do grande pintor, em São Paulo.

Retorno ao catálogo para dizer que há em tudo um lirismo muito dele. Filtrado no requinte de títulos como ‘As mãos suportam o silêncio’, ‘Noturno à janela do apartamento’, ‘Os olhos guardam os girassóis’. Um Navarro que em 1948 já carregava sua pequena humanidade que ele vai abrigar para sempre no seu mundo – vaqueiros, marinheiros, santos bêbados, rendeiras e malandros. Vivos, convivendo com um Cristo morto. Um Cristo com a dor humana e por isso feito talvez da mesma dor daquele criador atormentado e genial.

 

PREJU
Ao suspender o pagamento dos recursos do Fundo Estadual de Cultura que ela mesma criou e assinou num festejo intelectual a governadora Rosalba Ciarlini negou à cultura, em 2 anos, mais de 20 milhões.

DESCASO
Fracassou em Mossoró o plano de aquisição da casa e biblioteca que pertenceram a Dorian Jorge Freire. E a Fundação Vingt-un Rosado, promotora da Coleção Mossoroense, vive a maior crise de sua história.

GREVE – I
Segunda-feira engenheiros e arquitetos da Prefeitura entram em greve depois de uma negociação que vem desde setembro e sem que a Prefeitura tenha sequer discutido uma solução para as duas categorias.

EFEITO – II
A greve atinge as obras da Copa e da mobilidade urbana em várias áreas da cidade e nasce muito mais da falta de coerência da Prefeitura com aumentos privilegiados para os procuradores e auditores fiscais.

TEMPO – III
Os engenheiros e arquitetos alegam que há quase cinco anos seus salários não são reajustados com base na inflação, gerando uma defasagem acumulada. O interesse, afirmam, é lutar por uma saída negociada.

ESTILO – I
A edição de dezembro/janeiro da Poder, a revista de Joyce Pascowitch, mostra que também no Brasil há bilionários de absoluto rigor na discrição. Nenhum deles, pelo visto, vive nesta terra de exibicionistas.

ALIÁS – II
Há poucos dias um casamento em Natal teve como destaque o valor do vestido da noiva adquirido numa grife em Paris: 30 mil euros ou R$ 100 mil reais. Pior o acinte maior do argumento: natural, o pai pode.

CHARME – I
Crescem em São Paulo e Rio o mercado dos cursos livres de graduação e pós-graduação. Salas de aulas com poltronas confortáveis, bibliotecas modernas e atualizadas à disposição dos professores e alunos.

SABER – II
É o saber como o novo charme formando homens e mulheres de idéias nas áreas de filosofia, religião e economia criativa, entre outras fortunas. O encontro perfeito de uma boa idéia com um ótimo negócio.

BRILHO
O deputado Fábio Faria não conseguiu ser o primeiro na preferência como no SBT conquistando a filha de Silvio Santos, mas conseguiu cravar a presença entre as onze melhores atuações na Câmara Federal.

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