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Nem vodka, nem tédio

Data: 15 janeiro 2013 - Hora: 13:54 - Por: Conrado Carlos

“O que se vai ler a seguir é o que nos aconteceu. Não é o relato sobre a Rússia, mas apenas um dos possíveis relatos sobre a Rússia”. Era o que prometia John Steinbeck, logo na abertura de “Um Diário Russo” (Editora Cosacnaify). Falava não só em causa própria, mas também em nome do companheiro de empreitada, o fotógrafo húngaro-francês Robert Capa. Em 1947, os dois passaram quarenta dias na então URSS com a intenção de conhecer o cotidiano das principais cidades.

Enquanto a ‘moscovite aguda’ se alastrava entre os americanos, o escritor e o fotógrafo transpuseram a Cortina de Ferro em busca de explicações. Como vivia aquela gente, sob domínio do socialismo? O que pensavam, ouviam, comiam os cidadãos do outrora aliado, recém intitulado inimigo do estilo de vida ocidental?

Enquanto Steinbeck arriscava um novo formato para sua escrita, após o estrondoso sucesso do romance “As Vinhas da Ira” (1939) – obra que levantou suspeita quanto à simpatia do americano pelo comunismo; Capa, um dos maiores fotojornalistas do século 20, estava habituado com o clima de confronto – suas coberturas da Guerra Civil Espanhola e da Segunda Grande Guerra o calejaram.

Detalhes banais interessavam mais do que a política. Só olhariam a vida pessoal dos soviéticos. Queriam manter distância tanto da crítica como do elogio direto. Texto e imagens seriam assépticos e descompromissados. Mas desde a chegada, perceberam que parte do plano não vingaria. Ao desembarcar com treze malas, milhares de lâmpadas de flash, centenas de rolos de filme, câmeras, fios, etc, e sem ninguém para recebê-los, nem hotel reservado, a aventura deu sinais de que seria tortuosa.

O fotógrafo ganhou atenção redobrada da KGB, e uma série de restrições à captação de instantâneos foi imposta. Tal fato mereceu texto anexo. Intitulado “Uma Queixa Justificada”, o protesto de Capa contra as condições de trabalho pode ser resumido nesta frase: “… esse povo é muito consciencioso, recatado e trabalhador, e, para um fotógrafo, tão enfadonho quanto uma torta de maça”.

Era vedada a captação de imagens panorâmicas das cidades, de prédios públicos ou aglomerações. Na verdade, ainda nos preparativos para a viagem, a diplomacia russa questionou Steinbeck da necessidade de levar o acompanhante: “Há muitos fotógrafos na Rússia”.
Os dois mantiveram uma convivência pacífica, porém tensa. Todos os dias, ao acordar, o romancista elaborava três perguntas, sobre assuntos diversos, para testar os conhecimentos de Capa e, sobretudo, evitar suas freqüentes reclusões no banheiro – não imaginava que era o oposto. “Um lugar que simplesmente detesto”. O aprisionamento voluntário era decorrente do pavor que perguntas eruditas causavam em meio à ressaca e a sonolência matinal.

Durante a leitura de “Um Diário Russo”, tem-se a noção da seriedade, do puritanismo e da desconfiança impregnada nos moscovitas. “Não se nota quase nenhuma alegria nas ruas e até mesmo os sorrisos são raros”. A efusividade estava fora da capital. Especificamente na Ucrânia e na Geórgia, terra-natal de Stálin. Vodka e glutonaria dão o ritmo. Orgias gastronômicas são ofertadas em cada aldeia ou vilarejo que chegam. A sensação de cansaço é uma constante. O registro de reminiscências humorísticas, paradoxais e trágicas é sempre permeado de encantamento e suspensão da realidade.

“Melhor morrer de vodka que de tédio”, disse o georgianoVladimir Maiakovski, na ocasião do suicídio do também poeta Iêssienin. Em período nefasto para a história mundial, cujos desdobramentos das experiências ideológicas geraram milhões de mortos e quase a hecatombe planetária, o tratado de John Steinbeck e Robert Capa foi certeiro, pois desagradou governantes e mídia engajada dos dois lados. Para os soviéticos, eram dois “Bandidos”, duas “Hienas”. E os macartistas enxergaram conteúdo pró-comunismo.  A riqueza dos pormenores de “Um Diário Russo” possibilita várias interpretações desse período sombrio e marcante da história contemporânea.

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