Nervos de bagaço – Rubens Lemos Filho

Estão fazendo gozação pela presença de uma psicóloga atendendo aos lacrimosos jogadores do Brasil na Copa do Mundo. Quem leva…

Estão fazendo gozação pela presença de uma psicóloga atendendo aos lacrimosos jogadores do Brasil na Copa do Mundo. Quem leva o assunto na brincadeira, nunca passou por apertos emocionais, por crises que exigem acompanhamento de especialistas.

É um time de sensíveis. É um time de chorões. Antes do jogo. Eis a preocupação. Chora-se nas glórias e nas derrotas quando a partida acaba. Se não se pode ouvir o Hino Nacional sem que os olhos jorrem cachoeiras de insegurança, que se chame a doutora Regina Brandão para equilibrar os nervos.

Chorar antes de a bola rolar é mais ou menos o paralelo com uma tropa de elite de Seals norte-americanos, preparados para um universo de Bins Ladens, perfilados e em prantos, ouvindo o cancioneiro pátrio e observados pelo inimigo talibã.

A lágrima em coro transmite pânico e o pânico, diferente do medo necessário instinto para qualquer ser humano – facilita a vida do adversário. Dispensado do primário respeito.

Neymar, nosso divã de pernas finas e futebol exclusivo, levou o assunto na gozação, ele que sofreu de crise carpideira depois do jogo de morte contra o Chile. Ao ser perguntado se estava mesmo conversando com uma psicóloga para melhorar seu desempenho, o craque único respondeu: “Estou achando ótimo. Aproveitando muito. Acho que vocês também poderiam fazer”.

Sinal evidente de que Neymar melhorou seu astral. E a doutora Regina Brandão terá contribuído. Jornalista admitir publicamente fazer tratamento é piada, pois quem trabalha em jornalismo (eu sou um deles), propaganda e assemelhados – não todo mundo, se considera médico, divã e remédio. A terapeuta acabaria enlouquecida.

Alegam os especialistas em tudo o que existe de vivo e em movimento na humanidade, que a pressão da torcida está atrapalhando os jogadores. Balela. Quem vai a estádio, mil perdões, arena, hoje em dia, é um público educado por forma e pose. É quem tem algum dinheiro e – em tese – formação.

A índole dessa gente é ufanista. É de torcer, achar Fred um centroavante tão bom ou melhor do que Romário, Felipão técnico aberto e nunca rabugento. Adoram o cabelo de um David Luiz ou de um William acima de um drible ou de um gol de bicicleta à Leônidas da Silva.

Aliás, se perguntarem a um mauricinho ou a uma patricinha de rosto pintado quem era Leônidas, responderá que um ilustre jurista ou guerreiro do Paraguai. Nem citará o chocolate Diamante Negro, inspirado pelo atacante que tinha ciúme de Pelé.

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Eles gritam muito mais a canção tediosa de comercial de Danone ou de Fraldas Pompom: “Eu, sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor!” do que palavrões. No máximo, vaiam, como até mortos apupariam a exibição contra os chilenos.

Falta um PQP um VTNC, um FDP, um “juiz- (árbitro)- ladrão!”, que se perderam pelas catacumbas das arquibancadas de cimento e força popular, ocupadas pela massa desdentada e em catarse. Pondo na boca o coração jogado à final da própria vida.

O vocabulário normal e abolido à força no futebol caso vigorasse, provocaria a presença de cardiologistas à beira do campo para tratar de desmaiados jovens sem controle para suportar a “grosseria” no lugar dos elogios para as porcarias que alguns fazem ao tentar o diálogo básico com a bola ou seu layout.

Estranho é tentar transformar em goleadora das salvações a psicóloga, às vésperas de uma decisão em quartas de final, temerária divisa do nosso futebol quando deixou de ser o campeão que foi em 1994 e 2002. Em 1986 e 2006, supersticiosos se deleitem, foram os franceses os astronautas malvados.

Em 1990, o lazarento Sebastião Lazaroni conseguiu antecipar o fracasso em uma fase, Maradona acabando com o Brasil nas oitavas. Dunga, driblado por ele em Turim, 20 anos depois, conduziu sua farândola ao domínio holandês na África do Sul.

A Colômbia do fantástico James Rodríguez, camisa 10 que fabricávamos em campos de barro e em peladas vistas por apaixonados de percepção inata, é o principal, é o perigo. Não adianta chorar nem na hora do hino e muito menos depois. O certo é vencer com a cabeça tranquila sem se preocupar com pachequismos de Galvão Bueno.

Doutora Regina está ajudando. Sua utilidade supera à do precursor, o Doutor Carvalhaes de 1958. Ele considerou Didi da Folha Seca mercenário por desejar uma casinha para morar e Garrincha inapto ao futebol por desenhar uma bola idêntica à cabeça do seu companheiro Quarentinha, do Botafogo, que parecia uma bisnaga.

Carvalhaes terminou a Copa do Mundo aos calmantes, consolado pelos jogadores. Desabafou gritando na volta olímpica do Rasunda. Garrincha e Nilton Santos rindo da reação descontrolada.

Copa do Mundo é de futebol e o Brasil, se tiver que vencer, será na competência. Doutora Regina cumpre o seu papel, mas não estará amanhã de camisa, calção nem chuteiras. Doutora Regina tampouco joga. Não é a praia dela. Praia que chora pelas ondas do mar. Uma boa é ouvir Nervos de Aço, de Lupicínio Rodrigues. Na voz (sossegada), de Paulinho da Viola.

Paulinho no time

Coerente Paulinho voltar ao time brasileiro contra a Colômbia substituindo Luiz Gustavo. Combina com o ideário de Felipão. Marcador substituiu marcador que é substituído por outro, se possível, Victor, o terceiro goleiro.

Fernandinho

Paulinho voltará para a função de segundo volante e Fernandinho recuará. A bola continuará sofrendo, porque o mínimo para se vencer em 90 minutos é alguém hábil no meio-campo. Hernanes inibiria a Colômbia. Paulinho chama o adversário para o campo brasileiro.

Oscar

Jogou bem contra a Croácia apenas. Nem Felipão tem culpa. Oscar é de compor, não é protagonista. Tem técnica razoável, sem talento acima da média.

Fred

Tirou o bigode. Só falta tirar a camisa titular. Hulk na frente.

Vida local

O ABC segue treinando e Júnior Timbó dá seus primeiros toques na bola depois de longa contusão que o levou à mesa de cirurgia. Timbó, em forma, é indispensável. Joga buscando o gol. Ou “verticalmente”, segundo neologistas do absurdo.

Milagre da sombra

Longe de insinuações. Foi só Morais chegar a Natal e Arthur Maia voltou a treinar no América. Sombra faz milagre e tira sandália para que chuteira se apresente. Arthur Maia deve um bocado depois do Estadual.

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