Neurocirurgia melhora qualidade de vida de pacientes

Tratamento experimental ameniza sintomas da doença como tremores, rigidez muscular e movimentos lentos

8-Encontro-de-Anatomia---Uni-RN-WR

Marcelo Lima

Repórter

Um tratamento experimental já tem mudado a realidade de pacientes com a doença de Parkinson ou Mal de Parkinson, que ocorre quando certos neurônios morrem ou perdem a capacidade.

A técnica parece simples: instalar um eletrodo no cérebro do paciente e um gerador (espécie de marca-passo) que emite pequenos estímulos elétricos.

De acordo com a bióloga e membro do grupo de pesquisa responsável pelo tratamento, Raquel Martinez, as pessoas que passaram pela neurocirurgia funcional apresentam melhoras significativas. A pós-doutora está em Natal para participar hoje do 8º Encontro de Anatomia promovido pela Uni-RN.

Os principais sintomas como os tremores, a rigidez muscular e a lentidão nos movimentos foram consideravelmente amenizados. Ainda segundo Martinez, 12 pessoas passaram pela cirurgia até agora. “O paciente fica bem depois do procedimento, mas passa um tempo e começa alteração e é possível regular esse estímulo depois de implantado o gerador”, explicou a bióloga. Para ela, esse é um dos pontos mais favoráveis desse tipo de tratamento.

Outro aspecto curioso da neurocirurgia funcional é a primeira parte. “O interessante da cirurgia é que o paciente está acordado porque a gente precisa saber se funcionou na hora”, disse. Nessa primeira etapa é aberto um buraco na cabeça do paciente para a instalação do eletrodo de registro. Esse eletrodo pode atuar no núcleo subtalâmico ou no núcleo globo-pálido.

Como o paciente de Parkinson apresenta tremores constantes, é usado um estereotáctico. Esse equipamento prende a cabeça do paciente e impossibilita movimentos mesmo que involuntários como é o caso do Parkinson.

No mesmo momento do estímulo, são percebidas as mudanças nos sintomas do paciente. Quando se constata que tudo deu certo parte-se para a segunda fase. Então o paciente é anestesiado e é instalado o gerador de energia e o fio que vai levar os estímulos elétricos até o eletrodo.

De acordo com Raquel Martinez, essa cirurgia não será recomendada para todo tipo de paciente. “No início da doença, ninguém faz a cirurgia porque os medicamentos funcionam bem”, afirmou. Os medicamentos diminuem a morte de novos neurônios de dopamina. E é exatamente a falta de dopamina que mata esses neurônios.

Entretanto, a cirurgia não “ressuscita” os neurônios mortos, muito menos paralisa a evolução da doença. “O que nós sabemos até agora é que quando se estimula esse núcleo, aumenta a dopamina. Então, o núcleo não estava funcionando”, acrescentou a pesquisadora. Mas apesar do tratamento dar certo, ainda há muitas respostas a serem respondidas.

Este projeto de pesquisa foi custeado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em parceria com o Hospital Sírio Libanês. Serão investidos cerca de R$ 4,3 milhões em três anos de pesquisa. Martinez espera que 30 pacientes passem pela mesma cirurgia. Segundo Martinez, uma sonda que é fundamental nesse processo já foi patenteada pelo grupo de pesquisa.

Além dos avanços inegáveis na qualidade de vida do paciente com Parkinson, o destaque dessa pesquisa é a multidisciplinaridade. Estão envolvidos no projeto psicólogos, fisioterapeutas, educadores físicos, enfermeiros, biólogos, bioinformatas, e médicos anestesistas, endocrinologistas, neurocirurgiões, neurologistas e até engenheiros civis. “Esse pessoal [engenharia civil] ajuda a interpretar sinais elétricos e até ler ondas, complementando o trabalho dos outros profissionais”, explicou a participação inusitada.

Fatores que não estão ligados diretamente a perda motora do paciente também são analisados, como depressão, isolamento da sociedade, sono e qualidade de vida em geral. “O sono deles é muito ruim, eles tremem a noite inteira”, destacou a bióloga. Ela também disse que as pessoas com Parkinson perdem peso porque o músculo está se contraindo o tempo todo. A pesquisa também compara a melhora antes e depois desse tipo de intervenção.

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