Neymar sem Gerson – Rubens Lemos

Cai a madrugada e desce a coincidência. Neymar sofre durante o 5 de julho, data finada do futebol brasileiro. O…

Cai a madrugada e desce a coincidência. Neymar sofre durante o 5 de julho, data finada do futebol brasileiro. O dia do pranto geral de minha geração. A derrota para a Itália em 1982, uma sina e o signo, carimbo e certificado dos fracassados de colégio. Bate a raiva ao padecer do que restava de alegria.

Sinto uma profunda falta de Gerson, o Canhotinha de Ouro, sem atropelos nem confusões cronológicas. Faltou a Neymar, mais que um manto, o Gerson protetor. O agasalho de Pelé, careca e da idade do meu pai(morto), não deixaria barato o (meu) choro legítimo e justo, pela prineira vez na Copa do Mundo de 2014.

O colombiano estaria numa UTI de vindita. Depois de driblá-lo, Gerson, maior cérebro meio-campista letrado do ventre Didi, faria tremer engenharias. O homem que sepultou Neymar na Copa do Mundo não sobreviveria à selvagem e dura resposta de um Gerson. Digo a mim mesmo, saudoso de Neymar: gostaria, por um minuto qualquer, de ter sido um Gerson na vida.

Ninguém desde o pincel de Pero Vaz de Caminha, foi mais brasileiro do que Gerson. Que parecia jogar de sandálias e sem a humildade subserviente que contamina nossa maioria. Gerson jogava pelos cadarços e cordões do pensamento. Pelo QI da grama.

Gerson, beatificado em gogós de arquibancada, armado armador até os dentes pelo revólver colt .38 do jornalista e eterno técnico João Saldanha, quebraria o covarde.

Gerson, digo à minha solitária reflexão, na orfandade do moicano abatido, o Brasil deveria te fazer um hino. O hino do homem de porrada e personalidade. O homem que nos faltou.

Bateram em Neymar dentro da casa dele. Rodriguiana hora em que sai do insensível crítico o sentimento guerrilheiro. Juro e juro por mim e por todos os que quero bem. Lamentei a falta de um Gerson puro de origem.

Implorei um Rivelino de canhota neurótica mundial. Atômica. Chorei por Neymar as lágrimas de um Zico tolhido, o Pelé que pude ter. O Zico maior de todos, muito mais no pênalti de 1986. Ninguém fará para mim os desenhos animados de Zico.

O geraldino de cimento e sentimento, senhor de suas limitações e prestações de carnê, tropeçou no colo da amante e marejou. Neymar na maca. Gerson,Zico e o Pelé destroçado de 1966.

De jorrada. De batismo, sacramento, sacerdócio e falecimento. Chorei, chorais. No dia da vitória mais triste do Brasil, Neymar bateu à porta dos céticos. Na dor. De verdade. Neymar foi o mais Gerson da vingança que virá.

David Falcão

Ganhar é bom. Vencer no gol à brasileira é MasterCard. Sem preço. A vitória sobre os colombianos travestidos de Venezuela piorada tem nome de zagueiro e futebol de arquitetura: David Luiz Falcão. Falcão, o Paulo Roberto, craque esquecido em 1978 e abandonado pelos supostos deuses da bola em 1982. São parecidos, o romano gaúcho com vegetação sobre o pescoço.

David Luiz e o seu chute. David Luiz resgatou no charme da batida na bola o elegante Rei de Roma. David Luiz muito maior que o limite da grande área que lhe é imposto. Um jogador que resgatou no átimo a geração bailarina. Chapou a bola. Pergunte ao Dicionário Peladeiro. No seu sarcófago, a resposta.

O Brasil ganhou com gols de zagueiros. Não interessa. O Brasil venceu na técnica um esporte em desconstrução pela ode a esquemas, pranchetas e táticas. O nosso meia-esquerda, Oscar, o teórico criativo, se orgulhou de “roubar bolas”. Nem falou em lançamentos e inspirações. Problema nosso, dilema dos velhos.

O Brasil ganhou com Henrique em campo. Um sujeito de muito prestígio e ocupante da vaga de excluídos do naipe de Dirceu Lopes, Geovani, Andrade e Adílio, Luizinho Pequeno Polegar, Mário Sérgio e azar o meu, teimoso de velhice espiritual e convicção.

Salve David Luiz, o apóstolo batedor. Gladiador e compositor. Completo e simples. Salmo e bálsamo de uma nação adoradora de beques de arena. E mais: retiro o que disse sobre James Rodríguez, o 10 colombiano. Não passa de um Valderrama Escobar sem peruca natural. O sábado amanhecerá radioso de alma e o país tomado de luto por Neymar. Resiste David. Luiz da luz que reacendeu Falcão.

ABC x Vasco

Será na Arena das Dunas. Em análise fria, é melhor que seja. Um jogo para o ABC deslanchar em campo – o Vasco é um time que se foi – e ganhar dinheiro com a presença enorme de cruzmaltinos em Natal. Partida que terá segurança reforçada e indispensável para quem quiser torcer pelo visitante.

Em tempo

O ABC fez um senhor baile em Preto & Branco para a torcida Vip, um sucesso e não deixou de prestigiar a massa, sua essência, abrindo o Frasqueirão para um dia de paz e irmandade entre os humildes. Faz quase uma semana. Pode ser tardia a notícia. O bem é para sempre. O ABC é ABC de mãos e coração irmanados com os simples.

Morais

Aprovado nos exames médicos, é uma expectativa de molecagem irmã da alegria no futebol. Morais pode – se quiser e estiver bem – fazer bem ao América exibindo o mais nobre e nato fundamento: o drible. Pobre do homem de meio-campo que não dribla. Mais pobre quem acha correto banir o drible.

Carimbo

A vitória do América sobre o Botafogo (PB) em João Pessoa, espremida pela Copa do Mundo, representa bom presságio. O Botafogo, bicampeão estadual, é time caro, apoiado por cofres representativos. O América vencendo quer dizer boa briga no time para ficar entre os 11.

Alecrim

Em nome dos seus mortos ilustres e título de epopeia, Estádio Juvenal Lamartine de cidadela, o Alecrim precisa dar satisfação a Natal. No futebol.

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