Ninguém é de ferro – Vicente Serejo

Talvez seja por simpatia. Ou há num canto qualquer da alma uma admiração de verdade, agora que os anos passaram…

Talvez seja por simpatia. Ou há num canto qualquer da alma uma admiração de verdade, agora que os anos passaram e perdi o encantamento por todos os heróis. Mas, de todos eles, o mais humano é o Homem-Aranha. Menos pelos seus poderes elásticos soltando teias e voando sobre os arranha-céus de Nova Iorque. Como lembrou outro dia Isabela Boscov, ele nunca desejou ser diferente. Tanto que até hoje é um menino órfão, pobre e franzino, morando com uma tia, e vivendo seu primeiro amor.

Tenho pena dos super-homens. Do herói, aquele do cinema, e principalmente do super-homem de carne e osso, a quem Deus negou a beleza da consciência diante da fragilidade humana. São tolos os que vivem nas suas armaduras de ferro, empunhando o poder. Da espada ou da cédula, tanto faz. E ninguém é tão frágil, subjugado em sua liberdade mais intrínseca, ferido na dignidade mais íntima. E quantos não comem o pão que o Diabo amassou para manter a duras penas o brilho do verniz social?

É fácil compreender que o Homem-Aranha seja considerado o mais verdadeiro dos heróis. O que parece supérfluo é o que há de mais humano na sua história pessoal. Certamente que Batman vai continuar o herói mais popular no mundo. O único herdeiro da família Waine que resolveu dedicar sua vida a combater o crime. Melancólico, ele não vive em paz com seu próprio passado. Seus pais, ricos, foram mortos brutalmente. Por isso sua riqueza é triste naquela sua Gothan City sombria e sem vida.

Sim, os super-homens são tolos. Não é a idiotice o que mais agrava suas almas ainda que sejam irremediavelmente banais. É o jeito pobremente sabido. Quanto mais convictos de suas verdades, mas frágeis e quanto mais frágeis, mais expostos ao jogo das vaidades do show social. Ora, o super-homem não suspeita, mas é muito pequeno. Tão pequeno, e tão frágil, que é bem menor do que a tal felicidade que imagina conquistar com as moedas do seu adorado tesouro diante de um mundo já em convulsão.

E a tendência, Senhor Redator, é piorar. Ainda não li – espero ser traduzido no Brasil – o livro ‘O Capital no Século XXI’, de Thomas Piketty. Elogiado por uns e duramente criticado por outros, o calhamaço tem a pretensão de ser uma espécie de continuação de Karl Marx, mas agora para anunciar que o fosso da desigualdade, entre ricos e pobres, hoje aumenta numa velocidade muito além de todas as previsões. E que essa distância já alcança hoje um patamar insuperável numa espiral enlouquecida.

Li os artigos de Moisés Naím, a força dos ricos concentrada em 1% da população mundial e o aumento da distância de 237%, entre 2004 e 2011. E li Gilles Lapouge, o genial e rabugento autor do ‘Dicionário Amoroso do Brasil’, a acusar Piketti de ser da tribo gaulesa, ‘lá ao lado do Sena e da Torre Eiffel que jamais compreendeu coisa alguma de economia’. Os poderosos aguardem esse mundo novo em construção. Desigual e terrível. E sem mais o Homem-Aranha, franzino e justo, para nos proteger.

CRISE – I

Passa, sim, e sem muito sofrimento, a crise de relações do PSB com PMDB. Mas vai ficar como uma febre intermitente sem que o partido do prefeito, a essa altura, tenha como chorar o leite já derramado.

MAS – II

O PMDB pelo menos de uma coisa tem certeza: se algum pemedebista botar o pé no território eleitoral do deputado Agnelo Alves pode reacender a crise. E as novas chamas vão arder no fogo incontrolável.

GREVE

Assegura uma fonte da PM: ainda pode ser deflagrada a greve da polícia militar como anunciada, mas a aprovação da nova lei de promoção de praças arrefeceu o ânimo da tropa. Oficiais ainda resmungam.

MAILDE

Muito justa a homenagem da Prefeitura de Natal nomeando Mailde Pinto Galvão a escola que vai ser inaugurada amanhã, no conjunto Santa Catarina, bairro Potengi. A solenidade será realizada às 16h30.

JAZZ

Amanhã, oito da noite, a festa de lançamento no Jobim Bossa e Jazz da segunda edição do livro de Pablo Capistrano – ‘A Grande Pancada – crônicas do tempo do jazz’. Com presença de todas as tribos.

LEGADO

Comércio de Natal deixará de vender R$ 42 milhões durante a copa e o Brasil cerca de R$ 1,5 bilhão. A cada dia fica mais difícil saber qual será o legado da copa. Já o legado da Fifa será de R$ 31 bilhões.

AVISO

Fernando Monteiro lança a versão digital do seu romance ‘Aspades Ets etc’ e anuncia a sua decisão de abandonar o romance. Para Monteiro, que também é excelente poeta, a forma romance está esgotada.

EXPO

Abre dia dois e vai até 14 de junho, na Livraria Saraiva, do Midway Mall, a exposição de fotos da 28º edição do Bloomsday. Cursos, espetáculos e lançamentos de livros acontecendo no Campus da UFRN.

BRINQUEDOS

Câmara Cascudo tem quatro títulos no longo estudo da professora Maria Ephigênia Cáceres Nogueira sobre ‘Jogos, brinquedos e brincadeiras no Brasil Colonial’. Uma edição toda ilustrada da Paulistana.

VAGA

Antes da missa de sétimo dia já tem gente lutando para ocupar a vaga de Pery Lamartine na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. Imortalidade e vaidade juntas, às vezes, apodrecem os bons costumes.

RUDES

Sai em agosto, numa coedição da Universidade Federal da Paraíba e a editora Flor de Sal o novo livro do professor Muirakitan Macedo. É um grande estudo sobre as heranças das velhas famílias do Seridó.

ESTADÃO

Um amigo de alma boa, desses de alma cristã, veio de São Paulo trazendo os exemplares do Estadão de sábado e domingo. Raros nesta terra distante da civilização. O cronista, ainda comovido, agradece.

SAMANAÚ

Duas novidades na nova cachaça Samanaú: agora sai de seus alambiques, no Seridó, em litro e com 38 graus. Nova embalagem tem mais força comercial e sua baixa graduação agrada ao público feminino.

HUMOR

De um pemedebista contando as moedas para enfrentar a guerra do voto nas urnas de outubro: ‘Tem o PMDB do H com a força do compromisso e o PMDB do G que quer tudo só com um aperto de mão’.

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