Ninguém melhor que Pedro Juan Gutierrez traduziu realidade da Ilha

Seus contos, poemas e romances mostram dureza e sensualidade dos cortiços e critica governo sem virulência retórica

Conr1

Conrado Carlos

Editor de Cultura

Leio que o governo cubano divulgou dados sobre a mortalidade infantil em 2013. Segundo os jornais Granma e Juventud Rebelde, eles estão entre os melhores do mundo, com apenas 4,2 crianças mortas para cada mil nascidas vivas. Como comparação, os Estados Unidos tem 7 e o Brasil 12,9 mortes para o mesmo número de nascimentos.

Daí lembrei Pedro Juan Gutiérrez, um de meus escritores prediletos. Em seu clássico “Trilogia Suja de Havana”, reunião de contos sobre o Período Especial (entre 1991 e 1994, quando Cuba perdeu a mesada soviética de cerca de U$10 bilhões/ano no pós-Queda do Muro de Berlim), ele detona o atendimento na rede púbica de saúde local.

Gutiérrez, põe Charles Bukovski no bolso, no que se refere a tiradas cômicas, farras e devoção à escatologia. Ninguém definiu o sexo com tanta precisão: “O sexo não é para gente escrupulosa. O sexo é um intercâmbio de líquidos, de fluídos, saliva, hálito e aromas fortes, urina, sêmen, merda, suor, micróbios, bactérias. Ou não é. Se for apenas ternura e espiritualidade etérea, não passa de uma paródia estéril do que poderia ser”.

Também pintor e poeta, ele retirou do bairro histórico de Centro Havana toda sua coleção de personagens sujos, fedorentos, viciados e sensuais, sempre em meio à pobreza generalizada, quando só restava tomar rum, fumar charuto ou maconha de Baracoa e transar muito, de preferência com negras e mulatas “magras, peitudas e cheias de fibra”.

Tive a experiência ‘litero-existencial’ de conhecer Havana em 2009 e vi o quanto de realidade existe em suas descrições da região; as fachadas carcomidas, a prostituição endêmica, a malandragem latente, a musicalidade atmosférica, tudo bate com a narrativa compulsiva que chocou norte-americanos e europeus.

Uma das historietas em que o caos em um hospital é retratado é “Ratos de Esgoto”. Pedro Juan trabalhava desentupindo encanamentos de gás (Trilogia é uma autobiografia com toques generosos de ficção) em porões com “tábuas podres, poças de água pestilenta e fedor de m…”. Certo dia, ele foi mordido por um rato em várias partes do corpo, e precisou de atendimento médico.

Restou ir a uma policlínica para tomar vacina antirrábica, onde foi atendido por uma enfermeira mal humorada com “um corpo lindo, magra, jovem, boa bunda, mas a cara era um desastre: rosto de homem, com a pele marcada de varíola, nariz de moringa, oleoso, espinhas cheias de pus, o cabelo ralo, sujo, embaraçado”.

Não preciso dizer que ele devorou a sujeita. Mas tomou um susto ao saber que a mulher bolinava quatro velhos do prédio em que morava, para garantir o sustento – não que ele achasse isso o fim do mundo, porque, com frequência, estimulava companheiras a se prostituir na orla. Tudo em nome dos vícios.

“Cara de crime” foi como passou a chamar a enfermeira. O desfecho só lendo para saber. Acho “Trilogia…” um livro obrigatório em qualquer biblioteca pessoal, pois misturado àquela sacanagem toda tem criticas virulentas ao regime socialista que impera desde 1959. E doses cavalares de filosofia de rua – alguns contos são bem tristes.

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