Nós na Bola de Prata – Por Rubens Lemos

Na fotografia, bossa e roupas extravagantes definem o estilo de uns, a elegância o de outros e a simplicidade veste…

Na fotografia, bossa e roupas extravagantes definem o estilo de uns, a elegância o de outros e a simplicidade veste a maioria dos premiados pela Bola de Prata da Revista Placar em 1972, a seleção do Campeonato Brasileiro, vencido pela Segunda Academia do Palmeiras.

O lateral-esquerdo Marinho Chagas então aos 20 anos e o craque Alberi se reencontravam. Marinho no Botafogo (RJ), Alberi, cabeleira e porte ébano, em fase antológica pelo alvinegro de Natal. Alberi venceu, dentre outros, os tricampeões Jairzinho (Botafogo), Tostão, à época no Vasco e Dirceu Lopes, do Cruzeiro. Ganhou a Bola de Prata que é o troféu de fato acompanhando o Rei dos campos nativos.

O destino juntou Alberi e Marinho Chagas em 1970. O Negão já era o mito provinciano restrito ao palco acanhado e lotado de gente e calor humano do Estádio Juvenal Lamartine. Alberi era o requinte superior num futebol profissional documental e amador na síntese das arquibancadas de madeira do JL e do modelo de relacionamento entre cartolas e jogadores.

Alberi chegou a ter um contrato renovado por um pequeno reajuste salarial e um “bônus” de invejar os pernas de pau de luxo superpovoando europas e agredindo a bola. Alberi recebeu uma vitrola e uma coleção de discos do supra-sumo da cafonice, sinônimo de brega naquele período: Waldick Soriano, amansador de cornos inconformados nos cabarés da Ribeira.

Para sacanear o Negão, eliminaram o dinheiro da história e, por maldade típica de quem gosta de tripudiar os de casa, deixaram apenas a vitrola e os LPs como resumo da renovação. Alberi nasceu em Recife, começou no Santa Cruz, mas foi rebatizado pelo ventre da Frasqueira enlouquecida.

O rapaz loiro do Riachuelo, clube da Marinha, foi para o ABC se encontrar com Alberi no final de 1969, aos 17 anos e, por ter jogado o campeonato local, entrou no time no ano seguinte, com idade cumprir o serviço militar obrigatório.

Fico a imaginar Marinho Chagas, que sempre teve por regra a doce anarquia, dentro da caserna. Bateria regras de prisão disciplinar ou simplesmente seria expulso.

Como que por encanto, Alberi e Marinho Chagas juntos, o ABC venceu o campeonato de 1970, dando início à epopeia do tetracampeonato, metade no JL, metade no gigantesco, belo e libertador (do futebol), Estádio de Lagoa Nova, batizado primeiro de Castelo Branco, primeiro dos ditadores e depois de João Machado, jornalista, cartola e mito popular no rádio, homem do futebol e das massas de arquibancada, homenagem bem mais apropriada.

No Brasileiro de 1972, Marinho Chagas vestia a camisa do Botafogo aos 20 anos, depois de um estágio pelo Náutico (PE), onde sua passagem meteórica foi suficiente para colocá-lo como principal de jogador de sua posição em todos os tempos no clube e na hipotética seleção pernambucana, com nomes do nível de Zequinha, reserva de Zito, bicampeão do mundo, Givanildo e Vavá, Leão das Copas de 1958/62.

Alberi viu chegar, desconfiado, um carregamento de jogadores cariocas trazidos pelo técnico Célio de Souza para a primeira participação de um clube de Natal no Campeonato Brasileiro da Primeira Divisão.

Vieram homens que se tornaram ídolos, Danilo Menezes e Maranhão, bons jogadores, Nilson Andrade e Libânio e outros caídos no esquecimento: o goleiro Tião, o atacante Everaldo, os meias Marcílio e Orlando. Alberi, no tapete apropriado, assumiu cetro e sua coroa cintilante nos pés. Fez um campeonato espetacular e entrou para a história.

>>>>>>

Em sua mais recente, a Placar (que é bem mais legível quando retrata o passado), publica a fotografia dos onze escolhidos da Bola de Prata, seis dos quais, participantes de Copas do Mundo. Ademir da Guia, tímido e sem vaidade, dá uma aula de humildade soberana. A foto dimensiona a grandeza inalcançável de Alberi na história do futebol potiguar. E de Marinho Chagas, dois anos depois, melhor, sim senhor, lateral-esquerdo do Mundial de 1974.

Em pé, da esquerda para a direita: Aranha (Remo), Marinho Chagas (Botafogo), Figueroa (Internacional/RS), Leão (Palmeiras), Beto Bacamarte (Grêmio/RS) e Piazza (Cruzeiro/MG). Agachados: Osni (Vitória/BA), Alberi (ABC), Zé Roberto (Coritiba/PR), Ademir da Guia (Palmeiras) e Paulo Cézar Caju (Flamengo).

Leão, Piazza, Marinho Chagas, Ademir da Guia e Paulo Cézar disputaram Copas pelo Brasil e Figueroa pelo Chile. Zé Roberto andou pelo ABC em 1976, sem jogar uma só partida, malandragem pura. Antes dele houve outro Zé Roberto, revelado pelo Palmeiras e consagrado no Londrina (PR). Jogava tanto que Alberi chegou a ser deslocado para o ataque.

Marinho Chagas, Alberi, o filho adotivo, e mais tarde Souza, fruto da poesia do Assu reluzente do América para o Corinthians, completam o tripé monárquico do futebol da esquina oceânica.

Fabinho e as vaias

Tudo o que o polivalente Fabinho tem a fazer para responder às vaias sofridas no empate contra o Atlético (GO) é arrebentar no jogo do América desta noite contra o Náutico em Recife pela Copa do Brasil.

Imediatista

Fabinho falhou num gol, mas é o melhor tático e a imagem de versatilidade do América. Seu crédito é elástico. Construiu muitas vitórias e impediu outras tantas derrotas de seu clube. Fabinho, experiente, sabe que não adianta reclamar. O torcedor é passional e imediatista. É filho do agora.

ABC em Goiânia

Caso o ABC mantenha seu padrão de jogo, acuado e esperando o adversário, o Atlético (GO) irá agradecer amanhã em Goiânia pela Copa do Brasil. Empate sem gols classifica o dono da casa. O ABC precisa de vitória simples ou empate por dois gols ou mais. Não é possível que insista em jogar atrás da linha intermediária, como uma bastilha sem valentia.

Octávio

Esquecido pelo técnico Zé Teodoro, o meia Octávio não deve ser punido apenas porque veio na gestão de Roberto Fernandes. Pela bola apresentada por Xuxa e Rogerinho no último jogo, Octávio tem vaga no time alvinegro.

Branco

Aprovou o gramado do Frasqueirão. O lateral tetracampeão pelo Brasil foi um jogador de rara personalidade em Copa do Mundo. Aquela bomba contra a Holanda em 1994, desviando da bunda de Romário, foi decisiva para o fim do tabu de 24 anos.

O último lateral

Branco foi o último grande lateral-esquerdo do Brasil. Roberto Carlos pode até ter sido o mais famoso. Contra a França, ele se superava nas bobagens. Ajeitando o meião, chutando bandeirinhas, Roberto Carlos era insuperável.

Compartilhar:
    Publicidade