A nota que sai de meus dedos ainda firmes, antes do primeiro gole

O leitor terá uma brecha no final de semana para ler um jornal que persiste em sua missão de fustigar inquietude e redirecionar olhares doutrinados pela aparelhagem oficial

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Conrado Carlos

Editor de Cultura

O Carnaval 2014 terá duas etapas. Até a próxima quarta-feira, uma primeira, menor, será cumprida nas praias e ruas do Brasil. Inebriados pelo clima libertário e inconsequente que baixa durante quatro ou cinco dias (para os baianos, a brincadeira só para quando o sujeito é dado como perda total), foliões mostram que pode existir povo mais próspero, habilidoso e espirituoso que o nosso, mas nenhum é tão fiel à esbórnia quanto o brasileiro. Se a natureza não gosta de transições abruptas, no lugar onde ela resolveu se amostrar em exuberância, sua maior criação, o bicho-homem, é capaz de anestesiar qualquer mazela (coletiva ou individual) para levantar os dois indicadores, com destilados e fermentados a chutar o traseiro dos neurônios preguiçosos.

A segunda etapa, essa com 30 dias de duração, acontecerá na Copa do Mundo. Do mesmo jeito que dívidas, inimizades, doenças na família e o caos social vivido em qualquer cidade com mais 200 mil habitantes será esquecido ou, pelo menos, varrido para baixo do tapete, junto com as Cinzas da quarta-feira que abre a Quaresma, na hora em que o apito ecoar na Arena Corinthians para Brasil x Croácia, atrasos e desvios de verba das obras e a criminosa falta de prioridade dos governos estaduais e Federal para com o básico passarão longe de nossas preocupações. Optaremos por um silêncio resignado, como gente boa que somos. Dentro de nosso complexo de vira-lata, guardamos semelhança com aquele cão estropiado e pidão à espera de um mísero osso com lascas de nervura.

Talvez eu seja um chato que beira os 40 anos e tem que puxar o gás, como diz os jiujiteiros das antigas, para aguentar dois dias seguidos de bebedeira. Pode ser. Sou derrotado por uma espécie de cansaço metafísico só de pensar no dia seguinte – o que não me impede de bancar o valente, em certas ocasiões, e entornar umas cervas com os amigos. Mas a situação angustiante vivida no cotidiano tem minado forças, abafado sorrisos, estimulado uma revolta pessoal contra a bandalheira em curso, com ares ditatoriais, mafiosos e impregnados de ideologia barata, que sobra pouco espaço para otimismo e alegria justamente com um de nossos piores defeitos: a falta de indignação com a violência física e moral que vem de cima.

Guias da folia sobram em sites e demais impressos no mercado (na edição de ontem, publicamos o nosso). Você sabe muito bem onde a farra está armada. Saia de casa após o almoço que um tarol lhe aguarda nos tradicionais pontos do Carnaval potiguar (seja na capital ou no Interior). Mas esta nota que sai de meus dedos ainda firmes, antes do primeiro gole, é para o leitor que terá uma brecha na agenda do final de semana para ler um jornal que persiste em sua missão de fustigar inquietude e redirecionar olhares doutrinados pela aparelhagem oficial. Com erros e acertos, estamos aqui para lembrar que nem tudo pode ser deixado de lado – principalmente em nome de uma felicidade fictícia. Ciente de estragar o prazer de uma parcela dos assinantes, penso que reproduzo a opinião de outros tantos.

Pois, se existe bandeira que um veículo de comunicação deve defender é a de ser um poder questionador – em vez de mero boletim informativo. E nos eventos grandiosos, estes que fomentam comoção generalizada, é que o berro deve ser impresso nas manchetes – seria o conselho do mestre Nelson Rodrigues. Sem expediente para cumprir, com os filhos em casa e as contas podendo ser pagas somente no dia útil porvir, empunhar esta folha deitado em uma rede ou sentado na poltrona ganha relevo como proposta de uma conversa informal. Minha intenção é simplesmente dizer para você que tome todas, cante, dance pra valer. Se for o caso, tire o pé do chão e dê abaixadinhas constrangedoras, que confirmam nossa descendência simiesca. Só não esqueça que a coisa toda se desmanchará no ar, e bem ligeirinho.

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