Notícia de ontem

Vivido, Senhor Redator, e naquela idade já passada em anos, não é este o carnaval que vi e vivi nas…

Vivido, Senhor Redator, e naquela idade já passada em anos, não é este o carnaval que vi e vivi nas ruas da minha infância, e depois na Natal do início dos anos sessenta. Sou do tempo dos blocos de bairros, feiosos e felizes, que desfilavam mesmo distantes dos grupos de elite, assim chamados porque eram propriedades dos filhos das famílias ricas. Das charangas que se arrastavam pelos becos, batendo lata, dos papangus solitários e tristes vigiando a vida pelos buracos de suas máscaras improvisadas.

Nada tinha com o carnaval-espetáculo de hoje, desses shows que, se reúnem multidões por toda parte, nem por isso cumprem os traços antropológicos de uma festa de excessos. Da esbórnia a ferir o rosto bem-comportado das boas famílias que passavam o ano inteiro limpando as vidraças dos bons-costumes para vê-las quebradas com pedradas do humor debochado, frases irônicas, chistes. E tudo por uma razão: o carnaval era um pouco das festas do entrudo e era preciso vivê-lo assim, além os limites.

Nem quero lembrar de Saturno e as saturnálias romanas, talvez as raízes mais antigas dos festins que vieram séculos depois, com o entrudo trazido pelos portugueses. E tudo, Senhor Redator, para permitir o extravasamento do caricato e do burlesco, até que chegassem as cinzas, na quarta-feira, cobrindo nossas almas pesadas do fausto de todos os pecados. E vinha a Quaresma, de arrependimentos e remorsos, da morte à ressurreição de Cristo, com seus santos envergonhados, todos cobertos de roxo.

Nem vale à pena, a essa altura, e agora que vivemos a falsa alegria do estado-espetáculo, discutir aquelas lições de um saber de teorias que animava as discussões acadêmicas em torno da festa, do lazer e do entretenimento. Adiantaria lembrar a teoria do lazer de Norbert Elias que nos anos universitários tanto empolgavam a nós todos, estudantes-aprendizes da sociologia da comunicação? Suspeitávamos, e com certa razão, que o lazer pressupunha a participação ativa de todos e não apenas sua contemplação.

Ora, se o carnaval virou um show e a esse modelo se somaram até aqueles de boa consciência crítica, o que fazer? Não é só nas melhores e sólidas antropologias culturais e urbanas – a francesa, a inglesa, a norte-americana – que se sabe e se estuda o poder da festas, seu efeito coletivo sobre a massa que enche as praças de shows e espetáculos patrocinados pelo poder público. É uma forma subliminar de culto à personalidade, em nome da tradição e da cultura, catarse para as multidões fatigadas da vida.

Mais do que o direito de não fazer nada, aquele direito à preguiça que Paul Lafargue ensinou ao mundo quando o trabalho era uma escravidão, e de forma diluída foi cantado até aqui pelo poeta Juvenal Antunes, o lazer há de ser também uma festa do povo e não do poder. Por isso ainda resta o carnaval da Redinha com seu povo simples, caminhando e cantando velhas marchinhas nas ruas e becos sem nome de sua geografia humana. Mesmo que este folião já não tenha a alegria e juventude de outros carnavais.

 

MARKETING

A concorrência do governo encerra agora em março com R$ 25 milhões para o governo Rosalba Ciarlini fazer propaganda. A concorrência da Prefeitura de Natal deve ser lançada até no máximo início de abril.

RETRATO

Com um ‘Quanto riso, oh! Quanta alegria’, a Veja revelou: os dois novos votos do STF já eram muito bem conhecidos do Palácio do Planalto e antes da nomeação. A corte, que era suprema, caiu na lisonja.

POP

O papa é pop, mostra a consagradora matéria de capa com Francisco na edição de fevereiro da revista Rolling Stones – ‘A Revolução do Papa’ – de Mark Binelli. Sua bela humildade está mudando o mundo.

‘ARNESTO’

Quinta-feira, no discreto obituário da Folha de S. Paulo, a notícia da morte de ‘Arnesto’, aos 100 anos, personagem de Adoniran Barbosa. Aquele ‘Arnesto’ que morava no Brás, e que um dia lhe convidou…

GOSTO

O cozinheiro Lupicínio Rodrigues e suas receitas preferidas na edição da revista Gosto, já nas bancas. O boêmio gaúcho que nasceu há cem anos e gostava de uma boa galinha de batuque com farofa de miúdos.

ACREDITE – I

O governo Rosalba Ciarlini parece que esqueceu: há cerca de um ano suspendeu o direito do servidor público estadual de pedir licença-prêmio. Como se vivêssemos – não vivemos? – em regime de exceção.

EFEITO – II

Nem por isso os salários estão dia, o orçamento dentro dos melhores limites e os serviços essenciais postos à disposição dos governados com qualidade. O problema é de gestão e já dura mais de três anos.

VISITA

O PT recebeu como um aviso a visita da ex-governadora Wilma de Faria e do prefeito Carlos Eduardo à deputada Fátima Bezerra, na Redinha. De um velho petista que viu toda a cena: ‘Foi a visita da saúde’.

ESTILO

Já vai em mais de R$ 20 milhões o acumulado dos repasses do Governo do Estado para as entidades beneficentes do programa Cidadão Nota 10. A ordem absoluta para a tributação partiu do Estado Maior.

GLÓRIA – I

‘Uma abordagem lítero-musical de suas canções como referencial pedagógico e interpretativo à Música de Câmera Brasileira’, é a tese do professor John Kennedy de Castro da Universidade Federal de Minas.

ELENCO – II

Castro cursa seu doutorado na federal de Minas, mas é professor da Universidade Federal do Paraná, em Maringá, e já estudou Oswaldo de Souza na dissertação de mestrado. Agora estudará dezesseis canções.

MESTRE – III

No mestrado também estudou Oswaldo: ‘Paisagismo musical do Nordeste Brasileiro em quatro canções de Oswaldo de Souza – Uma abordagem analítico-interpretativa’. Na Universidade de São Paulo, 2010.

MAS – IV

Aqui, nesta Aldeia de Poti, onde florescem e encantam os mais feéricos forasteiros, a obra de Oswaldo de Souza continua esquecida até na Academia Norte-Rio-Grande de Letras da qual ele um dia fez parte.

PERDA – V

E, para completar, ficamos mais pobres neste carnaval com a perda de Tonheca Dantas Filho, maestro, compositor e arranjador, filho do grande Tonheca Dantas. Para a tristeza do professor Cláudio Galvão.

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