Notícias da guerra perdida

Rotina cansa e desinteressa. É repetitiva e o sempre igual desvia o canal. Adormece. O macabro virou corriqueiro e a…

Rotina cansa e desinteressa. É repetitiva e o sempre igual desvia o canal. Adormece. O macabro virou corriqueiro e a agenda da violência, voraz, cuida de jogar na pasmaceira o crime de ontem quando estoura a tragédia seguinte. A reação popular é subproduto da hipocrisia parido da conjunção com o individualismo. “Ainda bem que não foi comigo e se não foi comigo, graças a Deus.”

Tenho um amigo que costuma perguntar quando alguém lhe fala elogiando um filme: “É filme que a gente tem de entender ou é filme para se divertir? Se for pra entender, nem me traga”. E vai buscar seu faroeste ou algum mentirol do ator/policial/mestre de artes marciais/ninja Steven Seagal na banca de camelô mais próxima. Há uma simplória lógica: se é para ver em filme o que é normal no cotidiano, é buscar a ficção legitimada.

Demorei para entender Blade Runner, o Caçador de Andróides, o bonitão Harrison Ford bem jovem vivendo em uma Los Angeles futurista onde robôs tomavam o lugar das pessoas.

Os replicantes, como são chamados na produção adorada pelos boçais da linha cult estimulada pelo baseado, infernizam, destroem a cidade, cometem atrocidades e a polícia é dizimada até se concentrar num grupo resistente de caçadores, liderado pelo galã elegante e duradouro em 2014. Blade Runner é de 1982.

A ousadia do crime avança com tanta intensidade que Blade Runner pode ser refilmado sem atores, com personagens e cenas reais, balas de verdade, corpos caindo e agonizando em poças de sangue para festim diabólico de qualquer diretor maluco de cinema. Elenco e cenário não são problema. Enredo é que dá trabalho de fazer diferente.

Os jovens blogueiros descobriram o filão sangrento e, aos 200 fôlegos de qualquer iniciante, inundam computadores de corpos e títulos quase sempre iguais garantindo audiência farta e lucro líquido feito o acre do sangue escorrido.

É de desgraça que a média nossa gosta mais, observe o horário – se é nobre eu não sei, sei que é verdadeiro e o jornalismo é pra ser cru -, dos noticiosos da hora do almoço. Do filé dos boletins de ocorrência.

Criança, sempre me acostumei com bandido respeitando a polícia. Andávamos sem uma moeda no bolso, percorrendo a cidade, observando seu ritmo lento, entrando em seus cemitérios com medo e a adrenalina do desafio, olhando a energia dos feirantes, a lábia dos locutores de lojas de quinta categoria puxando fregueses rabugentos pelo braço.

Parávamos nos dois ou três prédios do centro da cidade e debatíamos, compenetrados, como eram geniais os sujeitos responsáveis por erguer gigantes daquela altura.

Em comum, a cada canto onde íamos em bando de algazarra, pobres, felizes e armados pelo impulso da aventura, encontrarmos duplas de policiais militares.

Era o sistema do PPO – Patrulhamento Policial Ostensivo. Eles usavam capacetes presos ao queixo por linguetas plásticas, coturnos enormes, revólveres com capacidade para seis munições. Que mofavam no tambor da arma. Tiroteio era provável quanto derrota de ABC ou América para o Riachuelo. Bandido temia farda, o delegado Maurílio Pinto estava no auge e nem havia tantos malandros assim. Nós chamávamos a dupla PM de Cosme e Damião, os santos gêmeos. Nossos protetores.

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Fui mais feliz que os meninos urbanos de hoje. Que os pais de hoje (sou um deles, angustiado), que os policiais desafiados e atacados sistematicamente, transformados em estatística de esquecimento.

Um: pelo cinismo das leis hipócritas feitas por teóricos e fanáticos militantes do falso humanismo que separa e segrega: todos os direitos aos assassinos, latrocidas, estupradores, assaltantes de banco, ladrões de carros e cargas.

Na retórica e na prática ultrajantes dos seus gurus, eles são vítimas de um contexto social de desigualdades. O policial representa o vilão, o braço opressor do poder. Além de desrespeito à memória dos que morrem lutando, insulto à inteligência: feche os olhos e pense no padrão do policial, especialmente o militar. Ele mora mal, ganha mal, é mal armado, sem perspectivas definidas de ascensão funcional e execrado primeiro para perguntar depois.

Policiais do Bope – tropa que não deixam sair às ruas por saber da qualidade e da implacável força sobre os criminosos – carregam o caixão do soldado Frederico Freire, 32 anos, meu amigo, sepultado em Tibau (RN).

Frederico, torcedor fiel do América, estava em sua casa em Nova Parnamirim, Grande Natal, invadida por assaltantes sexta-feira à noite, diante e da mulher e da filha, foi assassinado a tiros.

Para os falaciosos, certamente não houve execução ou covardia. Direito humano, zero para Frederico. Um dos seus supostos matadores, encontrado no fim de semana, poderá ser, agora, sustentado pelo nosso dinheiro. Dos impostos extorsivos que pagamos. A guerra está perdida. Menos para os bandidos assumidos e seus tutores oportunistas. Nem Harrison Ford, implacável Dick Deckard, o Caçador de Andróides, nos salvaria.

 

A estocada

O gol de Wálber no finalzinho penetrou como cutilada no ABC. Uma triangulação e o biquinho, aos 48 minutos. O América venceu e deve ganhar o Campeonato porque o Globo desceu a ladeira.

O jogo

O time do América provou que é melhor, mesmo num jogo nivelado por baixo até o gol de Wálber.

Substituição venenosa

Ao sacar o meia Octávio para por o atacante Alvinho, o técnico do ABC, Zé Teodoro, cometeu a pior substituição da história brasileira desde que o presidente Juscelino Kubitscheck de Oliveira passou a faixa a Jânio Quadros em 1961. Um desastre.

Lúcio Curió

Quando alguém descobrir o que Lúcio Curió veio fazer com a camisa do ABC, favor avisar. Ele está superando todos os limites do desrespeito ao torcedor.

Vasco

Se existir campeonato só para vice, o Vasco chega em terceiro.

José Wilker

Assim como Roque Santeiro, partiu, não morreu.

Jogão

Pelo Campeonato Brasileiro de 1978, ABC e Sport empataram em 2×2 no Castelão (Machadão), com público de 9.853 pagantes. Danilo Menezes e Noé Silva marcaram para o alvinegro. Edson e Mauro Madureira fizeram os gols do Sport.

Times

ABC: Hélio Show; Orlando, Pradera, Cláudio Oliveira e França; Baltasar, Danilo Menezes e Maranhão Barbudo (Zezinho Pelé); Noé Silva, Jorge Costa e Noé Macunaíma (Santa Cruz). Sport: Ivã; Cardoso, Assis, Djalma e Nivaldo, Biro-Biro-Edson e Mauro Madureira; Hamilton Rocha, Miltão (Assis Paraíba) e Pita (Darci).

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