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Nova safra de prosadores potiguares

Data: 22 janeiro 2013 - Hora: 17:29 - Por: Dani Pacheco

As obras chegarão ao público, ao mesmo tempo, em um só evento, dando a oportunidade dos leitores de cada autor poderem conhecer o trabalho do outro. Pensando assim, que a Editora Jovens Escribas resolveu lançar nesta quinta-feira, dia 24, a partir das 18h, no Solar Bela Vista (Ribeira, em frente à Capitania das Artes) uma nova safra de prosadores potiguares.

Serão lançados os livros “O Homem de Firme Destino – Uma jornada grotesca rumo ao sul” (romance de Márcio Nazianzeno e Gabriel Novaes), “Corpúsculo num plano” (contos de Daniel Liberalino) e relançado “Maldito Sertão” (contos de Márcio Benjamin).

Em 2004, o escritor Patrício Jr, um dos criadores do coletivo que posteriormente se tornou a Editora Jovens Escribas, resolveu abrir uma lista de discussão por e-mail (uma espécie de rede social 1.0) em que pudessem trocar ideias escritores e leitores que quisessem compartilhar textos e opiniões. Desta lista, que funcionou por mais de 4 anos, participaram muitos jovens autores. Entre eles, alguns nomes despontaram, como Márcio Benjamin, Ruy Rocha, Lucílio Barbosa, Márcio Nazianzeno e Daniel Liberalino. Em 2012, graças à Lei de Incentivo Djalma Maranhão e o patrocínio das agências de publicidade Art&C, Bora e Comitê Criativo, 5 autores surgidos nesta lista de discussão e mais o icônico e multifacetado artista Carito Cavalcanti.

Para a editora, especialmente para os 3 criadores do selo (Carlos Fialho, Daniel Minchoni e Patrício Jr.) é um enorme prazer fazer chegar ao público estes novos talentos que se revelaram a partir de uma iniciativa simples em prol de uma coletividade de escritores jovens, como foi a ideia da lista de discussão.

Além da recepção dos 4 autores que receberão os leitores e amigos para bater papo, tomar uma bebida e assinar seus livros, a noite contará ainda com o show de Arthur, vocalista dos Bonnies, que tocará as músicas do seu novo trabalho solo.

Márcio Nazianzeno, autor do livro “O Homem de Firme Destino” – um romance que mistura ficção e humor concedeu entrevista para O JORNAL DE HOJE e falou um pouco sobre a sua vida, a irreverência do seu texto, a obra, entre outras coisas. Vale à pena, conferir!

 

O JORNAL DE HOJE – Quando começou a escrever?
Márcio Nazianzeno – Escrevo quando dá, já faz tempo. O meu avô paterno era um homem simples que escrevia muito e muito bem. Eu era muito criança quando o li pela primeira vez. Ele mostrou um papelzinho como se fosse a coisa mais valiosa desse mundo. Ali, menino, eu percebi que o meu avô era mais do que um velho cheirando a cigarro, e passei a admirá-lo, a partir dali. Ele morreu sem nunca ter editado um livro dele. Antigamente era mais difícil, essas coisas.

O JORNAL DE HOJE – Lia muito na infância? Quem te incentivou a ler e a escrever?
Márcio Nazianzeno – Criança tem mais imaginação e a infância é a melhor época para ler. O que incentiva a leitura é o prazer de ler, mas criaram uma relação esquizofrênica com a leitura que tira das pessoas a vontade de abrir um livro. Ninguém é obrigado a andar de bicicleta, a amar, a ver um filme a ou acessar a internet… essas coisas são legais de fazer, logo se faz naturalmente. O incentivo dos meus pais foi me deixar livre e não me obrigar a nada, no máximo leram histórias quando eu ainda não podia fazer isso sozinho. Quando criança, todo mundo gosta de ouvir estórias. Então vem a escola, que ensina a ler mas tira o gosto pela leitura. Eu surfo, é uma atividade nova e que gosto, mas eu detestaria se isso fosse obrigatório. Todo mundo tem ser livre para ler, e para não ler se não gostar do texto.

O JORNAL DE HOJE – Como você traduz a sua paixão pela literatura?
Márcio Nazianzeno – Histórias de mesa de bar, reportagens, cinema, música e qualquer coisa com uma narrativa que tira você do estado vegetativo é literatura. Todo mundo consome literatura e gosta disso, acontece que é feito por meios que nem sempre são um livro. Kurt Vonnegut dizia que, se pudesse, ao invés de livros ele escreveria conteúdo para a televisão, porque o audiovisual é mais acessível. Eu também faria literatura para outro meio, se pudesse. No fim das contas, o livro e a escrita são veículos de algo maior e que pode ser dito de inúmeras formas.

O JORNAL DE HOJE – O que lhe direcionou a escrever este livro de humor?
Márcio Nazianzeno – “O Homem de Firme Destino” foi escrito em poucos dias, no Recife, em 2006. Eu tinha me mudado a trabalho e ainda não tinha amigos na cidade. Então, quando queria me distrair, eu abria o laptop e escrevia. Se eu tivesse vida social naquela época, esse livro não existiria.

O JORNAL DE HOJE – Como foi a concepção desse livro? O que você quer falar, como e para quem quer falar?
Márcio Nazianzeno – Eu tinha pensado num continho sobre um cara que numa ereção decidiu seguir para onde o pênis apontasse, como se fosse um chamado místico ou coisa parecida. É uma premissa meio estranha, mas, o conteúdo do livro, pelo que lembro, é um tanto mais esquisito. Tentei começar algumas vezes e o texto não funcionava, mas quando achei o tom certo ele começou a fluir, nessa linha meio caricata dos romances de cavalaria. Incluí um narrador autoconsciente do texto e isso permitiu ideias novas de metalinguagem. Escrevi tudo em poucos dias e guardei. Depois de seis anos, Fialho me chamou para publicar um livro e entreguei a ele esses escritos. Com as ilustrações de Gabriel, o livro ganhou em conceito e as gravuras viraram parte indissociável do texto. O livro é uma piada sobre temas maiores, como liberdade e obstinação… é um livro para doidos, eu acho.

O JORNAL DE HOJE – Qual o melhor momento para escrever? E o cenário e ambiente, conta muito?
Márcio Nazianzeno – Sou acostumando a escrever publicidade em agências de propaganda, que em geral são tumultuadas e sem qualquer privacidade. Escrevo em qualquer lugar, mas tem que ser no computador porque a mão não dá.

O JORNAL DE HOJE – O que te inspira a escrever suas histórias?
Márcio Nazianzeno – Hoje eu gosto de escrever fábulas onde afirmo coisas que julgo importantes, e isso é algo que me interessa, hoje. Mas, no caso do “Homem de Firme Destino”, não é absolutamente nada disso. Ele foi escrito já faz um tempo e acho que a motivação foi mais o álcool, mesmo.

O JORNAL DE HOJE – Do que sente falta no mundo da literatura?
Márcio Nazianzeno – Faltam leitores em toda parte, mas por aqui é mais complicado ainda. Natal tem o pior índice de educação do Brasil. O Brasil, por sua vez, tem um dos piores índices de educação do mundo. Logo, Natal tem uma das piores educações do mundo. Isso é um fato e é muito sério. Outro dia, li que Fábio Faria, João Maia e Sandra Rosado votaram contra o uso do lucro do petróleo para a educação. Foi um tiro na pata.

O JORNAL DE HOJE – Finalmente, o que pode ser dito deste novo trabalho?
Márcio Nazianzeno – Custa só R$ 20,00 no dia do lançamento, mas vai custar R$ 25,00 nas livrarias.

O JORNAL DE HOJE – Sua literatura recebe influência direta de algum autor?
Márcio Nazianzeno – Não tento parecer nada. Eu escrevo o meu texto.

O JORNAL DE HOJE – Como você enxerga o mercado literário para produções independentes e novos autores?
Márcio Nazianzeno – Com as leis de incentivo, editoras independentes e novos autores já conseguem viabilizar seus projetos. Uma coisa que ainda não me desce é ver dinheiro público sendo direcionado para projetos que, no fim das contas, são avaliados por empresas. Em todo caso, é melhor ver recursos virando livros do que Land Rovers.

O JORNAL DE HOJE – Quais os planos futuros com a literatura?
Márcio Nazianzeno – Ler “Corpúsculo num plano”, de Daniel Liberalino. Tive que parar o livro para falar com vocês.

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