“Nu, de Botas”, mostra por que Antônio Prata é o melhor cronista de sua geração

As tiradas sarcásticas e observações do cotidiano parecem sair da boca de uma criança inteligente que narra suas desventuras para a mãe

Colunista da Folha de São Paulo conta histórias engraçadíssimas de sua infância na obra. Foto: Ilustração
Colunista da Folha de São Paulo conta histórias engraçadíssimas de sua infância na obra. Foto: Ilustração

Conrado Carlos

Editor de Cultura

 

Dos quatro aos doze anos, morei na rua Ary Parreiras, no Alecrim, em uma das casas da vila naval. Antes disso, foram seis meses na então longínqua Ponta Negra e o restante em Niterói, no Rio de Janeiro, período sobre o qual tenho poucas lembranças. Ali no bairro mais populoso de Natal, o arranjo urbano determinava uma espécie de apartheid oficioso. Da entrada da Base até o Cemitério, um trecho considerável do lado esquerdo era tomado por residências de oficiais da Marinha e no direito, por civis. Nós dividíamos times na hora da pelada, contagens de um a dez no esconde-esconde, mas, vez ou outra, a ‘divisão de classes’ aparecia. Bastava estourar um desentendimento, para surgir a frase: “Só porque seu pai é da Marinha”. Começo dos anos 80, e o canto do cisne dos militares devia gerar muito desabafo de adultos, em residências alheias. Ouvir aquilo me irritava muito.

Eu sentia um orgulho danado do meu pai, à época um capitão-tenente que chegava fardado ao colégio Maristella para me buscar, chamando a atenção de todos. Era o único momento em que as freiras me afagavam o cocuruto e abriam um sorriso, babonas que ficavam ao ver aquele homem de branco, com o quepe embaixo do braço. Não tiro a razão delas. Durante um bom tempo, dei trabalho à irmã Iraneide (ou Ivaneide?) e os feromônios sufocados por baixo do hábito encontravam estímulos na indumentária máscula e vistosa. Mas na rua, numa dividida de bola, em uma troca de caneladas, pescoções, ombreadas, empurrões mais truculentos, meus colegas-rivais usavam e abusavam da pompa que cercava ‘a turma da banda esquerda’, cujos progenitores andavam, às vezes, de Opala preto com motorista e ganhavam um pouco melhor – raríssimas casas do lado aposto tinham quintais, jardins e corredores laterais, juntinhas, parede com parede, que eram.

Certo dia, em um fim de tarde, eu e um grupo de meninos decidíamos o que fazer com nosso tédio. Tínhamos, em média, oito, nove anos. Kerginaldo, o homossexual que, diariamente, ouvia impropérios no ir e vir do trabalho, já tinha passado. Hoje nós seríamos esquartejados pela militância gay, mas, no começo dos 80s, atazanar o ser de olhar e andar agateado funcionava como um dos rituais pré-púberes. Quem não xingasse Kerginaldo, de perto, levantava desconfiança geral. Fazia parte do teste. Como ele ameaçava correr atrás dos mais atrevidos, bater pé e encarar o coitado conquistava pontos no ranking da macheza. Decidimos atentar contra o fuzileiro que perambulava pela calçada do ‘lado esquerdo’. O cara estava lá, contrariado, fulo da vida, com aquela roupa verde musgo pesada, capacete esquentando o juízo que devia estar em outro lugar, e meia dúzia de pequenos salafrários maquinando uma pegadinha.

A distinção entre filhos de militares e de civis era clara. Aqueles, mais educados, almofadinhas, foram criados acreditando que a maior das ignomínias era tirar nota baixa e passar meleca no tampo da mesa. Já estes, marcavam presença com uma irresponsabilidade agressiva, às vezes, com a criminalidade convidando alguns para brincar. Assumi a dianteira do plano maquiavélico e anunciei: “Vamos jogar uma castanhola no capacete do naval”. Não preciso dizer que todos adoraram a ideia e me deram corda, doidos para ver a… (você sabe!). Tomei coragem. Eu queria galgar posições e me estabelecer no G4 da garotada. Bem perto da vítima, que me olhava sem imaginar o que lhe esperava, meu pai apareceu em uma figura espectral, esfumaçada, sombria, com chifres e tridente. Só que em vez de me incentivar, ele alertava para os perigos da empreitada. “Vá fundo!”, disse em tom zombeteiro. Eu tinha um nome a zelar, uma reputação a ser mantida.

As últimas lembranças que tenho do episódio registram meu pai furioso comigo, após saber que eu fiquei zoando com o capacete do naval, dizendo que parecia um penico (não joguei nada). O sujeito chegou a apontar o fuzil para mim (de brincadeira, claro) e me ameaçar. Em casa, ninguém acreditou em minha versão. A bandalheira surtira efeito contrário. Acredito que neste ponto do texto você, leitor, deve se perguntar o porquê de toda essa ladainha com cara de exorcismo de um trauma infantil ou de uma sessão terapêutica. Digo que foi o que me causou o livro de crônicas de Antonio Prata, “Nu, de botas”: uma vontade grande de contar algo engraçado ou desabonador que me acometeu na infância. O colunista da Folha de São Paulo reuniu escritos sobre os primeiros anos de vida com uma rara destreza para quem tem ‘apenas’ 36 anos. Ele pode ser acusado de ter abordado fatos engraçadíssimos, como bom filho da classe média paulistana.

Filho dos também escritores Mário Prata e Marta Góes, Antonio relembra a fase de transição de uma São Paulo tranquila, a partir do bairro bacana do Itaim Bibi, para uma megalópole violenta – ainda que o livro não tenha cunho de crítica social. Seu lance é mesmo o Bozo, a separação dos pais (numa boa), a primeira paixão, cueca como sinal de virilidade, evitar ser flagrado por amigos fazendo cocô, a mãe de um colega que atiça uma sensualidade incompreendida, aulas de português em que a formação de sílabas terminam em palavras proibidas, e por aí vai. A visão de um menino entre dois e dez anos é transcrita pelo autor elogiado por Deus e o mundo (com razão) com a perspicácia de quem sabe o limite da fantasia literária. As tiradas sarcásticas e observações do cotidiano parecem sair da boca de uma criança inteligente que narra suas desventuras para a mãe.

Revoltado com calça jeans (“dura, impedia o movimento”), camisa (“precisava de um adulto, para tirá-la e abrir todos aqueles botões”) e por ter que usar cuecas (“afinal, pra que servia aquela camada inútil de pano entre a pele e a deliciosa textura do moleton?”), Antonio sofria em ocasiões festivas, quando “[...] minha mãe me obrigava a vestir tudo de ruim ao mesmo tempo”. Daí que durante uma estadia na fazenda de um amigo, com quatorze outros garotos, eis que a mãe anfitriã grita na frente da horda, após vasculhar seus pertences: “Antonio, não tem cuecas em sua mala”. Logo um dos símbolos máximos de um homem quando menino. A galerinha não poupou na humilhação. Outra história que arranca sorrisos é do dia em que viu uma mulher fazendo sexo oral em um homem, por ocasião de um passeio com o pai. Mário Prata foi objetivo: “Antonio, chupar pinto é uma coisa muito normal. E saudável. Todo casal faz isso”. Antonio tinha seis anos. Se você ainda pensa sobre o que fazer no próximo final de semana, tai um programão: correr até uma livraria (como se tivéssemos muitas…) e comprar “Nu, de Botas”. Aposto que suas reminiscências gostarão a ponto de fazê-lo contar aquele ‘causo’ para os mais próximos.

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