“O Alecrim não precisa de caridade”
Não foram poucas as oportunidades que o Alecrim citou a possibilidade de se ausentar das competições estaduais. A falta de infra-estrutura, processos trabalhistas do passado e a escassez de títulos eram empecilhos importantes e que a cada ano só dificultava mais a possibilidade de montar bons times. A torcida se afastou, foi perdendo força, e se no passado chegava a dividir com o América um espaço de mesmas proporções no Machadão, hoje se contenta em receber na estreia do Campeonato Potiguar o menor público da primeira rodada, com apenas 199 pagantes.
Reestruturar o Alecrim em busca de títulos. É com esse pensamento que o clube desde o ano passado iniciou um processo de reconstrução coordenado por Anthony Armstrong, investidor que vê no clube a possibilidade de fomentar negócios, reconquistar o torcedor e fazer novamente o Verdão dar orgulho à sua torcida. O Jornal de Hoje conversou com o novo presidente, que falou a respeito da estrutura atual, do pensamento para o futuro, de como pretende recuperar os mais de 1,5 milhão já investidos no Alecrim e, principalmente, afirma: “não precisamos mais de caridade.”
Bate Bola com Anthony Armstrong
Jornal de Hoje: como você avalia esse primeiro momento do Alecrim, da preparação até a estreia?
Anthony Armstrong: Assumi a presidência do Alecrim e ele realmente existia no papel. E aí? Acabou! Não tinha jogadores, elenco, categorias de base. É um trabalho que encaremos com muita seriedade e fomos pensando nas peças necessárias para a profissionalização. Acredito que nesse momento estamos em uma fase de conhecimento, mas que já temos muito o que apresentar. Construímos uma infra-estrutura inicial importante e aos poucos vamos aumentar. Comissão técnica, comissão médica. Temos fisioterapeutas, nutricionistas e tudo que é necessário. Vamos cuidar desses meninos. A saúde física e intelectual dos atletas tem que estar preservada. Começamos bem.
JH: Você não é brasileiro. É um empresário do ramo da construção civil. Como fazer para montar um time de futebol, ramo tão diferente do que você está ligado diretamente?
AA: Eu tenho experiência de futebol. Mas eu estou no Brasil, sou inglês e o mundo de futebol é difícil. Fiz escolhas técnicas. Eu contei também com o Miguel Castro, que é supervisor técnico do futebol feminino da seleção brasileira. Ele veio me ajudar a organizar algumas tarefas. A primeira necessidade foi escutar o Maurílio e saber quem ele poderia nos indicar para montar esse elenco e fazer um time forte. Ele recomendou e conseguimos viabilizar grande parte. Acredito que 60%. Os outros foram se complementando de acordo com reuniões com nossa coordenação. Um deles é o Robertinho, que foi uma decisão técnica discutida comigo e Maurílio. Vimos alguns jogos e sabemos que ele tem talento. Já surpreendeu nas duas primeiras rodadas. Temos alguns jogadores bem experientes, mas não temos um elenco velho, é balanceado e se complementa. O técnico do América até já citou sobre a nossa organização tática. Esses meninos se entendem e vão funcionar como uma unidade.
JH: E como você chegou até Maurílio?
AA:Para contratar um técnico eu tive que conversar olho no olho. Cheguei a pagar vários voos para conversar com nomes que nos interessava. Não queria contratar alguém simplesmente por currículo. Vários nome importantes vieram, que venceram, com manias, entre outras coisas. O único que olhou no meu olho e disse que queria ganhar foi o Maurílio, que foi vencedor como jogador e agora tem a oportunidade de mostrar que como treinador também pode fazer uma grande carreira. O time que ele treinou o ano passado estava prestes a ser rebaixado e ele conseguiu pegar um time no meio do campeonato e finalizar com 17 jogos invictos, salvando do rebaixamento. Ele veio com a comissão técnica dele. Preparador físico, de goleiros, supervisor. É um trabalho que a gente confia muito.
JH: Qual a principal base desse Alecrim de hoje?
AA: A Família. A gente tem trabalhado para que os jogadores se sintam em casa. É bom a gente ver que eles estão bem. Vencer não é simplesmente dinheiro. Emocionalmente é necessário estar bem, é preciso estar em paz. Como eles se relacionam entre si é um fator fundamental.
JH: A infra-estrutura sempre foi o calo do Alecrim nos últimos anos. O clube sequer tinha onde treinar e saia de porta em porta em busca de um campo profissional. Chegou a treinar em locais que sequer tinham medidas oficiais. Foi esse o principal desafio?
AA: No futebol moderno tudo depende de logística e infra-estrutura. Não temos infra-estrutura nenhuma e não estou falando em nada novo. No Alecrim sempre se esperava a caridade dos outros. Eu assumindo a presidência trouxe também a independência financeira. Não estou pedindo nada a ninguém e a gente não está mais com as mãos na frente. Queremos o que todo time internacional ou local quer, a ajuda na nossa torcida. Quero empresários que queiram investir em marketing e mídia e não fazer caridade. O Alecrim hoje não precisa de caridade. Imaginem os fatos. Ceará Mirim, longe. Goianinha, longe. O ABC tem o Frasqueirão, mas é do ABC. Então eu decidi ter a nossa própria casa e escolhi São Gonçalo. O Ninho do Periquito custará ao torcedor 6 reais de ônibus para chegar até lá. Eu preciso de um local que nos renda dinheiro. Só não jogamos ainda lá porque resolvemos poupar um pouco a grama, já que tínhamos dois jogos fora em sequência dava pra jogar a primeira em outro estádio.
JH: Você tem investido no Alecrim. Como pretende ter retorno?
AA: Eu tenho dois chapéus. Um de empresário e um de dirigente de futebol. Carrego duas responsabilidades. Ao meu investimento e ao clube. O Alecrim passou por tudo que passou por falta de profissionalismo do passado. Tenho três anos para estruturar a área profissional e construir uma base sólida para o futuro. Como qualquer empresa que investe em esporte queremos retorno. É no mundo inteiro assim. Até o Barcelona, que historicamente nunca teve patrocinador agora vai ter. Patrocínio é a base do esporte profissional. Meu retorno vem de onde? Se você perguntar nas ruas quem é a empresa EcoHouse todo mundo responde: “não é a empresa do presidente Alecrim?” Então já funcionou. Como eu posso medir o quanto vale isso? Nós somos uma empresa de construção civil, uma das maiores do Estado. Hoje temos mais de mil funcionários em nossos quadros. Todo público de futebol é público alvo para as casa que construo, que estão no programa Minha Casa, Minha vida. A empresa EcoHouse, por exemplo, adquiriu a concessão de um campo de futebol, mas ele também não será só um campo de futebol. Também iremos programar outros eventos. Tem muitos aspectos que podem gerar retorno. Por isso não vendi a camisa do Alecrim, que nesse momento estampa a nossa marca. Tenho mais de um milhão e meio de reais investidos no Alecrim e temos mais para investir.
JH: Geralmente os empresários pensam muito em categorias de base e o Alecrim ainda não fez isso. Você vai investir nisso?
AA: Com o Ninho do Periquito vem também dois terrenos vizinho, um deles será o estacionamento para mais de mil veículos. O outro será um campo de treinamento profissional com enfermaria, piscinas, alojamento, escritórios administrativos e claro um campo de futebol profissional, além de um micro campo para treinamento de goleiros. Em abril, após o campeonato estadual, começaremos as obras. Nesse momento não quero tirar os olhos do futebol profissional. Com isso as categorias de base começarão a funcionar. Apresentaremos ao Conselho do Alecrim e depois iniciaremos o projeto. O Alecrim já revelou jogadores e depois acabou não recebendo nada. Eu quero fazer esse dinheiro aparecer. Qual o produto de um time de futebol? É o atleta. Não é picolé! É como uma construtora que vende casas. Então temos que tratar bem o nosso produto e construí-lo aos poucos.
JH: É o primeiro ano da gestão, da reestruturação. Não é cedo demais para pensar em títulos?
AA: Sempre tem que pensar grande na vida. Temos que lembrar que todas as grande figuras do mundo saíram do pensamento impossível e construíram seu legado. Temos que pensar além. Mesmo sendo o primeiro ano. Claro, como qualquer coisa, futebol não é ciência exata. Posso dizer que temos todas as ferramentas necessárias para fazer uma grande competição. Agora é seguir melhorando a cada passo. Temos adversários respeitados, mesmo sem ter nessa primeira fase a presença de ABC e América. Santa Cruz, Baraúnas, Corintians de Caicó já foi um rival muito difícil. Não existe um time que eu possa simplesmente esquecer. Respeito meus concorrentes, mas sabemos do nosso trabalho.


