O Brasil cuida da vida do seu povo com a mesma improvisação com que joga futebol – Marcos Aurélio de Sá

- No começo da noite de ontem, antes mesmo que o juiz apitasse o encerramento do jogo entre as seleções…

- No começo da noite de ontem, antes mesmo que o juiz apitasse o encerramento do jogo entre as seleções do Brasil e da Alemanha que disputavam a semifinal da Copa do Mundo de 2014, mais de 200 milhões de brasileiros – espantados, incrédulos e muitos deles aos prantos – já haviam caído na real: fomos vítimas de um memorável conto do vigário.

– E o mais grave: como sempre acontece nesse tipo de golpe contra ingenuidade, nós, as vítimas também emprestamos total colaboração para que a fraude vergonhosa se consumasse, ao nos deixarmos enganar tolamente pelo ufanismo criado no laboratório dos marqueteiros e massificado pelos meios de comunicação, os quais – a serviço das causas inconfessáveis dos espertalhões da politicagem e dos negócios nebulosos – nos asseguravam com uma vitória líquida e certa, mesmo que sem méritos, já que, agora, está mais do que comprovada a falta de competência do nosso time para conquistá-la com honra.

– E o mais grave, ainda, é que a população do nosso país – apesar da duríssima lição de ontem – continuará, em tantos outros setores da vida social, cultural, política e econômica, submetida exatamente ao mesmo tipo de demagogia e lavagem cerebral que, no caso específico do futebol, nos estigmatizou com a marca da infâmia, da humilhação e do deboche universal.

– Qualquer cidadão brasileiro com o mínimo de espírito crítico e alguma noção da realidade em que o país vive atualmente, está vendo que as coisas não caminham bem em nossa sociedade. Apesar disso, os governantes teimam continuar retirando do orçamento da União, dos Estados e dos Municípios bilhões e bilhões de reais para gastar com propaganda enganosa e alienante, tentando nos convencer de que vivemos no melhor dos mundos.

– Do mesmo jeito que o Brasil teve de sobra as condições materiais e humanas para tanto, mas não teve capacidade para formar – com o necessário planejamento e antecedência – uma seleção de bons jogadores para a Copa, nem para escolher um técnico que colocasse em prática a melhor estratégia de jogo e que preparasse a equipe para os embates com o máximo de dedicação e seriedade, também não estamos demonstrando capacidade de fazer as coisas bem feitas em inúmeros setores vitais da nossa sociedade.

– A economia brasileira se encontra praticamente estagnada há anos, apresentando crescimento anual em percentuais inferiores a 2 por cento (abaixo até mesmo do índice do aumento populacional), enquanto a inflação explode seguidamente em taxas acima de 6 por cento, sem que se consiga realizar, nem de longe, o volume de investimentos que o país exige em obras de infraestrutura, apesar do cidadão comum já estar submetido a uma carga de tributos que figura entre as mais elevadas do planeta.

– A dívida pública do país supera a barreira dos trilhões e não para de crescer, e mesmo assim o Estado brasileiro não consegue administrar os recursos públicos de forma a garantir aos brasileiros os seus direitos constitucionais.

– Os índices da corrupção no mundo político nacional não param de crescer, com seus agentes muitas vezes sendo exaltados e tratados como heróis por determinados partidos e com o Poder Judiciário, aqui e ali, sempre achando fórmulas de livrá-los do cumprimento de penas, mesmo que estas estejam fixadas abaixo das cominadas nos códigos.

– O tráfico e o consumo de drogas em todos os recantos de país parecem ter se transformado em política de Estado, diante das afinidades e da aliança irrestrita que os nossos governantes mantêm com ditadores das nações vizinhas, onde a produção de narcóticos se caracteriza como principal atividade econômica e dos quais todo mundo sabe que o Brasil, com suas fronteiras abertas e desguarnecidas, é o maior consumidor e atravessador.

– As estatísticas que se referem ao número de mortes decorrentes de assassinatos, latrocínios e outros crimes violentos não param de inflar. Ano passado superaram a casa dos 50 mil, fazendo vítimas principalmente entre a população jovem do sexo masculino que mora na periferia das grandes cidades e nos povoados modestos do interior do país. Este ano, segundo a previsão das próprias autoridades policiais – que reconhecem a toda hora a incapacidade de agir para mudar o quadro e até mesmo de investigar as ocorrências – é de que se ultrapasse a marca das 60 mil vítimas fatais de balas, facadas e porradas, acrescidas de mais 50 mil mortes consequentes de acidentes de trânsito.

– Sobre a qualidade da saúde pública e das escolas oferecidas pelo Poder Público à nossa gente, nem é preciso que falemos muitos. Os cidadãos estão cansados de presenciar hospitais, maternidades e postos de saúde sem a mínima condição de oferecer bom atendimento, com pacientes jogados à própria sorte e morrendo à míngua.

– Crianças, após passarem anos e anos frequentando a sala de aula, muitas vezes nem sequer aprendem a ler. Professores, sempre reclamando de maus salários, se dedicam mais a fazer greves do que a ensinar. Jovens diplomados nas melhores universidades muitas vezes são incapazes de escrever corretamente um bilhete.

– É provável que diante dessas terríveis realidades muitos brasileiros ainda se encontrem naquela situação em que estavam até ontem, ou seja, acreditando que – a exemplo da seleção de Luiz Felipe Scolari – o nosso país está ainda apto a vencer as disputas impostas ao mundo hodierno pela economia globalizada.

– Se não cuidarmos de fazer, com urgência urgentíssima, profundas mudanças no nosso modelo de organização social, política e econômica, enfrentaremos novas, maiores e mais acachapantes derrotas no plano internacional, com o detalhe de que, ao contrário da suportada no jogo de ontem (que apenas nos envergonhou e magoou nossa autoestima), elas nos custarão muitíssimo mais caro.

CHAMADA DE CAPA

O Brasil cuida da vida do seu povo com a mesma improvisação com que joga futebol

 

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