O capacete – Rubens Lemos Filho

O Figura estava em falta faz quase dois anos. Na última vez que nos vimos, rolou estresse, ele contando vantagem…

O Figura estava em falta faz quase dois anos. Na última vez que nos vimos, rolou estresse, ele contando vantagem por esconder a sogra fofoqueira e intrometida dentro de uma embalagem de frigobar. Achei maldade. Ele reapareceu do nada, na hora em que eu tentava botar o primeiro garfo da comida de passarinho que os médicos estão me impondo.

Preocupado o Figura. Com tanto assalto, assassinato e arrastão. Cometeu subliteratura fúnebre: “Que Rio Grande do Norte? Nós vivemos mesmo é no Rio Grande da Morte.” Depois de uma maratona de exames, suspenses e recomendações de mudança total de estilo de vida, tudo o que não quero é escutar desgraça.

Acontece que a desgraça não pede licença. Entra macabra e cínica,em nossos televisores, rádios, computadores, telefones, ouvidos cansados. A desgraça da violência, do sangue derramado, do cadáver esparramado, da prefeitura que carimba caixão de pobre em Mossoró, terra liberta e que não combina com tamanha aberração.

Segundo o Figura, que tomou assento sem receber convite, em qualquer roda de bar, um olho no copo e outro na porta com medo de ladrão em bando, é comum patotas derrubando litros de cachaça e apostando sobre quantos morrem a cada fim de semana. Dinheiro bizarro, mas é razoável gastá-lo assim do que entregá-lo aos vagabundos.

O Figura está com pânico especial. De motoqueiros sinistros circulando à noite. O carona com as mãos no blusão ou perto da cintura. Desce, aterroriza, leva o dinheiro e, se estiver a fim, escolhe alguém para despachar ao cemitério, por perversidade.

Para o Figura, o ideal seria o Detran, em imitação ao nonsense da pintura de caixões, identificar todos os capacetes. Você já saberia que Severlândio estava na moto e Judileudo na garupa. Tenho, sim, uma atração para gente que gosta de tirar o meu sossego.

Passei dois minutos imaginando a multidão pintando capacete por Natal inteira. E sendo registrada pela polícia. Resolvi me contrapor à proposta de lei do Figura: “Se o ladrão rouba o capacete de sujeito honesto e mata outro? Câmeras e testemunhas vão acusar um inocente. Tem jeito não Figura, só tem jeito mudando o Código Penal, reduzindo a maioridade de criminoso, e, em alguns casos incuráveis, adotando leis norte-americanas”.

Passando a mão no peito de frango que (eu) havia guardado para o final, Figura pensou como filósofo ensovacado, que circula com livro debaixo do braço sem jamais ter lido algum: “O jeito é chamar Maurílio Pinto”. Expulsei o Figura. A falta que faz a força do Xerife de Natal dá gastrite cidadã.

 

Sem expectativas

O mais indicado para o torcedor do ABC hoje em relação ao jogo contra o Vasco (RJ) pela Copa do Brasil é não esperar nada, assistir como se tudo pudesse acontecer. O ABC – o América também -, ganha quando ninguém espera e comete um fiasco na hora em que a massa está mais animada e esperançosa.

 

Nada a temer

O Vasco não merece temor. É um timinho. Bem diferente do painel desenhado em São Januário com os seguintes ídolos: Barbosa, Bellini, Ademir Menezes, Roberto Dinamite, Geovani, Carlos Germano, Edmundo, Romário, Pedrinho, Felipe e Juninho Pernambucano. Esqueceram outros tantos. E depois não me querem dar razão.

Pendurados

É um time inteiro de pendurados por cartão amarelo no América. São 11 jogadores num momento de dificuldade. Estão ameaçados Marcelinho, Cléber, Roberto Dias, Paulo Henrique, Wanderson, Márcio Passos, Val, Jeferson, Daniel Costa, Morais e Max.

Multa

Existe uma solução mágica para diminuir esse volume inexplicável: multa. Doeu no bolso, todo mundo amansa.

João Paulo e Gilmar

João Paulo parece ter feito um curso de pontaria com o contundido Gilmar. Depois de um bom começo, passou a ciscar e a chutar longe, revelando um erro de origem. Faltou alguém na categoria de base para enxergar que João Paulo, um atacante, não sobrevive arrematando tão mal.

Um camisa 10

Vinicius, do Náutico, demonstrou um futebol bem satisfatório para um camisa 10 de Série B. Ainda que possa ter sido temporã sua atuação diante do América, exibiu criatividade e ímpeto ofensivo. Bom jogador. Durante quantas rodadas, impossível garantir.

Ganso

E por falar em camisa 10, Dunga preferiu convocar Hulk e Willian a dar uma chance a Paulo Henrique Ganso, do São Paulo, o oscilante e genial meia-armador do São Paulo. O golaço de Ganso contra o Santos, batendo com um efeito devastador, lembrou as patadas de Pedro Rocha, o caudilho uruguaio, nos bons idos da década de 1970.

Cabeção e bocão

Líder da parte pobre do Bom Senso Futebol Clube, movimento de jogadores – alguns milionários que nunca demonstraram qualquer consciência coletiva – por melhores condições de trabalho, o veterano Ruy Cabeção segue exagerando na dose verbal e, de novo, chamou de desonestos os dirigentes de clube. Que existem, existem, mas é preciso ter cuidado com generalização.

Aparecer

Ruy Cabeção pediu cadeia aos caloteiros e voltou a detalhar o caos interno no Alecrim quando comandado pelo inglês que Passe Livre se recusa a digitar o nome por questão de princípio. Ruy Cabeção tem suas razões, mas vive falando demais. Ao site Globo Esporte.com expôs situações constrangedoras, vividas por ex-colegas de time em Natal. Provações que não precisam ser escancaradas. É muito humilhante.

Preço do Verdão

O Alecrim, clube querido por todos, sem exceção, está sofrendo uma ressaca incurável por ter se entregue, sem critérios, de forma graciosa, a um desconhecido estrangeiro que chegou ao Rio Grande do Norte contando vantagem e impondo truculência. O Alecrim foi de uma ingenuidade mirim.

Natal é assim

Natal é assim, do jeito que agiu o Alecrim. Filho da terra sofre em dobro se quiser ser empreendedor, se disputar uma vaga no mercado de trabalho com forasteiro, para ser valorizado quando tem talento. Marinho Chagas era estrela quando passava da divisa. Aqui, crocodilos lacrimejaram quando Marinho Chagas virou cadáver.

Série D

O Baraúnas venceu e o Globo perdeu na Série D, o faroeste caboclo do futebol brasileiro. O desempenho dos representantes potiguares, lutando para não fugir da rabeira, é o retrato daquilo que raras vozes se levantam para dizer quando é tempo de Campeonato Estadual: a bola jogada com carteira profissional, se joga em fundo de quintal.

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