“O Código de Honra” deveria ser lido por intelectuais potiguares

Principalmente em ano de eleição e protestos generalizados, como ajuda no deslumbramento fantasioso implantado na massa

Conrado Carlos

Editor de Cultura

Com reluzentes lojas Audi, BWM e Land Rover, dezenas de buffets luxuosos que recebem diariamente festas nababescas e apartamentos que ultrapassam um milhão de reais, a suja Natal tem menos de 40% de sua área saneada, oitenta mil analfabetos e números alarmantes quanto à violência infanto-juvenil – é a capital que registrou o maior aumento de homicídios, entre pessoas de 0 a 19 anos, na última década.

Em cada esquina, filhotes da desigualdade agridem a miopia coletiva, que vê crianças e adolescentes encardidos, de aspecto fantasmagórico, perdidos em meio ao asfalto, sem a menor intervenção. Que tipo de moral apresenta uma pessoa que entende essa meninada como cães vadios largados à sorte de uma existência kamikaze? Se existe uma coisa que “O Código de Honra – Como Ocorrem as Revoluções Morais”, de Kwame Anthony Appiah, faz é perturbar nosso juízo com uma espécie de grito abafado sobre a banalização da desgraça alheia.

Afinal, temos plena noção de nosso desdém para com os marginais, ainda que conferir se a trava está acionada, quando eles se aproximam no sinal, seja a regra. Amparado na preocupação humana com posição social e respeito, Kwame parte de três costumes bisonhos em épocas e sociedades distintas, como a chinesa, a britânica e nos trópicos, para defender que, acima da religião e da lei, a honra foi a causa principal de uma rápida transformação do comportamento imoral – mas não dos sentimentos.

Children play as they take a bath in the murky waters of Manila Bay

O fim do (1) duelo entre nobres, da (2) amarração de pés das meninas chinesas e (3) da escravidão trouxe à superfície o que todos sabiam: que às práticas eram condenadas por qualquer ser pensante, mas perduraram séculos, até as primeiras vozes contrárias ecoarem em bom som – no rigor da longa tradição jurídica de tolerância com a desconsideração da lei pela aristocracia, como ainda é praxe por estas bandas; desde ligar o pisca alerta para largar o carro no meio da rua, até enricar com dinheiro público, sem ter feito o mínimo esforço para progredir na vida.

Filho de ganês, mas criado em Londres e, hoje, radicado nos Estados Unidos, Kwame esmiúça conceitos como a dignidade, o reconhecimento e a honestidade para justificar o impulso de certo homens em estancar experimentos criminosos. Mais que respeito individual, o coletivo, criador dos códigos, sofre quando todos cegam para chagas sociais. Demora, mas a doença, como uma virose poderosa, não perdoa ninguém. “O código de honra” foi eleito o livro do ano, em 2010, pelo The New York Times, principal jornal do ‘Império’, e seria útil para os apaniguados estatais que defendem o indefensável.

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