O despertar – Rubens Lemos

Depois da trigésima cerveja em lata, incursionou pela cachaça com churrasco de gato num boteco cheio de pôsteres antigos de…

Depois da trigésima cerveja em lata, incursionou pela cachaça com churrasco de gato num boteco cheio de pôsteres antigos de futebol. Traçou uma rabada de quatro dias de fabricação. Comeu cebola roxa, queijo de coalho, arriscou uma dobradinha feita no sábado. Gritava: “Becê, Becê!”.

Sem grana para ver o jogo, achou a primeira placa de moquifo que encontrou pelas imediações de Nova Descoberta com TV por assinatura. Sentava-se num bar pelo mofar da cerveja, o tempero do tira-gosto, o perfume ativo e suado das mariposas, o bate-papo. Hoje, o importante é ter TV paga. Ingresso é impeditivo de pobre.

Berrou como viúvo honesto no gol de Madson. Rolou por entre as mesas de metal, rezou 16 Pai Nossos, clamou por Souza Silva, o falecido repórter da Frasqueira dos idos da calça boca-sino e dos craques black power e swing no trato com a bola. “Bateu com o peito do pé, peito do pé! Foi gol de Jorge Demolidor!”.

Ao invocar o velho e explosivo goleador do Tetra de 1973, temperava a emoção louca pela vitória das mais importantes do ABC desde 1915, passando por Padrinho Vicente Farache de mãos dadas com a dama Maria Lamas, grandeza matriarcal do Frasqueirão, Estádio que se impõe aos ventos sudoestes de Ponta Negra. Zona Sul. Jorge Demolidor chutava mesmo forte, sem medo, assassinando o inútil esforço dos goleiros.

Trêmulo, pastoso na voz do bêbado crônico e sentenciado pela devastação do fígado, exaltou o lançamento parabólico e profético de Samuel, direto da defesa até o lateral que incorporou os maiores artilheiros alvinegros. “Um lançamento assim eu só vi Danilo Menezes fazendo em domingo de clássico. Eu só vi Alberi meter uma bola assim, tão linda”.

O bêbado em transição ao torto status de palhaço translúcido chorava e urrava depois que Rogerinho triscou na bola e o zagueiro Marlon marcou o segundo gol, o gol que fez da Arena, por minutos, um espaço democrático, popular e festivo na catarse exclusiva dos times de massa.

Rogerinho, em sua meteórica passagem pelo gramado, bateu na bola no charme de um Dedé de Dora na plenitude do 1983 incomparável. O doce, ébrio trôpego, chamou Marlon, que empurrou a bola para o gol de Diego Silva, mãos de mamulengo, de Alexandre Mineiro, o gigante quarto-zagueiro daquele esquadrão de 31 anos passados. Ele podia, os oito companheiros de alegria compreendiam.

Prometeu nunca mais beber depois do susto de Maxi Rodriguez, diminuindo o placar, jurou arrumar emprego e ajudar a mulher no sustento dos netos Vanderlilda e Soluewersom (nomes rigorosamente escolhidos pelo avô). Deu cambalhota quando o árbitro encerrou a partida. Pendurou a conta num calhamaço da grossura de um pretérito (tanto quanto ele), catálogo telefônico.

Saiu pela madrugada. Há santos para bêbados indefesos e guiados pela paixão de agonia, em plena capital, a quarta mais violenta do Brasil. Ele não quis nem saber mas saiu em procissão restabelecendo o ritual das epopeias dos anos dourados em preto e branco.

Foi ao Alecrim, passou pelos extintos sítios boêmios Quitandinha e Café Nice, orou, desceu à Praia dos Artistas. Até às oito da manhã, dormia, vestido de ABC, na calçada do fantasmagórico Hotel dos Reis Magos. Putas, punguistas e baderneiros protegiam seu sono sagrado de glória.

Imparcialidade

Quando a Rede Globo repete como liquidificador sonoro as suas bobagens ufanistas, com Galvão Bueno de vocalista, o mundo cai, todo mundo desce a porrada. A Fox Sports, emissora tida como “cabeça” fez vergonha na transmissão de ontem à noite na Arena das Dunas.

Narrador e comentarista

O narrador que é anônimo e o ex-cracaço Mário Sérgio Pontes de Paiva, o Vesgo, transmitiram como se fossem conselheiros ou chefes de torcida organizada do Vasco. Mário Sérgio, que nunca errou um passe na vida, chegou a chamar o ABC de “time do Ceará”. E pagamos caro pela assinatura desse canal parcial.

Cúmulo

Mário Sérgio, cerebral no meio-campo ou na ponta-esquerda quando entortava marcadores, perdeu-se como um bobo de praça. Na ânsia de subverter a lógica, chegou a dizer que o segundo tempo foi “todo do Vasco”. Foi tanto que o Vasco desceu para o terceiro tempo. Tempo que nem acabou por jamais ter havido.

Globo x Vasco

O empresário Marcone Barreto, astuto, deve cobrar do seu time do Globo um esforço hercúleo para chegar à Série C. Barreto pode começar a fazer cálculos pois seria um rendão um Globo versus Vasco em Ceará-Mirim. O Vasco é time para a Série C, depois a D e depois, lembranças como um Bangu em preto, branco e saudades. Triste fim.

Andrey, 50 jogos

O goleiro Andrey estará completando 50 jogos com a camisa do América esta noite na decisão contra o Atlético (PR). O atleta chegou ao clube no ano passado para a disputa da Série B e jogou 30 partidas. É um ótimo goleiro, embora ainda for a de forma após longa contusão. Hoje, é comemorar pegando tudo.

Obrigação, não

O América vai jogar contra o Atlético (PR) para se classificar pela ampla vantagem obtida no primeiro jogo, não porque o ABC mandou o Vasco para o Rio de Janeiro a nado. O América segue seu destino e o ABC, o dele.

Paz

Time o América tem para ganhar de qualquer um. Quando está inspirado, é uma beleza do meio-campo para frente, tocando a bola, chegando ao gol no famoso “um, dois”. Sem falar no lateral-direito Wálber que está jogando como se homenageasse o eterno Ivan Silva, o melhor da história rubra na posição.

Vida que segue

O sorteio para a definição de mandos de campo das quartas de final da Copa do Brasil será nesta sexta-feira, às 14 horas, no auditório da sede da CBF.

Grande público

Atenção autoridades policiais: o jogo ABC x Santa Cruz é de risco de confronto entre baderneiros. É velha história de rivalidade. Famílias de Natal e as que vierem de Recife, precisam de garantias.

O lado A

ABC que jogue o seu futebol lado A na Série B. O futebol que parece surgir na Copa do Brasil, atraído pelo prêmio polpudo, tem de voltar no jogo contra o Santa Cruz para a torcida gritar que é feliz duas vezes por semana.

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