O dia em que o motorista de um guincho pensou como Saramago

Minha vontade era voltar e pedir a devolução de parte do dinheiro, pois sabia que tinha sido enrolado

Conrado Carlos
Editor de Cultura

Na semana passada, eu dobrei na rua Raimundo Chaves, a da InterTV Cabugi, quando meu carro começou a engasgar. Isso era na quarta ou quinta-feira, não lembro agora, já no começo da noite. Estava a menos de quinhentos metros de casa e sentia o motor perder força. Ao parar diante do portão que deslizava pelo trilho elétrico, pane geral, depois de uma forte tremedeira que me constrangeu por uns segundos – um dos símbolos da masculinidade, a cultura do automóvel pode funcionar como parâmetro no julgamento de vizinhos; saber o que é um tucho ou uma correia dentada pode pesar na honra e ser fundamental para o estabelecimento de uma reputação decente e viril. Olho para os lados e vejo que só o porteiro acompanha minha vergonha. Aposto em um novo acionamento da ignição, com esperança de que a coisa funcione na primeira tentativa. Deu certo. Consegui entrar na garagem e estacioná-lo. “Amanhã cedo vou deixá-lo numa oficina”, pensei.

No dia seguinte, aciono um caminhão-guincho, como quem liga para o SAMU. Um sujeito ativo e suado, meio barrigudo, chamado Ednaldo, conduz alavancas e cintos reforçados para prender o carro em cima do veículo maior. Ele sugere, e eu acato, de irmos a uma conhecida UTI automotiva no Alecrim Profundo. Subo na boleia do caminhão e percebo que Ednaldo gosta de conversar sobre política, utilizando a bandalheira do trânsito para protestar com clichês engraçados, como “Fico p…com quem quer ser mais vadio que os outros”, “Olhe que caba de pêia!”. Ele mesmo era um motorista afoito, valendo-se da imponência do caminhão que conduzia para ditar o ritmo e a direção do fluxo, em certos momentos. Até que ele começa a falar sobre mudanças no tráfego nas imediações das obras para a Copa do Mundo – estávamos próximo ao cruzamento da avenida Miguel Castro com a Jaguarari. Na hora em que um ‘vadio’ acelerou para entrar em nossa frente, ele buzinou com gosto e fez uma análise daquela situação.

Para abreviar a conversa, ele chamou o povo de “burro”, os políticos de “picaretas” e disse que a coisa estava “cada vez pior” – na contramão do discurso oficial. “Era para, no dia da eleição, ninguém ir votar, para esses candidatos que estão aí saírem tudinho e entrar outros novos no lugar deles”. Aquele não era um cenário para falarmos em José Saramago, mas quem leu Ensaio Sobre a Lucidez ficaria tentado a fazer a analogia de imediato. “Já pensou: no dia da eleição, todos ansiosos para ver quem será o presidente e o governador e nada, oitenta e tantos por cento de abstenção? Surpresa geral e uma nova votação seria marcada para poucas semanas depois. Então, na data definitiva, mais uma vez o eleitorado ficaria em casa e decidiria que as figuras que ilustram a urna eletrônica devem sumir do mapa”, foi meu devaneio besta naquele instante calorento e de impaciência generalizada. A fala arrastada de beduíno sertanejo de Ednaldo foi certeira.

“É lá na três”, ele respondeu minha pergunta sobre o local da oficina. Até hoje me perco nessa mania antiga de chamar as ruas do Alecrim por números, prática ainda adotada por frequentadores do bairro caótico, degradado e rico em história. Vejo uma placa que informa nossa localização: Avenida Presidente José Bento, logradouro onde sobram lojas de autopeças. Finalmente conseguimos entrar na oficina, cuja amplitude e organização destoam das adjacências – estacionamento por ali é artigo de luxo. Um sujeito baixinho e despreocupado faz um prévio diagnóstico de que o problema pode ser no sensor de oxigênio e diz que “Só dá para entregar o carro amanhã”. Tudo bem, já estou no prejuízo mesmo, agora é resolver a bronca. Menos de vinte e quatro horas depois recebo um orçamento de R$750,00 (solicitei outros reparos de defeitos menores, como um vidro elétrico travando e limpadores do para-brisa meio gastos). Achei caro, mas o que fazer? “Que horas vocês me entregam o carro?”.

Um dos preconceitos arraigados que o politicamente correto passa longe é a tendência que tenho de achar que estou sendo enrolado por mecânicos mal-encarados. Ao primeiro contato, com olhares e perguntas desconfiadas, ainda mais para um ogro em automóveis como eu, penso que eles definem minha sorte. Dirijo desde os 21 anos e só Aldo, dono de uma pequena oficina em Lagoa Seca, conquistou minha simpatia e tranquilidade, com seu jeito franco de cobrar preços justos e fazer o serviço direito. E eu o traí exatamente nesse dia em que meu Palio cansado sofreu um infarto do miocárdio. Banquei um desses candidatos que estampam manchetes diárias nas editorias políticas em busca de conquistar nossas mentes, abraçando aliados que foram inimigos ferozes quatro anos atrás – a luta pelos contracheques é tão brutal que o tiroteio retórico atinge filhos, pais, esposas, avós, tataravós, sem nem um pingo de indignação dos ofendidos. “É a maturidade política”, dizem eles.

Na hora marcada, volto para pegar o carro. Era uma tal de sonda lambda, responsável pela medição da mistura de ar e combustível no sistema de exaustão. Se isso estiver desequilibrado, aumenta o consumo de combustível e pode causar a perda de potência (retirei a explicação da internet, como você deve ter desconfiado). A peça parece uma vela acoplada a um chicote de borracha. O baixinho magrela e despreocupado me avisa que tem outro problema e que isso me custará mais R$1.200,00. Sua explicação foi vaga. “É que o óleo está velho, criou uma graxa, pode bater o motor”. Paguei a conta e sai ligeiro daquele antro de malandragem. Fui direito em meu amigo Aldo. Ele confirmou que precisava abrir o motor para fazer a limpeza. Custo de minha irresponsabilidade: R$450,00 (incluído um novo óleo e seu filtro). Quase três vezes menos do que o orçamento dos ‘vadios’. Minha vontade era voltar e pedir a devolução de parte do dinheiro, pois sabia que tinha sido enrolado. Como nas eleições, aquela fatura foi alta e tinha ‘gordura’ para minguar o bolso de qualquer um. “Mas divide no cartão”, para você nem sentir a facada e achar que fez bom negócio.

 

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