O drible de Conca

Nenhum gol terá sido tão estupendo no fim de semana quanto o drible de calcanhar do baixinho Conca, do Fluminense…

Nenhum gol terá sido tão estupendo no fim de semana quanto o drible de calcanhar do baixinho Conca, do Fluminense no zagueiro Wallace do Flamengo. Hilário e festeiro. Debochado e desmoralizante, se transformou na estampa do Fla x Flu vencido com folga pelo tricolor no emblemático 3×0 das supremacias indiscutíveis. Das provocações piadistas de cerveja equilibrada em mesa de sinuca.

O drible é a arte superior do craque diante do medíocre. O que os idiotas da brutalização brasileira do futebol chamam de supérfluo foi sua matéria-prima responsável por magistrais vitórias e conquistas.

A jogada de Conca paralisou o Flamengo de vergonha. Ele está de costas, domina com o pé canhoto, desce a bola no bico da chuteira e gira sobre o marcador em agilidade tigresa, bola por entre as pernas do estagnado Wallace.

Conca dribla pois se mantém fiel aos seus princípios. Ao que aprendeu nas peladas de garoto, ao despertar das suas virtudes hoje ainda mais reluzentes diante da escassez brutal de habilidosos no futebol brasileiro.

Quem, cara pálida, é o driblador brasileiro além de Neymar? O Brasil pode – pode, sim, ganhar sua primeira Copa do Mundo jogando da forma robotizada da mais desengonçada das Noruegas. Ora, andam comparando o bom volante Paulinho ao gênio Paulo Roberto Falcão.

O drible é mais bonito que o gol. Frase de Denner, um poeta efêmero, augusto artista tornado anjo muito cedo, aos 23 anos. Um cinto de segurança esmagou-lhe o pescoço, conseguindo, tragicamente, o que raros zagueiros faziam sem apelar para a violência. Denner teria sido o Messi da perna direita, não há opinião catedrática ou científica que me prove o contrário.

O gol é mais importante que o drible, claro, é o orgasmo do jogo. O drible é a fantasia fundamental e disponível em gente da estirpe de Conca, um argentino fantástico e sequer cotado para a reserva do reserva na seleção do seu país, fiel às suas raízes, paixões e manias. Driblar é uma delas.

No Brasil, onde nasceu o maior driblador desde o Primeiro Mistério, é diferente. Somos um povo servil e importador de porcarias. Se for estrangeiro serve, nem que seja um cortador de grama chinês ou uma navalha iraniana. Até terrorista fica por aqui, como o italiano Césare Battisti.

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No país de Garrincha, um paupérrimo, pobre não tem mais vez no futebol. Tem que pagar para treinar e não há dinheiro para o principal: comer. Nem ex-craque malandro e sensitivo na percepção da joia rara, aparece para formar os futuros boleiros.

Em qualquer fase de divisão de base, do mirim passando por todos os subs que substituíram as naturais e simples escolinhas, os infantis, infanto-juvenis e juvenis, deveria ser obrigatória a disciplina prática chamada Garrincha.

Não tirou nota 7 em Garrinchês, não pode jogar bola. Está reprovado e relegado à cadeirinha confortável de uma arena. Não teve capacidade de enganar, na malícia, o oponente, jamais terá condição de improvisar e ganhar uma divisão num lance fora dos esquemas táticos.

Driblar é fundamental. Driblar é oferecer à plateia o prazer, a beleza que uma cena de filme clássico causa em emoção, colando na alma do homem ou da mulher pelo resto da vida. O drible é a esperteza sadia, sem maldade, é a elasticidade, é a plástica, é a ciência sem teoria na graduação dos bafejados pelo dom. Pela gentileza injetada no sangue e no cérebro.

Conca é aluno aprovado na disciplina Maradona, curso superior na Argentina. O precoce aluno, Messi, já é maior que o professor. No Brasil, prancheteiro com presunção e ranço de bedel, faz da grosseria própria, narcisismo ao avesso, impondo a correria e a marcação como prioridades, especialmente na garantia dos seus empregos.

O baixinho Conca, sem concorrente brasileiro na sua função de cérebro e finalizador, de arco e de flecha, brindou a ironizada resistência pela dimensão cultural numa peleja com um drible de gafieira. De samba e tango.

Causou espanto no país inteiro que exergou raridade numa ginga tão comum em qualquer desafio dos primórdios das peladas sacras. Era formar dois times de quatro magrelos num campo de areia e esperar pelo recital de dribles. Até mais belos que o de Conca.

 

Violência

Três baleados na saída do jogo do América diante do Santa Cruz. Típica emboscada. Foram perseguidos por motoqueiros e atingidos perto de um ponto de ônibus. Caso tratado na banalidade das estatísticas. Não aparece ninguém para agir de verdade contra os marginais que rondam o futebol. Na Arena das Dunas, o ingresso é caro, pobre está excluído. As gangues vão se enfrentar aterrorizando vizinhanças.

 

América na estreia

O América estreou contra o Santa Cruz fazendo o básico para vencer por 2×0. O técnico Leandro Sena exagerou em sua habitual cortesia ao dizer que o jogo foi duro. Menos, professor. A cabeça do América está mesmo ligada é no confronto com o CRB pela Copa do Nordeste.

 

Demissão

O Santa Cruz demitiu técnico após derrota para o América. Não deve ter sido pelo resultado, normal e previsível pelo jogo na casa do adversário. Poderia ter sido antes. Chamaria menos atenção. O Santa Cruz vem se mantendo com bravura no Campeonato Potiguar.

 

Chocante

As imagens da morte do militar reformado de 74 anos. O bandido sai de cara limpa de um carro, põe o capacete, toma a chave do Corolla do idoso que corre, atira e erra. O bandido então dispara, mata e sai correndo.

 

Caridade

Frase do comentarista Exmar Ravares resume o martírio de Corintians de Caicó 1×1 ABC: “Junior Xuxa sai de campo por questões humanitárias. “A Cruz Vermelha precisa ajudar.

 

Guerrinha

Na entrevista à Rádio Globo, Gláucio Uchoa disse o que muita gente próxima não tem peito para declarar. Foi duro e assumiu a cara da oposição. Cuidado apenas para não servir de instrumento.

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