O golpe que derrubou o golpista

Em março de 1964, o presidente João Goulart era apenas uma sombra disforme do Jango que fora eleito em 1960…

Em março de 1964, o presidente João Goulart era apenas uma sombra disforme do Jango que fora eleito em 1960 como vice-presidente pela coligação PSD-PTB-PST-PSB-PRT, derrotando os adversários Milton Campos (UDN-PR-PL-PTN) e Fernando Ferrari (PDC-MTR).

Candidaturas avulsas a vice-presidente, descoladas de um candidato a presidente, eram possíveis na legislação eleitoral de então. E Jango foi ser vice da gestão Jânio Quadros, o vencedor da disputa apoiado por uma aliança da UDN-PR-PL-PDC-PTN e que derrotou o general Henrique Lott (apoiado pelos mesmos partidos que lançaram Jango) e o prefeito de São Paulo, Adhemar de Barros, do PSP.

No ano seguinte, 25 de agosto de 1961, o eleito Jânio renunciou com medo de invisíveis e não reveladas forças ocultas. O vice Jango estava em viagem à China e o cargo foi assumido brevemente pelo presidente da Câmara Federal, Ranieri Mazzilli, deputado do PSD de São Paulo.

Mazzilli apenas sentou na cadeira, porque o poder em verdade ficou nas mãos de um triunvirato militar, formado pelos ministros da Guerra, Odílio Denis; da Aeronáutica, Gabriel Grün Moss; e da Marinha, Sílvio Heck, todos eles contrários à posse do latifundiário gaúcho João Goulart.

Só que em 2 de setembro o Congresso Nacional aprovou a Emenda Constitucional nº 4, garantindo a posse do vice-presidente, mas consagrando o regime parlamentarista. A posse foi no dia da Independência, uma ironia da História para um chefe de Estado com poderes limitados.

Quem mandava mesmo era um conselho de ministros, tendo no comando um primeiro-ministro. Já o gabinete parlamentarista foi formado por políticos dos partidos tradicionais, PSD, UDN e PTB. O nome do primeiro-ministro era Tancredo Neves, que a exemplo de Jânio Quadros renunciou em junho de 1962.

Tancredo foi substituído por San Tiago Dantas, que por sua vez deu lugar a Brochado da Rocha, que orientado por Jango e apoiado pelos ministros militares tentou antecipar para aquele mesmo ano um plebiscito sobre forma de governo. O Congresso, no entanto, marcou para o ano seguinte.

E em 6 de janeiro de 1963, o povo derrotou o parlamentarismo e aprovou o presidencialismo. A tática de Jango foi aquela que conhecemos até hoje: aumentou os salários de 75% dos funcionários públicos e garantiu a metade dos 18 milhões de votos apurados na eleição plebiscitária.

O presidente ganhou seu regime, mas continuou sem poder e começou a perder popularidade no rastro da inflação de 10% ao mês e de uma política de conciliação que gerava mais incerteza do que solução. O burguês rural juntou-se ao PCB e à CGT e partiu para uma saída louca: jogar a culpa no Parlamento.

Março de 1964 começou com o cunhado de Jango, o líder da esquerda gaúcha Leonel Brizola fazendo indagações: “E o presidente João Goulart tem o poder ou não? A esta altura dos acontecimentos, só nominalmente. É possível que ainda o tenha, desde o momento em que se decida exercê-lo em benefício dos autênticos interesses do povo”.

Aí o presidente decidiu entender que o povo eram os comunistas do PCB, os sindicalistas da CGT e os militantes marxistas da UNE, convocando então uma série de “comícios” em favor das mudanças que engendrava fazer, entre as quais reduzir a força do Congresso e se tornar uma versão canhota de Getúlio Vargas.

Em sua obra de dois volumes, “Como se coloca a direita no poder”, de 1981, o gaúcho Paulo Schilling deixa bem claro que Jango sonhava em instituir seu modelo de “Estado Novo” e governar com a esquerda, mesmo fazendo negociatas com a direita e multiplicando sua fortuna.

Para quem não conhece, Schilling foi braço direito de Brizola e durante o curto período do conterrâneo Brochado da Rocha como primeiro-ministro ajudou a elaborar propostas para as reformas de Jango. No final dos anos 1970, divergiu de Brizola e abdicou da ideia de fundar o PDT para se integrar ao grupo que lançou o PT.

Os comícios de João Goulart, iniciados com a grande manifestação de 13 de março no Rio de Janeiro, eram a mola propulsora para estabelecer um apoio popular para um golpe contra o Congresso e a favor de alterações radicais na Constituição, através dos conceitos esquerdizantes e sindicais do PCB, da CGT e demais organizações.

Goulart só não esperava que a sociedade brasileira fosse reagir tão maciçamente e saísse às ruas, a partir de São Paulo – poucos dias depois do comício no Rio – para exigir o fim da anarquia e da ameaça de implantação de uma ditadura comunista. E aí em 31 de março os militares deram o golpe dentro do golpe.

O país inteiro deu apoio à reação das Forças Armadas, começando pela imprensa escrita, falada e televisada, com exceção do jornal Última Hora, de Samuel Wainer. De 1964 até 1968, toda a imprensa brasileira demonstrou gratidão aos militares, a começar por Mino Carta (o amigo dileto de Lula) em editorial histórico na revista Veja.

O afastamento da mídia só se deu a partir da radicalização do regime, que para contrapor-se à onda de assaltos a bancos, sequestros de autoridades e ações terroristas, orquestrados por guerrilheiros de entidades clandestinas, partiu para uma guerra aberta, prendendo, torturando e matando. Em 21 anos de regime militar, morreram 216 oposicionistas.

Estamos distantes meio século daquele momento histórico, mas setores minoritários do país continuam tratando o fato como se fosse ontem, usando-os para suprir a ausência de outros argumentos para o debate nacional sobre o futuro do Brasil. Quando a Segunda Guerra acabou, em 1945, apenas onze meses depois a política mundial seguiu seu curso normal, a partir dos julgamentos de Nuremberg.

Alemanha, Itália e Japão logo se incorporariam à ONU, e as feridas físicas e morais dos dois lados em conflito foram sanadas e lançadas nos arquivos da História. O Brasil de 2014 não enxerga um palmo adiante, porque a sombra do revanchismo e do atraso político continua olhando para trás. E se Jango tivesse implantado a republiqueta sindical-comunista, como estaria hoje o país? Moderno e avançado como Cuba e Venezuela, regimes-modelos dos que falam em verdade contando mentiras? (AM)

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    • Antônio Melo

      Me deixa pasmo, meu caro amigo Alex, seu comentário à respeito do golpe de 1964. Para você, foi legítimo que um general empunhasse seu charuto, colocasse a tropa na rua e derrubasse um governo legitimamente eleito pelo povo? É esta a democracia, caro amigo, que você enxerga?
      E que depois esse generais-presidentes tenham, de seus gabinetes, patrocinado a tortura, os assassinatos e o terrorismo praticados contra os que lutavam contra a ditadura?
      Você também se alinha entre aqueles que defendem que não se punam os carrascos da ditadura, em nome de uma anistia que serviu e beneficiou apenas um lado, já que o outro teve seus membros mortos em combate ou tortura, “desaparecidos”, banidos, exilados, condenados em tribunais militares?
      E essas bestas humanas que cometeram tantas atrocidades, que sequestraram crianças de cinco, seis anos para tortura-las na frente dos pais, ou para exibir a elas os pais torturados, nus, humilhados? Ou aquele coronel do exército que contou sem nenhum arrependimento que depois de matar as vítimas em sessões de tortura, arrancava-lhes os dedos e os dentes para que não pudessem ser identificados?
      Esses, nunca foram julgados. Ao contrário: foram condecorados pelo estado brasileiro. A anistia que você fala, só beneficiou a essas bestas humanas.
      O Brasil precisa ser passado à limpo. Poucos anos antes, tivemos um outro ditador, Getúlio. Perseguiu, prendeu sem ordem judicial. Com seu carrasco Felinto Muller, fez da tortura uma prática do seu governo. Entregou Olga Benário, mulher de Prestes, para morrer num campo nazista.
      E foi também “anistiado” pela comoção que sucedeu ao seu suicídio. E, por isso mesmo, pela impunidade exemplar é que outros se animaram a promover essa longa noite que durou 21 anos.
      Revogar a farsa da anistia é o mínimo que pudemos fazer.
      Antônio Melo

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