O homem que dava livros – Alex Medeiros

Numa das últimas fotos postadas por Miguel Josino em sua página do Instagram, ele está no pátio da charmosa Livraria…

Numa das últimas fotos postadas por Miguel Josino em sua página do Instagram, ele está no pátio da charmosa Livraria da Travessa, no Shopping Leblon, no Rio de Janeiro, exibindo para os amigos uma sacola repleta de livros, uma das suas grandes paixões.

Poucos como ele, ninguém com a mesma intensidade, fazia dos livros um elemento de lembrança dos amigos, um ritual constante em suas viagens, quer fossem a passeio ou a trabalho. Onde estivesse, regava suas amizades com líteras doses de conhecimento.

Porque para ele, distribuir livros para os mais chegados era uma forma de estar sempre compartilhando um prazer que a sua generosidade não permitia espaço para o egoísmo. Era também sua essência de professor, dedicado à missão de interagir com terceiros.

Cada boa leitura experimentada por Miguel provocava nele o ato automático de desejar ampliar o alcance daquela mensagem para alguém querido. Distribuir conhecimento foi seu maior ofício o tempo todo, no pouco tempo que a luz da sua vida nos iluminou.

É quase impossível haver um amigo, um familiar de Miguel Josino, que em algum momento não tenha recebido dele o presente de um livro. Ou de uma outra coisa que carregue em conteúdo a essência do saber. Era como se usasse a saudade para ensinar.

Tenho vários livros trazidos por ele de algum lugar do mundo. Sabedor das minhas manias de pesquisar futebol e rock ‘n’ roll, costumava telefonar para informar de um achado, expressando na conversação sempre o mesmo entusiasmo que lhe era peculiar.

Inesquecível a vez em que telefonou do Rio de Janeiro, onde após algumas pesquisas nos sebos da Praça Tiradentes e adjacências, no centro velho da Marvel City, para avisar que tinha encontrado uma joia, mas que só revelaria quando da entrega, pessoalmente.

Guardo como um tesouro uma primeira edição da autobiografia “Zizinho, o Mestre Ziza”, lançada em 1985 por um dos maiores gênios do futebol nacional, o cara que foi ídolo de Pelé. Meu exemplar garimpado por Miguel tem o autógrafo do craque.

Nenhum dos seus tantos amigos estão conseguindo explicar em palavras o impacto da sua trágica morte. Incrível como um estreito espaço entre apartamentos e uma altura de apenas três metros se transformam num abismo de dor e abrem um vazio tão grande.

Nas palavras de Karla Motta, sua eterna musa e seu infinito amor, há o quadro que dói mais em todos nós: “um dia feliz, um churrasco caseiro, um escorregão, o fim do mundo”. E Miguel se foi num domingo, celebrando a vida com familiares e amigos.

Ao lembrar seu estilo de viver, o alto astral que inseria nos seus sonhos de futuro, os projetos profissionais, fica aquela tenebrosa sensação de que ele foi arrancado do nosso convívio, sem que a todos fosse dada uma chance de se preparar para a triste surpresa.

Miguel Josino era um homem de muitos amigos, mas acima de tudo de uma legião de admiradores, consequência direta da sua sabedoria e da maneira contagiosa de exprimir positividade. Há uma gigantesca sombra de orfandade sobre Natal desde ontem.

A cidade perde um dos seus quadros mais qualificados, o mundo jurídico abre um buraco difícil de tapar, a parca cena cultural e docente fica num desfalque intelectual sem tamanho. As confrarias literárias, gastronômicas e cinéfilas se empobrecem.

Agora fica em nós, em estado permanente, a saudade que ele cultivava em generosas doses de carinho à distância, quando viajava. Seu legado fica nos ensinamentos diários, no amor das suas “meninas”, como se referia a Karla e às filhas. Fica nos livros que usava para mimar os amigos. Mas fica também o vazio. Dolorosamente enorme. (AM)

E eu pensando que a ausência de Dilma Rousseff na abertura oficial da Copa do Mundo era apenas uma tática do PT para fugir às vaias que a cada dia se multiplicam pelo país afora. Parece que não é isso. Parece que é pelo fato do Estado brasileiro nos dias de jogos perder o seu status (perdão do involuntário trocadilho) para a FIFA.

A partir de agora, a mafiosa entidade de tantas falcatruas pelo mundo passa a gerir todos os espaços públicos em torno das milionárias arenas da Copa, tomando posse das áreas urbanas que representam diversos quarteirões, incluindo neles as residências da população e os empreendimentos privados.

Quem mora próximo a uma das doze arenas terá que pedir licença à FIFA para se locomover de casa para a rua e vice-versa. Vai precisar se cadastrar, como nas guerras, para ter o direito de ir e vir durante a temporada de jogos das seleções. É o país entregue ao comando e desmando de uma entidade privada, cuja única finalidade social é o lucro.

No nosso caso local, um dos moradores mais próximos do “elefante branco” da OAS é o ex-governador do RN, Geraldo Melo, que construiu sua residência em Lagoa Nova há bem meio século e de lá viu o bairro e a cidade crescerem à sua volta. Ao voltar para Natal, ele encontra o quadro narrado acima e se manifesta na sua página do Facebook.

Segue abaixo o comentário de Geraldo postado na famosa rede social. Suas palavras representam a de muitos que enfrentam agora o mesmo problema: estão na área de interesse da FIFA e dos patrocinadores da Copa. Leiam o que diz um ex-governador de estado e um ex-senador da República:

“– Estava ansioso pra chegar em casa, depois de uma temporada fora do Brasil, mesmo sabendo que estaria voltando ao desconforto de estar morando dentro de um canteiro de obras, sem reclamar nada.

Mas, já tive de encarar com indignação o primeiro absurdo.

Desde a minha campanha de governador, há séculos, venho repetindo que “o governo não é patrão do povo”. Como sabemos, é o empregado mais caro que o povo tem.

E por que estou reclamando? O que foi que houve?

Foi uma pequena coisa. Pode parecer insignificante. Mas não é.

Acabei de mandar a minha carteira de motorista e outros papéis para PEDIR LICENÇA PARA ENTRAR NA MINHA CASA durante a copa do mundo.

O cadastramento é necessário? É. Certamente.

Mas, se o governo não pensasse que é patrão do povo, estaria mandando pessoas educadas a todas as casas em torno do estádio, cujos moradores e carros precisam ser cadastrados.

Essas pessoas deveriam levar consigo todo o material – passes, adesivos para os carros, licenças, carimbos, essas coisas de que os burocratas tanto gostam – para entregar aos moradores, repassando-lhes as informações sobre como funcionarão os transtornos que eles ainda devem suportar.

E deveriam aproveitar a visita para pedir desculpas pelos enormes transtornos que já causaram e ainda estão causando a todos nós enquanto executam obras que nenhum de nós pediu para que fossem executadas.

Mas, não. Somos nós que temos de ir lá, aos locais que eles escolhem,, levar os papeis que eles querem, entrar nas filas que eles organizarem para recebermos deles autorização para entrar em casa.

Só falta termos de pedir desculpas por estarmos morando por estas bandas e dando esse imenso trabalho a eles”. (Geraldo Melo)

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