O inverso do avesso – Rubens Lemos

A Suécia é tratada até hoje como uma anfitriã exemplar, do tipo que recebe o visitante com pétalas, oferece a…

A Suécia é tratada até hoje como uma anfitriã exemplar, do tipo que recebe o visitante com pétalas, oferece a própria cama, prepara o cardápio suculento e se desdobra em carinhos durante a estadia.

Para deixar um primor a grama encharcada do demolido Estádio Rasunda, palco da final de 1958, os súditos do Rei Gustavo Adolfo foram encarregados de secar, mobilizados em uma tropa de voluntários a despejar a água acumulada de um temporal imprevisto, espremida em baldes de latão.

O figurino anterior das Copas do Mundo é a prova maior de que o futebol era o principal. Os suecos do Rei Gustavo Adolfo, rebaixado à quinta posição na hierarquia por Garrincha, Pelé, Didi e Vavá, ainda teriam cometido uma indelicadeza, segundo os exigentes e melindrados brasileiros.

Brasil e Suécia sempre usaram uniformes iguais e talentos cuja distância media-se pelos anos-luz. Hoje, nem tanto. Camisa amarela e calção azul. Times classificados para a decisão, a CBD, comandada pelos cartolas João Havelange e Paulo Machado de Carvalho, o Marechal da Vitória, esperava o cavalheirismo extra e olímpico dos nórdicos: jogar de azul e deixar o Brasil de amarelo, cortesia receptiva. Eles impuseram sorteio.

Em 1958, desacreditada, a seleção brasileira embarcou no DC-7 da Panair, charmosa companhia de aviação que se tornou um dos símbolos da alegria e autoestima nacional nos Anos JK. A Panair foi uma das vítimas da Ditadura e fechou até hoje sem explicações razoáveis. No avião, havia material amarelo e azul.

O Brasil vestiu amarelo nos 3×0 contra a Áustria, no 0x0 contra a Inglaterra no Garrincha, Pelé e Vavá 2×0 União Soviética, no 1×0 contra País de Gales e nos 5×2 contra os franceses de Kopa, o quase Didi deles, Piantoni e Just Fontaine.

As camisas azuis foram usadas nos treinos e estavam em petição de miséria quando chegou a notícia de que o Brasil – que, em protesto, não mandou representante – perdeu o sorteio que definiu a Suécia vestindo seu padrão original. Sobraram três cores para a escolha agoniada: o escrete entraria de verde, de branco ou de azul.

À simples menção do uniforme branco, homens experientes, acostumados com jogos difíceis e cumprindo campanha irretocável, baixaram a cabeça. Reapareceram, cínicos, fantasmas e tabus do Maracanazo de 1950, tragédia que nenhuma vitória do Uruguai fez radical saudosista esquecer.

A lembrança do time de Barbosa, Danilo, Zizinho, Jair Rosa Pinto e Ademir Menezes, derrotado pela Celeste e a própria soberba no Maracanã, oito anos antes, fechara o semblante de 21 jogadores.

Menos Garrincha, para quem a Suécia era um Bonsucesso com certa grife. Garrincha, por sinal, achava a Copa um torneio “mixo”, pela falta de segundo turno. Sua preferência era o Campeonato Carioca e os passeios em Coronel, do Vasco, Altair, do Fluminense e Jordan, do Flamengo.

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Superstição e futebol formaram a primeira tabelinha ludopédica. Engana-se quem pensa que a patente é de Pelé e Coutinho em seus duetos na magnífica linha atacante do Santos . Se uma camisa dava sorte na vitória, com ela eu iria no clássico seguinte e no posterior, nem que houvessem três, um no domingo, outro na quarta e outro no domingo.

Em 1958, Paulo Machado de Carvalho, usou o mesmo paletó marrom, da estreia até a conquista da Jules Rimet. Durante as reuniões fora da concentração, nas entrevistas aos repórteres brasileiros e estrangeiros e nas fotografias. Malandros, tipo Nilton Santos, davam como certa a aparição da imagem noturna e assombrosa do paletó passeando sozinho pelos compartimentos da bucólica mansão de Hindas.

O Marechal da Vitória, apelou aos céus, invocou Nossa Senhora Aparecida e o seu manto para decidir pelo azul. Foram compradas novas camisas no comércio de Estocolmo e os distintivos foram costurados e colados no fardamento histórico da decisão. “O manto de Nossa Senhora nos deu a vitória!”, bradava Paulo Machado de Carvalho, exalando um odor menos repulsivo que o dos suados e heroicos campeões.

Na estratégia de remake no bicampeonato em 1962, o Brasil levou quase repetiu o time, a comissão técnica idêntica só mudou o técnico e seguiu no avião de 1958 com igual tripulação. Aqueles homens ganhariam qualquer campeonato se entrassem em campo nus em pelo.

Uma geração movida pelo irracional dos lances mágicos e sucessivos, da criação em verso e prosa de Garrincha. O verso da métrica imperfeita dos seus dribles imarcáveis e inéditos na repetição do corte brusco pelo lado direito.

Sim, Garrincha também era prosa porque suas criações repeitavam roteiro: o começo, o meio e o fim de suas jogadas prontas para a conclusão a gol em cruzamentos, passes ou simplesmente no desmonte sumário de esquemas riscados pelas suas formas tortas e a inteligência intuitiva. Garrincha era um doce infante colecionando vítimas ridicularizadas sem intenção do menosprezo.

As imagens do bicampeonato, as lendas contadas, mostram torcedores invadindo gramado em gols decisivos, lágrimas passionais na arquibancada e nos rostos libertos dos craques derrotando o trauma.

A apoteose da simplicidade, dos calções de cadarço de cordão, de expressões alegóricas e aleatórias de quem sabia sem esnobar da superioridade no traço e no samba dos cortes, firulas e suaves finalizações.

Universo onde a bola e os seus amantes valiam muito mais que obras faraônicas, imagens em tecnologia impecável, narradores, comentaristas e bagres transformados em mitos de comédias milionárias.

Holanda devastadora

Depois de escrever o texto acima, a Holanda tratou de me reapresentar ao futebol. De maneira alucinante, alucinógena. Uma devastação laranja destruindo a Espanha cansada e humilhada.

Sentimento

A piedade é sentimento cômodo e por vezes, covarde, mas qualquer ser humano razoável teve que recorrer aos seus analgésicos. Deu pena da Espanha. Transformada em Ibis, aquele time pior do mundo de Pernambuco. Nem tanto por defeito. Pelo mérito assombroso do adversário.

Van Persie e Robben

O que jogaram ontem Robben e Van Persie ninguém jogou durante os últimos quatro anos. Absolutamente ninguém em 90 minutos. Os dois dividiram por dois a possessão de Amarildo, substituto de Pelé na Copa do Mundo de 1962.

Medo

O mundo está com medo da Holanda. Não deveria. Deveria estar eufórico. Futebol de verdade é aquele. Com todos os fundamentos respeitados.

Casillas

O veterano goleiro estudou com Júlio César.

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