O irreverente Dr. Castanha revoluciona a venda de castanhas em Pirangi

Natural de João Câmara, Inaldo Lucas de Paiva criou personagem cômico para curar uma depressão e revolucionar a vida financeira

Dr. Castanha, personagem humorístico que seduz turistas na praia de Pirangi. Foto: Divulgação
Dr. Castanha, personagem humorístico que seduz turistas na praia de Pirangi. Foto: Divulgação

Conrado Carlos
Editor de Cultura

Inaldo Lucas de Paiva estava prostrado diante da tevê com uma forte depressão que parecia incontornável. O motivo: pouco importa. Como todo melancólico, assumir fraquezas surte efeito dobrado, com a autopiedade e a vergonha emparelhadas milimetricamente. Após uma década de peregrinação por Belém, Recife e Brasília, cidades onde trabalhou de perueiro, servente de pedreiro e outros subempregos, o retorno a João Câmara significou uma derrota. Uma derrota impiedosa, naquele pequeno município que lhe oferecia a venda de galinhas e macaxeira como única forma de sobrevivência. Até que o acaso, ou Deus, como faz questão de frisar, enviou uma luz para a escuridão reinante. Em um programa televisivo, um médico enumerava os benefícios da oleaginosa que enfrenta a seca para se firmar entre os alimentos típicos do Nordeste. “Foi quando eu vi que podia reagir. A estrela brilhou para mim”. Era o nascimento do Dr. Castanha, personagem humorístico que seduz turistas na praia de Pirangi e reordenou finanças e o juízo de seu criador.

Quem vê Dr. Castanha na calçada do Restaurante Pirangi, na esquina que antevê a subida rumo à Búzios, Barra de Tabatinga e demais praias do litoral sul, abre um sorriso. A figura cômica, travestida com jaleco, chapéu e óculos enormes é amplificada por um microfone acoplado a uma pequena caixa acústica presa à sua cintura. Inaldo grita: “Só acordo para vender!”. A mesma frase estampa uma placa que anuncia a barraca posicionada no lado oposto a entrada do Cajueiro. Sua rotina inclui um expediente que começa às sete horas da matina e termina no início da noite. Idas a João Câmara, onde se abastece de castanha natural, servem para matar a saudade da esposa e da filha de 12 anos. De segunda a sexta, ele mora em um hotel praiano, mas costuma adentrar a região da Baixa Verde toda semana. Uma parceria com o supracitado restaurante garante alimentação e marketing – um boneco alusivo foi construído para chamar a atenção dos passantes.

“Cheguei em Natal no dia 04 de outubro de 2011 com um carrinho de mão, uma bolsa com roupas e R$120,00 em castanha. Era tudo que eu tinha. Hoje minha família vive bem, tudo do dinheiro que eu tiro daqui”. Depoimentos prolongados são difíceis de ser extraídos do homem que superou nove meses de treva emocional com bom humor e fé no valor nutritivo do produto comercializado – a lista de ganhos para a saúde que o consumo moderado da castanha pode trazer é vasta; do fortalecimento do sistema cardiovascular, ao controle dos níveis de colesterol, ela qualifica a memória e o poder de concentração, tem propriedades antioxidantes, o que combate o envelhecimento celular, e atual diretamente nos sintomas da Depressão, por ser rica em um aminoácido chamado L-triptofano. Durante a entrevista, na hora do almoço da última quinta-feira (23), o Dr. Castanha era interrompido a cada cinco minutos. Um dos clientes foi o mineiro José Bonifácio, que veio acompanhado da mulher para aproveitar uma semana de verão nordestino.

Encantado com as belezas naturais do litoral potiguar, ele comprou dois sacos de castanha e criticou os preços abusivos cobrados pela alimentação. “Estou gostando muito de Natal. A Cidade é linda, Estive também em Pipa, Tibau do Sul e Barra do Cunhaú. Mas a comida aqui é horrível e cara. Paguei R$60,00 por um peixe numa barraca que estava muito ruim. O melhor que comi até agora custou R$7,00 em Cunhaú, num lugar bem simples”. O xará do Patriarca da Independência brasileira fez questão de tirar fotografias com o Dr. Castanha – uma das pessoas de seu grupo registrou o episódio inúmeras vezes em um tablet. Ninguém desconfiava que tudo começou em Porto de Galinhos, Pernambuco. Foi no ponto badalado do Estado co-irmão que Inaldo arriscou negociar a saborosa amêndoa, como um exorcismo de um passado que revela um período na Serra do Cachimbo, acidente geográfico no violento sul do Pará, fronteira da Amazônia com o Cerrado, e rico em minérios.

A melhoria psíquica e financeira deu a oportunidade de ajudar pessoas carentes – segundo o próprio, cerca de uma tonelada de castanha sai das mãos do médico maluco que tem o sonho de virar revista em quadrinhos. Brinquedos são doados a 120 crianças de João Câmara na festa natalina e um projeto social em Pirangi, chamado Craque Bom de Escola e Bom de Bola, tem contribuído para manter um grupo de garotos longe da delinquência. Com orgulho, cita o material doado. “Dei duas traves mirim, seis bolas e dois ternos completos”. O crescimento da personagem chegou a tal ponto que, além da mídia local (breve entrevistas para as TVs Assembleia, Cabugi e Tropical), redes da Alemanha e do Uruguai quiseram saber quem é aquele sujeito pitoresco que faz barulho enquanto vende iguarias. Evangélico, 45 anos e dono de uma eloquência midiática, Inaldo diz que seu humor surgiu com a comunicação humana. Em um inglês titubeante, ele desvela: “I’m Doctor Castanha for the world I come”.

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