O jogo da sucessão

No confronto tradicional a luta é travada entre dois polos que tentam fixar o velho modelo do maniqueísmo. De tal…

No confronto tradicional a luta é travada entre dois polos que tentam fixar o velho modelo do maniqueísmo. De tal forma, que um lado possa vestir-se do bem e cobrir o adversário com as vestes do mal. Vence, quem, de fato, simbolizar esse bem no imaginário popular, levando o forte discurso da mudança com a marca da renovação ou da conquista de um futuro melhor. Da esperança, como impôs o aluizismo nos anos sessenta, ou dos ventos fortes como Geraldo Melo na campanha para o governo.

Para fixar o maniqueísmo, além dos inerentes elementos da empatia pessoal de cada lado, há de existir uma nitidez de símbolos. O novo não pode ter a marca do continuísmo, de grupos e de métodos, sob pena de cair no falso e descredenciar-se diante do eleitor. A partir daí, surge a grande dúvida: na sucessão deste ano, quem representa o governo? Quem governou ou quem manteve um discurso contra o governo? Ou, sendo mais objetivo ainda: quem simboliza o governo e quem representa a oposição?

No chapão montado em torno do PMDB dois dos três nomes governaram com a governadora Rosalba Ciarlini: Henrique Alves, candidato a governador, que indicou secretários e foi aliado ao longo de três anos; e João Maia, o vice, com idêntica e direta participação. E a ex-governadora Wilma de Faria, candidata ao Senado, o mais forte símbolo da oposição ao governo rosalbista com sua intensa retórica de confronto ao longo de todo o governo e, até hoje, na oposição clara sem conceder trégua.

Qual será o discurso do chapão que hoje une candidaturas de origens tão díspares? Governista, por coerência do seu líder, o deputado Henrique Alves? Ou de oposição, se prevalecer a carga forte da ex-governadora, a mais expressiva liderança popular do conjunto? Ou esse discurso tergiversará para a retórica pífia da união pela salvação do Estado, como parece pelo ensaio de até agora? O artifício vai funcionar ou a oposição será capaz de sintonizar e capitalizar o estado de fadiga que parece latente?

A tarefa não é das mais fáceis, sem que se queira negar a autenticidade dos nomes reunidos no chapão, assim como sua inegável tradição e experiência políticas. O desafio, no caso, se desloca para os lados da oposição. É ao discurso oposicionista que cabe fixar a autenticidade e a força da retórica de confronto e com sua eficiência. Conquista que passa não por um bem urdido discurso, e também pela força de uma construção capaz de flagrar o adversário nas culpas e comprometimentos com o passado.

Nesse contexto, não se pode negar a coerência de Robinson Faria com sua bandeira de oposição ao longo de praticamente todo o governo na sua caminhada solitária; e Fátima Bezerra com a marca petista. Mas, também não se pode a negar a falta que faz a presença de um nome que poderia mudar o tom da disputa: Carlos Eduardo Alves. Ele, pelo novo que conseguiu representar nas últimas lutas quando enfrentou a própria família. E que hoje, por lisonja e comodismo, é um aliado sem território.

NOTA – I

O texto da ex-governadora Wilma de Faria, na condição de vice-prefeita desincompatibilizada, embora singelo – e talvez por isso – teve um mérito: confirma que só soube da viagem do prefeito na imprensa.

ESTILO – II

O fato deixou claro uma coisa lamentável na sua sinceridade: o jeito sonso que marca a vida política e ardilosa nesses tempos em que o artifício se sobrepõe à clareza de atitude. O sabido vence o corajoso.

ALIÁS – III

Não é à toa que a classe política brasileira para alguns estudiosos vem demonstrando sinais evidentes de degradação dos hábitos e costumes. E uma classe política desacreditada ameaça a própria cidadania.

BRASIL

O Supremo Tribunal Federal em reunião plenária decidiu: o ex-presidente Fernando Collor é inocente das acusações de peculato, corrupção e falsidade ideológica. Sua queda, neste caso, foi uma injustiça?

ACREDITE – I

O governo Rosalba Ciarlini vai investigar a morte estranha de doze saguis. Enquanto três centenas de assassinatos de pessoas nos últimos três anos continuam sem qualquer investigação. É puro nonsense.

POR – II

Nonsense – entenda-se – é tudo aquilo que os dicionários dizem ser disparatado. É como dizia o velho Darcy Ribeiro: se criança no Brasil nascesse com cara de mico-leão-dourado daria inquérito e cadeia.

LAURO

Esta coluna errou. O lançamento do livro de memórias do médico e ex-deputado Lauto Bezerra vai hoje, início da noite, na Livraria Saraiva, do Midway. Lauro é o contador de histórias e sabe contá-las.

AVISO

Sem que tenha culpa, o prefeito Carlos Eduardo Alves pode ter problemas com fiscalização e medição de algumas obras vultosas, e vultuosas, da mobilidade. Coisas do reinado da danação sutil e ardilosa.

SAÍDA – I

A institucionalização, por decreto, de um Sistema de Cultura, como fez o governo da Paraíba, é a única saída para o RN não perder o acesso aos recursos do edital de R$ 30 milhões do Ministério da Cultura.

CLARO – II

Que o ideal teria sido institui-lo depois de discussões com instituições, se estas não fossem, como são, fóruns de aprovar as velhas, cansadas e ridículas moções de parabéns. Ou decreta ou ficaremos de fora.

SANTO

Monsenhor José Mário, postulador da beatificação do padre João Maria, estaria estimando em 500 mil euros toda a despesa com viagens de pesquisa e preparação, laudos médicos e taxas junto ao Vaticano.

DESERÇÃO

Em dois anos de pontificado de D. Jaime Vieira balanço das deserções aponta a perda de cinco padres que abandonaram o sacerdócio. Nos governos de D. Matias e D. Heitor foram dois. Estamos piorando.

CONVERSA

O Instituto Cortez Pereira, do PDT, reúne militantes na sua sede – Rua Ezequias Pegado – hoje, às 16h, num papo sobre jornalismo e política. Para incursões não muito conclusivas, mas por vezes animadas.

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