Home > Colunas > O lado certo da vida errada

O lado certo da vida errada

Data: 11 março 2013 - Hora: 14:38 - Por: Conrado Carlos

Aos poucos, o Brasil vai formando seu panteão de rockers malucos que morreram no exercício da profissão. Cazuza, Cássia Eller, Chico Science, Renato Russo viveram intensamente os excessos que o mainstream oferece e deixaram uma leva de fãs que enxergam, nesses indivíduos, algo além da música (Rodolfo, dos Raimundos, tinha lugar cativo no clube, mas ‘acordou para Jesus’ na última volta).

Gosto da teoria de André Barcinski, da Folha de São Paulo, que valoriza essa geração por não recorrer a MPB para forjar uma sonoridade – como muita banda queridinha do momento. Podemos até não simpatizar com o som que eles fizeram, mas todos deixaram um legado respeitável e, com exceção do mangue boy pernambucano, abusaram do coquetel que encanta a juventude desde que Jimi Hendrix, Jim Morrison e Janis Joplin cometeram uma espécie de suicídio.

Chorão falava sobre fazer a cabeça, de mulheres que gostam de transar no escuro, de senadores que dormem tranquilos, que o escritório dele era na praia. Liberdades típicas de um jovem urbano que despreza os poderes oficiais, valores comercializados por gente com o caráter no Serasa e encontra em artistas o compromisso com a verdade, livres de subterfúgios para ludibriá-lo.

Os discos lançados a partir de 2004 apresentaram repetição de temas e esgotamento da relação com Marcão, Champignon e Pelado (competente formação original responsável por três discos que considero dos melhores do rock nacional: “Preço curto, prazo longo”, “Nadando com os tubarões” e “100% Charlie Brown Jr”), culminando com a saída do trio e a efetivação do lado comercial como prato principal.

Mas o que esses caras gravaram no final dos 90s e começo dos 2000s, merece uma nova chance para quem entortou  o nariz à época ou para quem os que conheceu já entorpecidos pelo sucesso que abafa a criatividade – botar musiquinha em trilha de novela ou série da Globo pode ser fatal.

Psicólogos gostam de falar do tal Sistema de Apoio em casos de depressão. O sujeito sofre com a patologia psíquica e procura ajuda nos amigos, no trabalho, na religião, no sexo. As drogas eliminam a necessidade de companhia. Geram uma introspecção e uma suposta autossuficiência que afunda o viciado na melancolia, no isolamento, com pena de si mesmo e raiva de todos.

As fotografias do apartamento onde o corpo de Chorão foi encontrado revelam o ambiente degradado característico de um depende químico (sujo, bagunçado, destruído). Sua ex-mulher confirmou que o fim do casamento de 15 anos, suposto motivo da tormenta astral dos últimos meses, foi motivado pelo caso que ele tinha com a cocaína.

Mas e daí? Chorão viveu uma eterna adolescência. Já em 2000, auge do Charlie Brown Jr., o ‘vagabundo do skate’ cantava “Cocaína mata um, [...] eu já fui um otário, sim [...] mas conheço manos que foram até o fim”, em “A Banca”, faixa do disco “Nadando com os tubarões”, parceria com o rapper Sabotage (assassinado três anos depois por um traficante). A consciência do flerte com a morte está presente em várias outras músicas.

Apesar do dinheiro que ganhou, Chorão nunca abandonou a vida marginal. E por isso é amado por muitos. Em tempos de grupinhos assépticos e pseudossofisticados, aquele escracho de “O coro vai comê!”, o ‘flagra’ de “Confisco” e o virtuosismo, porque não?, da instrumental “Fundão” mostra o quanto já fomos melhor nisso – agora é tudo Vanguart.

Sem os excessos, Chorão riria além da conta. Era exatamente quando demonstrava otimismo que o lado pop aflorava – e os detratores esbravejavam. Nos álbuns do ápice criativo (entre 1998 e 2002), tinha um quê de tristeza, de fúria contida contra algo do subterrâneo. Letras e riffs estavam em simbiose com a figura imponente, largada, explicitamente chapada.

Os últimos anos tinham sido pobres, artisticamente. Um piloto automático para manter as contas em dia. Assim como Elvis, que definhou em uma fazenda até os mesmos 42 anos, Chorão entregou o cetro deificado que o conduzira ao seleto grupo de popstars nacionais. Vulnerável e clamando por um socorro que não veio, ele sai de cena como um eterno garoto de periferia que expos suas agruras com virulência em linhas melódicas.

 

Bonitinho, mas ordinário

Uma cantora considerada por parte da crítica brasileira como dona de uma voz que nos remete aos anos 1950, tempo em que das divas do jazz eram sumidades, se junta a três músicos experientes e remanescentes da banda Música Ligeira (trio que marcou presença nos 90s como expoente da música pop de câmara) para lançar um álbum com standards do rock e do jazz.  É o que aponta este Blubell & Black Tie.

Lançado em janeiro último, o disco é considerado pela própria cantora paulista como um trabalho independente em sua discografia oficial. Com dois discos na carreira, Blubell tem uma voz limpa, doce, que se estende bem por sussurros e ironias. Ela esbarrou com o violista Fábio Tagliaferri, do violonista e violoncelista Mário Manga e do violonista Swami Jr., e resultou em versões para temas de Michael Jackson, Edith Piaf, The Who e Celly Campello e até Beatles.

Os arranjos bonitos e o repertório especial formam um conjunto agradável para ouvidos sensíveis e otimistas, mas desperta a desconfiança de quem gosta de som mais visceral (e original). Bons momentos são oferecidos em “Billy”, de Campello, “Long Long Long” de George Harrison e, sobretudo, em “Luz Negra”, de Nelson Cavaquinho – que era o caminho a ser seguido em todo o CD, com lirismo, dramaticidade e melancolia na dose certa.

No restante das músicas, deram uma suavizada em “My Generarion”, clássico do Who, abusaram de temas batidos, como “La vie en rose” (Edith Piaf) e “It’s Oh so quiet”, gravada por uma penca de gente (de Björk a Beyoncé), e deixaram a sensação de que o potencial do quarteto foi mal explorado.  C.C.

 

Morre Alvin Lee

Um dos maiores nomes do blues-rock morreu quarta-feira passada (06): Alvin Lee, o líder do Ten Years After. Duas décadas antes de Yngwie Malmsteen e Steve Vai assombrarem com um virtuosismo por vezes cansativo, ele cravou sua banda entre as mais badaladas no final dos 60s, e impunha respeito com bandas então novatas, como Black Sabbath e Led Zeppelin.

Com um bom marketing, algum promotor estaria agora pensando em um tributo com grandes nomes do rock. Lee sabia que estava no mesmo patamar de Jimmy Page, Peter Townshend, Tony Iommi, Jeff Back (com o diferencial de cantar bem). Mas amargou uma certa obscuridade – ele teria sido um dos mencionados para ocupar a vaga de Brian Jones, nos Rolling Stones.

Sua banda protagonizou dois festivais icônicos: o da Ilha de Wight e Woodstock. Recentemente foi lançado um DVD do TYA no Brasil: “Live From Marquee Club, London”. Escrevi sobre ele na semana passada e volto a destacar a qualidade do show realizado em 1983, dentro de um projeto que homenageia um dos templos do rock na capital britânica.

Alvin Lee tinha 68 anos, e sucumbiu a uma cirurgia de rotina, como informa o boletim médico. Vale uma busca pelo Youtube pela música “I’d love to change the world”, em Woodstock (1969). Em poucos segundos, temos a explicação do porquê e sua mágoa por ver os correlatos no Olimpo dos Deuses Guitarrísticos, enquanto virarava mero figurante. C.C.

Notícias Relacionadas
  • TAGS: