O mistério do buraco

Francamente, Senhor Redator, deve existir uma ontologia do buraco. Naquele sentido filosófico e aristotélico que só a alguns poucos é…

Francamente, Senhor Redator, deve existir uma ontologia do buraco. Naquele sentido filosófico e aristotélico que só a alguns poucos é dado compreender nos intrincados meandros do ser. Ou há uma teologia do buraco, se é feito de crença, e não de técnica, esse enfrentamento que se trava na Avenida João Medeiros ao sopé do Viaduto de Igapó? Pela terceira vez o buraco reabriu. Sempre maior e muito mais profundo. E agora sem precisar da chuva que antes justificava o fracasso dos nossos especialistas.

Nem por isso, pela insistência do buraco, vejo com pessimismo o desafio. Talvez não tenhamos um especialista em crateras nascidas de forças subterrâneas, das entranhas da terra. Faltaria no quadro municipal um profeta? Ou bastaria um bom mestre-de-obras treinado na Roma Antiga, aquela que o grande Afonso Arinos de Melo Franco tanto amou? Já se fez de tudo, Senhor Redator, para aplacar a ira e a fome do buraco misterioso, mas sempre volta na madrugada. Sorrateiro, invencível, avassalador.

Da primeira vez, sejamos justos, foi um buraco grande. Profundo. Como se a natureza tivesse abrindo a boca para gritar contra certos absurdos que o homem pratica em nome da modernidade. E então vieram máquinas e técnicos. Olha daqui, examina dali, e tome aterro para tapar o buraco sem que se saiba até hoje como engoliu tanta terra. Tapou-se. Eis que se não quando, numa dessas madrugadas chuvosas e sombrias, o dia amanhece e lá reaparece, feito maldição, num impávido colosso, o buraco.

Começa o alvoroço nas hostes da engenharia. Como? O buraco reapareceu? No mesmo lugar e maior ainda? Tá brincando. Mas era, sim, o buraco. Enorme. E ai – é natural – já com certa arrogância, afinal não se trata de humilhar ninguém, mas demostrar, como no samba de Noel, que a natureza faz bons buracos também. Melhores que o homem, suas técnicas e máquinas. Ademais, como diria um mestre-escola no apuro vernacular, antes do homem a natureza já fazia buracos imensos nos planetas.

Depois, convenhamos, e de tanto abrir e fechar buracos, a engenharia há de ter algum saber há tempos testado para tapar buracos. Por maiores e mais misteriosos que sejam. Velho repórter da área de cidade, signatário de uma coluna que se chamava ‘Vuco-Vuco’, publicada nas páginas do velho Diário de Natal, conheci muitos buracos. Como o da hoje Praça Tauá Piranga, ou Barro Vermelho em Tupi Guarani, nome sugerido por Câmara Cascudo em nome dos índios ao então prefeito Jorge Ivan.

Mas, devo dizer, eram buracos grandes e cavernosos, mas em compensação – não diria dóceis – não eram misteriosos. Não agiam nas madrugadas, sorrateiros e traidores, num espetáculo digno de um filme de terror. Basta dizer que da última vez nem precisou da chuva para sair do fundo das entranhas da terra. Um buraco como se finalmente fosse mesmo por ali o caminho para se chegar ao Japão, como se dizia no meu tempo de menino. Um buraco digno, reconheçamos. E de uma dignidade formidável.

IMAGEM

O abraço do deputado federal João Maia na deputada estadual Márcia Maia registrado ontem neste JH, em Daniela Freire, ficou como um símbolo perfeito do grande chapão que une Alves, Mariz e Maia.

VAGAS – I

Os calculistas trabalham com duas vagas na chapa de deputado federal: Paulo Wagner e Fátima Bezerra. As duas vagas deixadas por Henrique Alves e João Maia já estão ocupadas por um sobrinho e uma irmã.

MAIS – II

Este é o estilo que marca o chapão das eleições majoritárias e proporcionais deste ano: só as famílias terão espaço na geografia do poder nos próximos quatro anos. E anotem: a idéia é varrer de vez o PT.

UMA – III

Tarefa que na verdade vem ficando a cada eleição mais fácil graças a capacidade de unir todos contra a legenda lulista. A inabilidade do PT ultrapassa todas as previsões, principalmente dos próprios petistas.

VALEU – I

Estavam certos – principalmente o prefeito Carlos Eduardo Alves – os que defendiam a preservação do Hotel Rei Magos, traço da fisionomia da cidade e marco da moderna arquitetura urbana desta Natal.

QUE – II

Os novos donos que restaurem o hotel dentro dos mais modernos padrões de técnica e tecnologia e que sua curva sinuosa que marcou a cidade nos anos sessenta ondule como uma onda do mar. Ainda bem.

ALIÁS – III

O Hotel dos Reis Magos quase desapareceu da cidade vítima do provincianismo modernoso que tem permitido a destruição de tudo. Fomos muito mais cosmopolitas no passado. Antes do obtuso jet-set.

ATENÇÃO

Até edifícios de luxo estão sendo vítima de roubos nascidos da confiança nos seus próprios porteiros e zeladores copiando chaves dos apartamentos. Fechaduras de código numérico são hoje as mais seguras.

JOGO – I

O prefeito Carlos Eduardo Alves percebeu o jogo dos empresários de ônibus resistindo ao entendimento em torno da bilhetagem eletrônica para que a bomba estourasse durante os jogos da Copa do Mundo.

ANTES – II

Ao perceber o jogo, Carlos foi ouvir consultores na área de transporte e pode antecipar a bilhetagem de forma técnica e segura. O desafio continua sendo fazer a concorrência das linhas, um tabu de décadas.

LEITURA

Indispensável a biografia mais reveladora de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir – ‘Uma relação Perigosa’ – da escritora inglesa Carole Seymour-Jones. Mais de 500 páginas sobre um amor misterioso.

HQ

Este ano a Feira de Livros e Quadrinhos de Natal vai contar com um stand mostrando a grande produção de histórias em quadrinhos da Espanha. Osni e Rilder, coordenadores da feira, estão nas articulações.

RAMOS

O arcebispo Dom Jaime Vieira abre as celebrações da Semana Santa com a Missa de Ramos, domingo, depois da procissão que começa às 18h30 nas ruas do centro da cidade, entre a antiga e a nova catedrais.

SABOR

Gustavo Sobral reúne os amigos e leitores a partir de quatro da tarde deste sábado, amanhã, numa das tendas da Feira da Praça Aristófanes para autografar seu belo guia histórico e saboroso de Petrópolis.

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