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O olhar da Guerra

Data: 17 janeiro 2013 - Hora: 14:22 - Por: Conrado Carlos

Na primavera de 1943, o húngaro Endre Ern? Friedmann chegava à Tunísia anônimo em meio a soldados britânicos. De traços mediterrâneos e sotaque esquisito, todo o contato deveria ser feito com o alto comando dos Aliados, ciente de sua presença como membro do Exército americano.

Sob o bonito uniforme, na verdade, escondia-se um dos maiores fotojornalistas de guerra, rebatizado nos anos trinta, na França, como Robert Capa (1913-1954). Ainda em Nova York, onde vivia, sua caixa de correspondência continha três envelopes emblemáticos do que foi sua vida.

No primeiro, o Departamento de Justiça informava que fora classificado como “estrangeiro potencialmente inimigo”, o que o proibia de sair dos Estados Unidos. O segundo era da Cosern da Big Apple, antecipando um possível corte de energia por falta de pagamento. E o último, um cheque de U$1,5 mil da revista Collier´s e uma passagem para Londres o convidava para a Segunda Guerra Mundial.

O périplo de Capa ao sair da tranquilidade da América e saltar no campo de batalha está em “Ligeiramente Fora de Foco”, misto de autobiografia e grande reportagem. Encomendado para ser um roteiro hollywoodiano, virou testemunho do horror através de fotografias impressionantes e um texto entre o cômico e o dramático.

Amigo de John Houston e Billy Wilder, Capa queria ser escritor e roteirista, antes de fazer história como ‘o olhar da guerra’. A proximidade com o mundo do Cinema era total – Alfred Hitchcock tomou emprestado seu romance com Ingrid Bergman para compor o clássico “Janela Indiscreta”.

Desde a travessia do Atlântico, infestado por “uma matilha de submarinos alemães”, até o desembarque na Normandia (foto), o livro revela a constante procura do fotógrafo por desafogo etílico após cada matança, “Deus criou o mundo em seis dias e, no sétimo, criou a ressaca”.

Bem como o choque diário com a carnificina: “Eu vinha fazendo fotografias de guerra e de sangue desde a Espanha, mas mesmo depois de sete anos a visão da carne dilacerada e do sangue fresco fazia meu estômago revirar”.

Sem nunca esquecer sua nacionalidade em um conflito de grande cunho étnico. Preso em uma árvore na Sicilia, ao saltar de paraquedas e machucar-se, silencia no pedido de socorro com medo de levar chumbo de ambos os lados – “Enquanto Hitler dominasse a Hungria, eu me recusava a dizer que era húngaro”.

Famoso pela polêmica foto do miliciano baleado na Guerra Civil Espanhola. mas também pelo destemor em busca do melhor ângulo, Capa morreu ao pisar numa mina, no Vietnã, enquanto acompanhava um pelotão francês, durante a tentativa de recolonização da Indochina. “Se eu tinha de participar do funeral, jurei, eu tinha de participar da procissão”.

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