O olho do povo

Quando, na segunda metade do século dezenove, o bacharelismo passou a ser a grande escola formadora das nossas primeiras elites…

Quando, na segunda metade do século dezenove, o bacharelismo passou a ser a grande escola formadora das nossas primeiras elites intelectuais, surgiu a classe política para ser a vanguarda da consciência crítica nacional. A partir dos bacharéis, e influenciados pelo Iluminismo, acenderam-se no país as idéias sociais das conquistas e avanços como o fim da escravidão e o movimento republicano, para citar exemplos mais marcantes. O bacharelismo fundou, pois, as bases de uma nação brasileira.

O Brasil rural, na verdade, tinha uma estrutura feudal assentada sobre um mando dominador, herança portuguesa feita de exploradores e não de descobridores do Novo Mundo. Aqui nunca vieram para fundar uma civilização. A Terra Brasilis, virgem e encantadora, foi sempre um lugar para extrair riqueza e levá-la nos porões dos seus navios. Quem sabe, nasceu ali, no Brasil colonial, aquele vício perverso de levar vantagem em tudo que já dura mais de cinco séculos nestes belos e tristes trópicos.

Em resumo, pois o tempo urge: daquele hoje antigo novo mundo, já velho de quinhentos anos, passamos a um novo mundo que não é novo nem muito menos o admirável mundo novo de Aldous Huxley. E fez-se um Brasil com raízes no velho mandonismo que ainda hoje viceja entre dominadores e dominados. Da distorção veio a nova classe política transformando mandatos em empregos de alto luxo, exercidos sem espírito público, unindo o despreparo ao vício e gerando as suas monstruosidades.

É nesse cenário Senhor Redator, que o despreparo pode nos levar a uma gravidade mais terrível do que a própria corrupção e a impunidade. A classe política, dilacerada por sua própria deformação e gravemente degradada pelo descrédito popular, sequer consegue ser capaz de perceber o processo de mudança que está nas ruas. De uma sociedade que se organiza com velocidade, desde os empresários empreendedores de religiões, a grupos gays e os aparentemente inofensivos rolezinhos dos black blocs.

E esse enlouquecimento das células sociais já criando centenas de instituições de defesa desses e daqueles grupos ou segmentos, é o que pode acabar por desorganizar a sociedade na medida em que corre o risco de jogar no descrédito as instituições. A arrecadação borbulhante de milhares e milhares de reais para que os réus do Mensalão paguem suas multas impostas pelo avanço nos cofres públicos é uma demonstração de que a grave decisão do Supremo Tribunal Federal perdeu seu caráter exemplar.

Da indiferença que fez do Brasil o país generoso com a lei e a ética, que tudo releva em nome do futebol e do carnaval, nasce um Brasil fervente que sai às ruas, instala um tribunal sumário e julga seus homens públicos, parlamentares ou governantes, de forma inapelável. Enquanto os políticos do Brasil de ontem fazem conchavos nas coxias dos palácios como se a sociedade fosse aquela mesma de quando mandavam e desmandavam. Nem notam que hoje são prisioneiros do olho vigilante do povo.

 

CONVERSA – I

O deputado Henrique Alves foi conversar outra vez com a ex-governadora Wilma de Faria em sua casa. Quer ter certeza de que aceita candidatura ao Senado. Aceita. Desde que o PMDB não atrapalhe.

CLARO – II

Que a conversa não foi em termos tão claros assim, afinal a sinceridade, em política, nunca é praticada com teor elevado de 100%. Mas Henrique ainda é a palavra de maior credibilidade junto ao wilmismo.

CUIDADO – III

Na articulação que caminha lentamente, Henrique sabe que não poderá partir do seu lado qualquer tipo provocação que venha por em dúvida ou trazer desconfiança a uma aliança que precisa ser ou não ser.

ALIÁS – IV

Um dos problemas práticos do PMDB, como partido-líder da aliança, é o posicionamento na relação com o Governo Rosalba já que a posição clara da ex-governadora Wilma de Faria é de oposição total.

EFEITO – V

Segundo fontes ligadas à ex-governadora, seu posicionamento de oposição foi claro, forte e definitivo desde as inserções da propaganda do PSB. E Wilma calar a essa altura seria abraçar a própria derrota.

BOMBA?

Imaginar que a Câmara ou o Senado tem altivez para uma pauta bomba é acreditar que a classe política no Brasil pode mais que fazer o jogo velado do executivo. Como tem feito, mesmo depois da ditadura.

ESCOLHA

Tudo indica para os que andam pelos corredores silenciosos e estranhos da governadoria que o coronel Araujo, comandante da PM, pode ser o novo secretário de segurança. É uma missão do tipo penitência.

CRISE

As dificuldades operacionais da PM ficaram mais uma vez expostas durante a Operação Verão. A sua presença precisava ser ostensiva sob pena de ser inócua. E já foi muito menor que nos outros verões.

EPIDEMIA

A dengue não é a pior epidemia no Rio Grande do Norte. Bem pior é a peste do abandono a que foi submetido o RN. Só pelo governo Rosalba? Não. Por sua classe política que nunca esteve tão distante.

PIADA

Investir R$ 50 mil reais na atualização do acervo da Biblioteca Câmara Cascudo, depois de quase 30 anos sem adquirir nada, é uma declaração que só cabe na boca torta de quem não sabe nada de livros.

LUGAR

O Parque da Cidade, um projeto de Oscar Niemayer e patrono D. Nivaldo Monte, será o novo lugar do Festival Literário de Natal. E as suas obras de restauração vão ser inauguradas ainda no mês de abril.

POSSE

Será dia 9 de abril, no salão nobre, a posse do romancista Antônio Torres na Academia Brasileira de Letras, o mais recente eleito para a cadeira n. 23. Torres vai ser saudado pela escritora Nélida Piñon.

CÂNCER – I

O relatório da Agência Internacional para a Pesquisa do Câncer revela que esta será a doença de maior incidência e mortalidade nas próximas duas décadas. Previsão chega a alcançar 25 milhões de vítimas.

DESASTRE – II

Segundo Isaac Christopher, diretor da Agência, a projeção é de que o câncer se transforme numa nova desgraça contra a saúde humana. E os estudos mostram que será muito pior na vida dos desprotegidos.

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