O país do gol – Conrado Carlos

O título mundial de seleção feminina mostrou, mais uma vez, que o handebol é tão ou mais emocionante que o…

O título mundial de seleção feminina mostrou, mais uma vez, que o handebol é tão ou mais emocionante que o basquete e o voleibol.

Pressão corpo-a-corpo, faltas frequentes, jogadoras suspensas por dois minutos, gols e defesas com alto teor de plasticidade, os temíveis sete metros (espécie de pênalti), tudo transforma a modalidade em uma das mais concorridas na Europa, e agora em um inegável orgulho e expectativa para o país onde serão disputados os próximos Jogos Olímpicos.

Como sempre fomos meros figurantes, torneios eram negligenciados.

A ponto de chegarmos à final contra a Sérvia, no caldeirão da Kombank Arena, em Belgrado, sem uma cobertura jornalística digna do feito realizado por Alexandra (foto), Duda, Babi, Deonise e toda aquela turma comandada por um dinamarquês que casou com uma baiana e adotou o Brasil como verdadeiro lar.

O Lance marcou presença.

O Globo.com também.

O restante ficou ligado no canal Esporte Interativo, única emissora a televisionar as partidas ao vivo.

Não à toa o narrador enfatizou a situação.

Milhares de mensagens via Twitter e Facebook cobravam a inserção da emissora carioca nas principais operadoras de canais fechados – a saber, NET e SKY.

E o sujeito com a voz irritante passava na cara da concorrência a vitória do canal que apostou no handebol quando as atenções estavam voltadas para cortadas, bloqueios, arremessos e enterradas.

Enquanto lamentamos a falta de empenho de alguns atletas para representar a seleção de basquete, mesmo com a realidade proibitiva dos times da NBA, pagões de altos salários à Nenê, Leandrinho e Cia, as meninas mostraram coragem e competência para encarar os vinte mil sérvios ensandecidos que empurravam o hepteto nacional.

Eu acompanhei o torneio e digo que o jogo contra a Hungria, nas quartas, foi o mais difícil.

Após duas prorrogações, a vitória por 33×31 exigiu gás do telespectador, como subir dez andares pela escada.

As húngaras, vale frisar, também já foram campeãs mundiais e chegaram em dez semifinais, desde o primeiro torneio, em 1957.

Na final, o terceiro maior ginásio da Europa estava lotado.

E furioso.

Nos momentos de igualdade no placar (a Sérvia ficou à frente do Brasil apenas uma vez, nos 60min), o lugar parecia que abrigava uma edição clássica do UFC – tipo a que veremos sábado que vem (28), na revanche de Anderson Silva x Chris Weidman.

Mas as brasileiras queriam repetir o que tinham feito com as tricampeãs olímpicas, as dinamarquesas, dois dias antes, nas semis: bater o rival duas vezes na mesma competição.

Ainda na fase de grupos, as donas da casa caíram para as Guerreiras do Patropi em duros 25×23.

Foi a segunda vez que uma seleção não europeia chegou à final em um mundial – em 1995, a Coréia do Sul, bicampeã olímpica, bateu a própria Hungria.

Antes de iniciar a jornada antológica, o Brasil, então 22º do ranking, era tratado pela mídia especializada como dono de uma das melhores defesas do mundo, além de ter a Marta do handebol – a maranhense Alexandra, primeira sul-americana a ganhar a ‘bola de ouro’ da Federação Internacional.

E foi exatamente nossa defesa que brecou o ímpeto das adversárias.

Finalmente, fomos localizados no mapa do handebol – pelo menos no feminino.

Mais que um dos principais feitos esportivos do ano, a inédita conquista entra na galeria dos momentos marcantes da história do desporto brasileiro.

Sobretudo pela falta de tradição e apoio de patrocinadores.

Neste domingo chuvoso, nublado e de ventania constante, o começo de tarde foi para chorar sem frescura machista ou atitude esnobe em relação ao proposto.

A cada gol, subia a ansiedade.

Até que uma pequena vantagem (22×20), faltando poucos segundos, confirmou o que todos desconfiavam.

Quem cuida do esporte no país terá a missão de saber o que fazer com esse novo status de potência adquirido pelo handebol feminino.

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